A PSP advertiu os manifestantes pelo direito à habitação em Lisboa e no Porto para retirarem as tendas, numa madrugada em que os protestos continuavam sem um desfecho anunciado. Os participantes defendem a permanência no Rossio e na Praça D. João I até obterem resposta às reivindicações.
A continuidade dos acampamentos pelo direito à habitação esteve sob pressão policial na passagem de domingo para segunda-feira, 19 de outubro. Em Lisboa, elementos da PSP disseram aos participantes que não pretendiam avançar para uma intervenção, mas avisaram que “a situação não pode continuar”.
Segundo o Correio da Manhã, os porta-vozes do movimento anunciaram que iriam reunir-se para decidir se retiravam as tendas da Praça D. Pedro IV, no Rossio, onde o acampamento se mantém desde o final da tarde de sábado.
No Porto, a PSP também falou com os participantes no início da madrugada. Pelas 01h30, foi lido um comunicado a pedir a retirada pacífica das tendas e a desmobilização. A mensagem manifestava compreensão pelas reivindicações e apresentava o enquadramento legal do direito à manifestação.
Até esse ponto do relato, os manifestantes permaneciam na Praça D. João I, sem indicação de que o acampamento tivesse sido levantado.
“Só iremos sair se as nossas reivindicações forem atendidas”
Os protestos exigem o fim da reforma da lei das rendas, que, de acordo com o CM, foi aprovada na generalidade pelos partidos de direita, o reforço do parque habitacional público e o fim dos despejos de pessoas sem alternativa de alojamento.
Durante o domingo, Bruno, engenheiro informático de 30 anos e um dos promotores da iniciativa em Lisboa, tinha deixado clara a intenção de permanecer.
“Hoje é hoje, amanhã será outro dia, mas só iremos sair se as nossas reivindicações forem atendidas”, afirmou. O ativista, que critica o valor das rendas, acrescentou que “nota-se que há uma solidariedade popular” e garantiu: “Estamos aqui para ficar.”
No Porto, Jéssica, de 34 anos, explicou que decidiu acampar para “se fazer ouvir” e exigir medidas do Governo de Luís Montenegro. Entre os participantes, repetia-se a palavra de ordem: “Daqui não saio. Daqui ninguém nos tira.”
Em Lisboa, primeira noite terminou sem intervenção
A abordagem policial no Rossio aconteceu perto da meia-noite, horário em torno do qual a manifestação da noite anterior tinha sido formalmente encerrada. Segundo o relato do CM, permaneceram depois pessoas a protestar a título individual.
Na primeira madrugada do acampamento lisboeta, não houve intervenção policial. Bruno contou que “a polícia desmobilizou às três da manhã” e associou esse desfecho à adesão ao protesto.
“Se a ‘acampada’ não tivesse a participação de tanta gente — que temos de agradecer —, se calhar, era mais fácil afastar-nos daqui”, afirmou.
Sobre a noite passada na praça, resumiu: “Dormi como uma pedra.”
Com o início da semana de trabalho, a organização da permanência tornou-se uma preocupação para vários participantes. Bruno explicou que, no seu caso, o trabalho à distância permite conciliar as duas atividades: “Eu até estou em teletrabalho, por isso, não tenho problemas em continuar aqui. Vantagens da informática. Só se bloquearem a Internet.”
No Porto, movimento desafia Pedro Duarte a ir à praça
A possibilidade de diálogo com a Câmara do Porto também esteve em discussão. Depois de o presidente da autarquia, Pedro Duarte, ter manifestado disponibilidade para ouvir os manifestantes, o porta-voz Pedro Lopes respondeu que o autarca “sabe onde está o movimento”.
“Se quiser dialogar, é só vir aqui. Garantimos a segurança dele, se for necessário”, declarou.
Quanto à anterior intervenção policial no Porto, as versões mantêm-se divergentes. A organização sustenta que o protesto foi sempre pacífico, enquanto a PSP justificou a carga com a existência de “resistência”. Pedro Duarte considerou que a polícia foi “forçada” a intervir, invocando um desrespeito ostensivo da lei.
Durante o domingo, seis participantes limparam e lavaram o piso da Praça D. João I. A organização explicou que pretende manter o espaço limpo e evitar motivos que possam ser usados para exigir o levantamento das tendas.
O movimento assegura ainda a separação do lixo e diz utilizar a recolha de embalagens através do sistema Volta para angariar dinheiro para alimentação.
Apoio alimentar e conversas com quem passa
Na Praça D. João I, a zona de alimentação recebe contributos da população. Segundo elementos da organização citados pelo CM, a quantidade de comida quase triplicou no domingo, levando os participantes a distribuir tarefas para melhorar o funcionamento do acampamento.
Em Lisboa, o protesto também despertou reações de quem passava. Luigi e Ana, professores reformados de Turim, apresentaram posições distintas: ele criticou “a forma como a juventude europeia foi conquistada pelo ‘wokismo’”; ela apoiou os ativistas, dizendo: “Têm de ser vocês a fazer alguma coisa pelo vosso futuro.”
Pedro Lourenço, de 26 anos, que vive em casa dos pais, em Mafra, procurava registar essas conversas com uma câmara para as divulgar nas redes sociais.
“Quero captar a essência deste movimento e esta energia incrível”, explicou à agência Lusa. Acrescentou que pretende “abordar as pessoas”, porque “não podemos viver em bolhas separadas”.
Protestos acompanham disputa política sobre habitação
As manifestações decorreram num contexto de confronto político sobre as respostas à crise da habitação.
André Ventura anunciou que o Chega apresentará um “pacote legislativo de emergência”, admitindo défice orçamental para financiar as propostas. Entre as medidas anunciadas estão uma revisão do IMI e um aumento de 50% das deduções em IRS relativas a rendas e prestações do crédito à habitação.
José Luís Carneiro, do PS, acusou Ventura de contradição por manifestar preocupação com a habitação enquanto apoia a lei das rendas da AD, afirmando que poderia receber o “Nobel da hipocrisia”.
Já o ministro Miguel Pinto Luz afirmou compreender a “dor” dos manifestantes, mas rejeitou atribuir ao Governo a responsabilidade pelos atrasos na implementação das medidas necessárias.
Na madrugada desta segunda-feira, a questão imediata nas duas praças continuava a ser a permanência das tendas, depois dos avisos da PSP e perante a intenção expressa pelos participantes de manter o protesto.
