Em entrevista ao Infocul, o músico de Rio Maior apresenta “A Vida Não Foge”, recorda o encontro com Sara Correia no “The Voice” e fala sobre as canções que nasceram do medo, do amor e da relação com o avô.
Entrevista e texto: Rui Lavrador
Fotografias: Francisco Inácio
Francisco Inácio está prestes a completar 18 anos e prepara-se para lançar uma canção que pede tempo. “A Vida Não Foge” nasceu de inquietações sobre a perda, mas também da vontade de abrandar e de aceitar que os sonhos nem sempre chegam quando se espera. Para um jovem que já passou pelo “The Voice”, lançou temas em nome próprio e procura transformar a atenção de uma atuação televisiva numa relação duradoura com o público, o título tem um significado particular.
Nesta entrevista ao Infocul, o músico de Rio Maior fala com igual disponibilidade sobre aquilo que o orgulha e o que faria de outra maneira. Há uma primeira canção que hoje talvez não lançasse, outra que quase ficou reservada à família e uma admiração por Jorge Palma que o ensinou a escutar as palavras para além da melodia.
Quando tenta explicar como concilia essa influência com a procura de uma voz própria, encontra uma resposta que atravessa toda a conversa: “Aprendo com a maneira como ele conta, mas as histórias têm de ser minhas.”
Rio Maior, o fado do pai e os primeiros palcos
Se tivesse de mostrar a alguém o lugar onde começou a tornar-se músico, Francisco escolheria a Escola de Música e Dança de Rio Maior. É ali que situa as primeiras experiências de palco e uma parte decisiva da sua formação.
“Sou riomaiorense. Foi em Rio Maior que comecei na escola e foi lá que dei os meus primeiros passos na música e em cima de palcos, graças à Escola de Música e Dança de Rio Maior. Se levasse alguém a conhecer o meu lugar, começávamos por aí, e percebia-se que tudo o que sou como músico nasceu ali.”
Em casa, a descoberta começou antes, por influência do pai. O fado ocupava o espaço que, mais tarde, seria partilhado com outras referências portuguesas.
“Lá em casa o fado mandava, muito por causa do meu pai. Foi com ele que comecei a ouvir fado, e só depois fui abrindo para o Rui Veloso e para os Xutos. A canção que me faz regressar logo a esse tempo é ‘Os Putos’, do Carlos do Carmo.”
Cantar tornou-se uma presença constante, mesmo quando ainda havia vergonha a vencer.
“Para mim, cantar e a música têm um lugar enorme na minha vida desde pequeno. Cantava para todos: no início com receio, mas depois de passar a vergonha inicial cantava para toda a gente. Aos 10 anos comecei as aulas de guitarra e a paixão cresceu ainda mais; mais tarde comecei também as aulas de canto.”
O incentivo do senhor Zé e um futuro também atrás da câmara
Antes dos lançamentos e da televisão, houve alguém que ouviu as primeiras gravações e ajudou Francisco a acreditar que podia escrever as suas próprias canções.
“Quem ouviu as minhas primeiras gravações foi o senhor Zé, marido da minha professora de guitarra da escola de música. Foi ele que me ajudou a escrever a minha primeira música a sério, ‘Duas Vozes’, e que me incentivou a continuar.”
O percurso não se limita, porém, à música. A fotografia e o vídeo também fazem parte da vida do jovem, que já frequenta o ensino superior.
“Estudei Multimédia e estou na faculdade. Além da música sou fotógrafo e videógrafo, e é aí que me vejo também no futuro.”
São interesses que convivem com a composição e com os palcos, numa fase em que Francisco começa a definir o que quer construir profissionalmente, sem concentrar todas as possibilidades numa única atividade.

Jorge Palma entrou na sua vida numa aula
A ligação à obra de Jorge Palma começou no 7.º ano, quando um professor de música lhe propôs cantar “A Gente Vai Continuar”. Dessa experiência ficou uma gravação e uma curiosidade que se prolongou.
“Descobri o Jorge Palma no 7.º ano. Foi um professor de música que me pôs a cantar ‘A Gente Vai Continuar’, e chegámos a gravar um cover que ainda está no meu canal de YouTube. A partir daí comecei a explorar a obra dele e ficou o meu favorito.”
A canção acompanhou o crescimento de Francisco e foi ganhando significados que não encontrara no primeiro contacto.
“‘A Gente Vai Continuar’ foi a canção que mais me mudou, e curiosamente fui mudando eu com ela. Quando a cantei pela primeira vez, ainda miúdo, fiquei preso à melodia e à beleza da balada. Com o tempo, as palavras ganharam outro peso. Hoje ouço-a de forma mais atenta, percebo a história que a letra conta e a força que tem na simplicidade. É uma daquelas canções que crescem com quem as ouve.”
Essa escuta influenciou a maneira como passou a pensar a escrita. Francisco reconhece a proximidade, mas sabe também onde quer estabelecer a diferença.
“Claro que acontece, e com o Palma ainda mais, porque foi com ele que aprendi a dar valor a uma letra com história. Dou por mim a querer escrever com essa honestidade, sem esconder o que sinto. Mas acho que a influência acaba onde começa a minha vida: ele escreveu sobre o mundo dele e eu escrevo sobre o meu. Aprendo com a maneira como ele conta, mas as histórias têm de ser minhas.”
A canção que gostaria de mostrar ao seu ídolo
Entre os temas que já escreveu, Francisco escolheria “Carta”, do EP “Fragmentos”, para pedir a Jorge Palma uma opinião sobre o seu trabalho. A escolha prende-se com o grau de exposição pessoal que reconhece na canção.
“Escolhia ‘Carta’, do EP ‘Fragmentos’. É uma canção em que sinto que me mostro por inteiro, e por isso era a que queria que ele ouvisse. Pedia-lhe uma opinião sincera sobre a letra: se a mensagem chega como eu quero e se tem a honestidade que ele sempre pôs nas dele. Sendo um artista que admiro tanto pela forma de contar, ouvir a opinião dele era o que mais gostava.”
Francisco acrescenta uma impossibilidade que dá outro peso a esse desejo: “Infelizmente já não vai ser possível, mas continuo a escrever a pensar nessa exigência.”
Recorde-se que Jorge Palma faleceu recentemente.
A preocupação com a clareza da mensagem regressa várias vezes durante a entrevista. Para Francisco, escrever implica perceber se aquilo que sente consegue chegar a outra pessoa, sem perder a ligação à história que deu origem à canção.
É também essa procura que orienta o tema que se prepara para lançar.
“A Vida Não Foge” começou por ser outra história
A primeira versão de “A Vida Não Foge” estava longe da que chegará ao público. Antes de encontrar o título e o assunto definitivos, Francisco tinha começado a escrever sobre mudança e sobre a sensação de estar deslocado.
“Comecei por gravar uma melodia e só depois escrevi a letra. A canção mudou muito pelo caminho: no início nem tinha este nome e nem falava de a vida não fugir. Era sobre pensamentos recentes, mudar de sítio, estar deslocado e mudar um bocado. Essa ideia acabou por ser, de certa forma, substituída quando as perdas recentes me tocaram e senti a necessidade de falar delas. Escrevi a letra em pouco tempo e foi assim que nasceu ‘A Vida Não Foge’.”
Ao explicar a origem do título, Francisco identifica as perdas que estiveram presentes na escrita: “‘A Vida Não Foge’ nasceu da necessidade de falar sobre a partida recente de tanta gente, incluindo na música, como o Jorge Palma e o Luís Represas, e de outras pessoas que partiram assim, de repente.”. Francisco explica que a vontade de abordar a perda não o levou, contudo, a escrever apenas sobre tristeza.
“Mas a canção não fala só disso. Fala também de sonhos que chegam quando têm de chegar e de ir devagar para aproveitar a vida.”
A decisão representou uma experiência diferente face ao repertório anterior.
“Em ‘A Vida Não Foge’ permiti-me falar de um assunto mais pesado do que o habitual, as perdas recentes, mas sem perder a leveza de quem diz ‘vai devagar’. Foi uma escolha em que tive de confiar mais em mim do que no que seria esperado.”
Um convite a abrandar antes dos 18 anos
Francisco resume a intenção do novo tema através de um dos seus versos: “Vai devagar que a vida não foge a ninguém.”
A frase dá forma a uma reflexão que nasceu da observação do que acontecia à sua volta, e não de um episódio pessoal específico.
“Ver partir tanta gente assim, de repente, fez-me parar. Mas a mensagem não é triste. É um convite a abrandar, a confiar que os sonhos chegam quando têm de chegar e a aproveitar o caminho, em vez de correr atrás de tudo ao mesmo tempo. Não nasceu de nenhuma experiência minha em concreto, nasceu de ver estas partidas e de sentir que precisava de falar delas.”
À chegada dos 18 anos, essa disponibilidade para esperar convive com a vontade de continuar a lançar música e de conquistar ouvintes. Francisco não esconde a ambição, mas procura afastar a obrigação de ter tudo resolvido imediatamente.
Sobre a conversa que gostaria de despertar com o lançamento, responde:
“Gostava que a conversa que começasse a partir de ‘A Vida Não Foge’ fosse sobre isso mesmo: irmos devagar, porque a vida não foge a ninguém. Deixar o mundo passar, porque há sempre algo mais além. Nem tudo acontece já, e há sonhos que chegam quando têm de chegar.”
“Verdade”: a canção que hoje talvez não lançasse
Olhar para o percurso também significa reconhecer distância em relação às primeiras escolhas. Quando lhe perguntamos qual dos seus temas sente pertencer a uma versão de si de que já se afastou, Francisco não hesita.
“A ‘Verdade’. Foi das primeiras que lancei e é a menos bem feita que tenho. A sonoridade já não me cativa e, se a fizesse hoje, muito provavelmente não a lançava. Mas foi ela que me ensinou o que eu queria e não queria fazer a seguir. Cantá-la agora é olhar para trás e ver de onde vim.”
A franqueza não apaga o valor dessa experiência. O músico reconhece no tema uma aprendizagem que ajudou a orientar o trabalho seguinte.
Em “Fragmentos”, encontrou outra forma de organizar as canções. “Carta”, “Onde Fico Eu” e “Acordei Perdido” pertencem, segundo explica, a uma mesma sequência narrativa.
“Não sei bem dizer porquê, mas as três contam uma história. A ‘Carta’ fala de um rapaz que quer enviar uma carta à sua amada, ou à sua futura namorada, e por medo não a envia e rasga-a. A ‘Onde Fico Eu’ é a continuação dessa história. E ‘Acordei Perdido’ fala de escolhas amorosas más, e tem uma frase que diz: ‘vivem por companhia e não sabem amar’.”
O fio que as une tornou-se mais claro ao falar sobre elas: “Talvez seja essa a ligação que ninguém me perguntou: são três momentos da mesma história, do medo de dizer ao não saber onde ficar e ao acordar perdido.”
“Raízes” quase ficou apenas na família
Uma das decisões mais difíceis de partilha envolveu “Raízes”, canção que escreveu para o avô durante um internamento. O receio não estava apenas em expor algo íntimo, mas em não conseguir corresponder ao significado que aquele gesto tinha para si.
“Escrevi-a há cerca de um ano para o meu avô, quando ele esteve no hospital. Tive muito receio de a mostrar, por medo de não estar boa o suficiente ou de não agradar, e pensei muito antes de a publicar.”
A intenção inicial era manter o tema num círculo restrito. Acabou por escolher a noite de Natal para o tornar público, acompanhado por um videoclipe.
“Inicialmente era só para a mostrar a ele e à família, e mais nada. Mas acabei por a publicar, com videoclipe, na noite de Natal, como presente para ele. Acho que decidi o que tornar público quando percebi que a canção valia mais como gesto de carinho do que como motivo de receio.”
A responsabilidade assume outra forma quando interpreta histórias que não são suas. Foi o que aconteceu com “Balada de Gisberta”.
“Quando ouvi a ‘Balada de Gisberta’ pela primeira vez, fiquei logo tocado. É uma canção com muito peso, que fala de uma mulher trans que foi assassinada com uma violência extrema só por ser quem era, e ao mesmo tempo tem uma mensagem muito bonita. Como não é uma história minha, quis cantá-la com todo o respeito, sem exageros, deixando que a letra e a história falassem por si.”
“Não fui ao The Voice só com a ideia de ganhar”
A passagem pelo “The Voice” deu-lhe uma oportunidade de se apresentar a um público mais alargado. Francisco escolheu “Fazer o Que Ainda Não Foi Feito” e levou para o palco uma intenção que ultrapassava o resultado da competição.
“Não fui ao The Voice só com a ideia de ganhar. Fui para mostrar o que aprendi ao longo do meu percurso, o que sei fazer e, acima de tudo, o meu potencial. Era a minha oportunidade de me apresentar a todos como artista, e queria que as pessoas ficassem a conhecer-me por aquilo que sou, e não apenas por uma voz.”
A escolha do tema foi determinada pela letra e pela relação que estabeleceu com ela.
“Escolhi-a pela letra e pelo peso que ela tem na minha vida. Para mim, a canção fala de ir mais além e de ter coragem de tentar aquilo que ainda ninguém fez, e senti que era a melhor forma de me apresentar naquele palco.”
Ao rever a atuação, consegue identificar a preparação, mas também aquilo que escapou ao ensaio.
“Quando revejo a atuação, percebo que há coisas que preparei e que estavam no sítio, mas também há momentos que só aconteceram por causa dos nervos e da emoção. Num palco daqueles é impossível separar as duas coisas por completo, e acho que foi isso que tornou o momento verdadeiro.”
Sara Correia ajudou-o a controlar os nervos
Do encontro com Sara Correia, com quem cantou no programa, Francisco guarda a dimensão da voz e a forma como foi recebido.
“O que mais me ficou foi a voz dela, que é de outro mundo. Mas, para além de ser uma cantora enorme, é uma mulher cinco estrelas: muito simpática e atenciosa. Quando começámos a música, no palco, conseguiu tranquilizar-me e acalmar os meus nervos, e graças a isso consegui cantar mais à vontade, porque não é fácil cantar ao lado de alguém tão importante.”
Depois da televisão, surgiu um desafio diferente: levar as pessoas que o conheceram naquele momento até às canções que já escrevia e lançava.
“Já lançava música antes da televisão, mas depois do programa senti que muita gente continuava ligada sobretudo àquela atuação. Por isso estou a viver essa passagem aos poucos: de ser reconhecido por um momento para ser acompanhado pelas minhas canções. Cada lançamento novo é uma oportunidade de mostrar que há mais para ouvir.”
A exposição, garante, não alterou a relação com os amigos nem a maneira de estar fora do palco.
“Sou totalmente igual. Acho que temos de ser nós mesmos e nunca fingir nada. Não é por ter ido à televisão, por lançar músicas ou por estar num palco que sou mais do que alguém. Sou exatamente igual a quem me ouve e a quem me conhece.”
O desafio de aparecer e a vontade de não forçar
A dificuldade que mais o surpreendeu neste percurso está no trabalho que acompanha cada lançamento. Escrever e gravar são apenas uma parte do processo; divulgar exige uma regularidade que Francisco admite ainda estar a construir.
“O que mais me tem exigido é a constância. Hoje toda a gente consegue publicar nas plataformas digitais, por isso ser músico é muito mais do que lançar canções: é divulgá-las, aparecer e estar presente para conseguir crescer. E essa é a parte em que sinto mais dificuldade. Não sou muito constante e divulgo pouco, e às vezes passo meses sem lançar música nova e sem divulgar nada. É algo em que estou a trabalhar.”
É entre essa necessidade de estar presente e o desejo de respeitar o próprio ritmo que se prepara para apresentar “A Vida Não Foge”. Ainda há muito que gostaria de escrever, mas não quer transformar cada experiência numa obrigação de produzir.
“Quanto à parte da minha história que ainda espera uma canção, sinto que ainda há muito por contar. Tenho a certeza de que as canções vão chegar quando tiverem de chegar, tal como os sonhos, e não quero forçar nada.”
