Helena Sacadura Cabral reflete sobre dependência: “Aquilo que prometeu salvar acaba por consumir”, escreveu.
Helena Sacadura Cabral partilhou nas redes sociais uma reflexão sobre a dependência e o modo como esta pode transformar a vida de uma pessoa de forma lenta, silenciosa e profunda.
Na publicação, intitulada “A dependência”, a autora aborda o tema para lá da ideia de vício imediato. Fala de solidão, culpa, vergonha, perda de liberdade e da dificuldade em recuperar a capacidade de escolha.
Quando o escape passa a comandar a vida
Logo no início da partilha, Helena Sacadura Cabral descreve a dependência como um processo que começa quase sem alarme. O que antes parecia aliviar acaba por ocupar o centro da vida.
𝗛𝗲𝗹𝗲𝗻𝗮 𝗦𝗮𝗰𝗮𝗱𝘂𝗿𝗮 𝗖𝗮𝗯𝗿𝗮𝗹 𝗲𝘀𝗰𝗿𝗲𝘃𝗲𝘂: “𝗛á 𝘂𝗺 𝗺𝗼𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗲𝗺 𝗾𝘂𝗲 𝗮 𝗽𝗲𝘀𝘀𝗼𝗮 𝗱𝗲𝗶𝘅𝗮 𝗱𝗲 𝗽𝗿𝗼𝗰𝘂𝗿𝗮𝗿 𝗽𝗿𝗮𝘇𝗲𝗿 𝗲 𝗽𝗮𝘀𝘀𝗮 𝗮𝗽𝗲𝗻𝗮𝘀 𝗮 𝗲𝘃𝗶𝘁𝗮𝗿 𝗮 𝗱𝗼𝗿 𝗱𝗮 𝗮𝘂𝘀ê𝗻𝗰𝗶𝗮. 𝗔 𝗹𝗶𝗯𝗲𝗿𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗱𝗶𝗺𝗶𝗻𝘂𝗶 𝗱𝗲𝘃𝗮𝗴𝗮𝗿, 𝗾𝘂𝗮𝘀𝗲 𝘀𝗲𝗺 𝘀𝗲 𝗻𝗼𝘁𝗮𝗿. 𝗢 𝗵á𝗯𝗶𝘁𝗼 𝗴𝗮𝗻𝗵𝗮 𝗲𝘀𝗽𝗮ç𝗼, 𝗼𝗰𝘂𝗽𝗮 𝗽𝗲𝗻𝘀𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼𝘀, 𝗮𝗹𝘁𝗲𝗿𝗮 𝗿𝗼𝘁𝗶𝗻𝗮𝘀, 𝗮𝗳𝗮𝘀𝘁𝗮 𝗽𝗲𝘀𝘀𝗼𝗮𝘀 𝗲 𝗺𝘂𝗱𝗮 𝗽𝗿𝗶𝗼𝗿𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲𝘀. 𝗢 𝗾𝘂𝗲 𝗮𝗻𝘁𝗲𝘀 𝗲𝗿𝗮 𝗲𝘀𝗰𝗮𝗽𝗲 𝘁𝗼𝗿𝗻𝗮-𝘀𝗲 𝗰𝗲𝗻𝘁𝗿𝗼.”
A frase aponta para uma ideia central da publicação: a dependência não chega sempre de forma brusca. Muitas vezes, instala-se no quotidiano até alterar escolhas, relações e prioridades.
Vergonha e culpa alimentam o ciclo
Depois, Helena Sacadura Cabral olha para a solidão que acompanha quem vive uma dependência. Mesmo rodeada de pessoas, a pessoa pode acabar isolada dentro de si própria.
𝗔 𝗮𝘂𝘁𝗼𝗿𝗮 𝗱𝗲𝘀𝗰𝗿𝗲𝘃𝗲𝘂: “𝗘𝘅𝗶𝘀𝘁𝗲 𝘁𝗮𝗺𝗯é𝗺 𝘂𝗺𝗮 𝘀𝗼𝗹𝗶𝗱ã𝗼 𝗽𝗿𝗼𝗳𝘂𝗻𝗱𝗮 𝗻𝗮 𝗱𝗲𝗽𝗲𝗻𝗱ê𝗻𝗰𝗶𝗮. 𝗠𝗲𝘀𝗺𝗼 𝗿𝗼𝗱𝗲𝗮𝗱𝗮 𝗱𝗲 𝗴𝗲𝗻𝘁𝗲, 𝗮 𝗽𝗲𝘀𝘀𝗼𝗮 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗮𝘀 𝘃𝗲𝘇𝗲𝘀 𝘃𝗶𝘃𝗲 𝗶𝘀𝗼𝗹𝗮𝗱𝗮 𝗱𝗲𝗻𝘁𝗿𝗼 𝗱𝗲 𝘀𝗶 𝗽𝗿ó𝗽𝗿𝗶𝗮. 𝗔𝗽𝗿𝗲𝗻𝗱𝗲 𝗮 𝗲𝘀𝗰𝗼𝗻𝗱𝗲𝗿 𝗲𝘅𝗰𝗲𝘀𝘀𝗼𝘀, 𝗮 𝗷𝘂𝘀𝘁𝗶𝗳𝗶𝗰𝗮𝗿 𝗰𝗼𝗺𝗽𝗼𝗿𝘁𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼𝘀, 𝗮 𝗽𝗿𝗼𝗺𝗲𝘁𝗲𝗿 𝗺𝘂𝗱𝗮𝗻ç𝗮𝘀 𝗾𝘂𝗲 𝗻ã𝗼 𝗰𝗼𝗻𝘀𝗲𝗴𝘂𝗲 𝘀𝘂𝘀𝘁𝗲𝗻𝘁𝗮𝗿. 𝗘 𝗾𝘂𝗮𝗻𝘁𝗼 𝗺𝗮𝗶𝗼𝗿 𝗮 𝘃𝗲𝗿𝗴𝗼𝗻𝗵𝗮, 𝗺𝗮𝗶𝗼𝗿 𝘁𝗲𝗻𝗱𝗲 𝗮 𝘀𝗲𝗿 𝗼 𝗰𝗶𝗰𝗹𝗼 𝗱𝗲 𝗿𝗲𝗽𝗲𝘁𝗶çã𝗼. 𝗔 𝗱𝗲𝗽𝗲𝗻𝗱ê𝗻𝗰𝗶𝗮 𝗮𝗹𝗶𝗺𝗲𝗻𝘁𝗮-𝘀𝗲 𝗽𝗿𝗲𝗰𝗶𝘀𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗱𝗲𝘀𝘀𝗮 𝗺𝗶𝘀𝘁𝘂𝗿𝗮 𝗲𝗻𝘁𝗿𝗲 𝗻𝗲𝗰𝗲𝘀𝘀𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗲 𝗰𝘂𝗹𝗽𝗮.”
Neste ponto, a reflexão afasta-se de uma leitura simplista. O texto fala de um ciclo emocional, feito de segredo, promessa, falha e repetição.
Dependências que recebem aplausos
Helena Sacadura Cabral também chama a atenção para formas de dependência menos evidentes. Algumas, escreve, até podem ser socialmente valorizadas.
𝗡𝗮 𝗽𝘂𝗯𝗹𝗶𝗰𝗮çã𝗼, 𝗹ê-𝘀𝗲: “𝗡𝗲𝗺 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲 𝗲𝗹𝗮 𝗱𝗲𝘀𝘁𝗿ó𝗶 𝗱𝗲 𝗳𝗼𝗿𝗺𝗮 𝗶𝗺𝗲𝗱𝗶𝗮𝘁𝗮. 𝗔𝗹𝗴𝘂𝗺𝗮𝘀 𝗱𝗲𝗽𝗲𝗻𝗱ê𝗻𝗰𝗶𝗮𝘀 𝘀ã𝗼 𝘀𝗶𝗹𝗲𝗻𝗰𝗶𝗼𝘀𝗮𝘀 𝗲 𝗮𝘁é 𝘀𝗼𝗰𝗶𝗮𝗹𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲 𝘃𝗮𝗹𝗼𝗿𝗶𝘇𝗮𝗱𝗮𝘀. 𝗛á 𝗾𝘂𝗲𝗺 𝘀𝗲 𝗱𝗲𝘀𝘁𝗿𝘂𝗮 𝘁𝗿𝗮𝗯𝗮𝗹𝗵𝗮𝗻𝗱𝗼 𝘀𝗲𝗺 𝗽𝗮𝗿𝗮𝗿, 𝘃𝗶𝘃𝗲𝗻𝗱𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗮𝗴𝗿𝗮𝗱𝗮𝗿 𝗼𝘀 𝗼𝘂𝘁𝗿𝗼𝘀 𝗼𝘂 𝗽𝗲𝗿𝘀𝗲𝗴𝘂𝗶𝗻𝗱𝗼 𝘂𝗺𝗮 𝗶𝗱𝗲𝗶𝗮 𝗶𝗺𝗽𝗼𝘀𝘀í𝘃𝗲𝗹 𝗱𝗲 𝗽𝗲𝗿𝗳𝗲𝗶çã𝗼. 𝗢 𝘀𝗼𝗳𝗿𝗶𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗻ã𝗼 𝗱𝗲𝗶𝘅𝗮 𝗱𝗲 𝘀𝗲𝗿 𝗿𝗲𝗮𝗹 𝗮𝗽𝗲𝗻𝗮𝘀 𝗽𝗼𝗿𝗾𝘂𝗲 𝗿𝗲𝗰𝗲𝗯𝗲 𝗮𝗽𝗹𝗮𝘂𝘀𝗼𝘀.”
Assim, a reflexão alarga o tema para além das dependências mais reconhecidas. Trabalho excessivo, necessidade de agradar e busca de perfeição aparecem como formas de sofrimento nem sempre identificadas como problema.
“Não é apenas falta de força de vontade”
Outro ponto forte do texto está na recusa de reduzir a dependência a uma falha individual. Helena Sacadura Cabral liga-a a dores mais fundas e a mecanismos de anestesia emocional.
𝗛𝗲𝗹𝗲𝗻𝗮 𝗦𝗮𝗰𝗮𝗱𝘂𝗿𝗮 𝗖𝗮𝗯𝗿𝗮𝗹 𝗲𝘅𝗽𝗹𝗶𝗰𝗼𝘂: “É 𝗶𝗺𝗽𝗼𝗿𝘁𝗮𝗻𝘁𝗲 𝗰𝗼𝗺𝗽𝗿𝗲𝗲𝗻𝗱𝗲𝗿 𝗾𝘂𝗲 𝗱𝗲𝗽𝗲𝗻𝗱ê𝗻𝗰𝗶𝗮 𝗻ã𝗼 é 𝗮𝗽𝗲𝗻𝗮𝘀 𝗳𝗮𝗹𝘁𝗮 𝗱𝗲 𝗳𝗼𝗿ç𝗮 𝗱𝗲 𝘃𝗼𝗻𝘁𝗮𝗱𝗲. 𝗠𝘂𝗶𝘁𝗮𝘀 𝘃𝗲𝘇𝗲𝘀 é 𝘀𝗶𝗻𝘁𝗼𝗺𝗮 𝗱𝗲 𝗮𝗹𝗴𝗼 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗳𝘂𝗻𝗱𝗼: 𝗱𝗼𝗿 𝗲𝗺𝗼𝗰𝗶𝗼𝗻𝗮𝗹, 𝘁𝗿𝗮𝘂𝗺𝗮, 𝗮𝗻𝘀𝗶𝗲𝗱𝗮𝗱𝗲, 𝘃𝗮𝘇𝗶𝗼, 𝗺𝗲𝗱𝗼 𝗼𝘂 𝗶𝗻𝗰𝗮𝗽𝗮𝗰𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗱𝗲 𝗹𝗶𝗱𝗮𝗿 𝗰𝗼𝗺 𝗮 𝗽𝗿ó𝗽𝗿𝗶𝗮 𝗿𝗲𝗮𝗹𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲. 𝗔𝗾𝘂𝗶𝗹𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝘃𝗶𝗰𝗶𝗮 𝗰𝗼𝘀𝘁𝘂𝗺𝗮 𝗼𝗳𝗲𝗿𝗲𝗰𝗲𝗿, 𝗮𝗶𝗻𝗱𝗮 𝗾𝘂𝗲 𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼𝗿𝗮𝗿𝗶𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲, 𝘂𝗺𝗮 𝘀𝗲𝗻𝘀𝗮çã𝗼 𝗱𝗲 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗿𝗼𝗹𝗼 𝗼𝘂 𝗮𝗻𝗲𝘀𝘁𝗲𝘀𝗶𝗮.”
A autora coloca, deste modo, a dependência no campo da dor emocional. Não a desculpa, mas procura compreendê-la.
Recuperar é voltar a ter escolha
Na parte final da reflexão, Helena Sacadura Cabral fala da recuperação como um processo que exige mais do que abandonar um hábito. É preciso enfrentar o que estava escondido por trás dele.
𝗔 𝗮𝘂𝘁𝗼𝗿𝗮 𝗿𝗲𝗳𝗹𝗲𝘁𝗶𝘂: “𝗦𝗮𝗶𝗿 𝗱𝗲 𝘂𝗺𝗮 𝗱𝗲𝗽𝗲𝗻𝗱ê𝗻𝗰𝗶𝗮 é 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗱𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗮𝗯𝗮𝗻𝗱𝗼𝗻𝗮𝗿 𝘂𝗺 𝗵á𝗯𝗶𝘁𝗼. É 𝗲𝗻𝗳𝗿𝗲𝗻𝘁𝗮𝗿 𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗳𝗶𝗰𝗼𝘂 𝗲𝘀𝗰𝗼𝗻𝗱𝗶𝗱𝗼 𝗽𝗼𝗿 𝘁𝗿á𝘀 𝗱𝗲𝗹𝗲. 𝗘 𝗶𝘀𝘀𝗼 𝗲𝘅𝗶𝗴𝗲 𝗰𝗼𝗿𝗮𝗴𝗲𝗺, 𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼 𝗲, 𝗾𝘂𝗮𝘀𝗲 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲, 𝗮𝗷𝘂𝗱𝗮. 𝗣𝗼𝗿𝗾𝘂𝗲 𝗿𝗲𝗰𝘂𝗽𝗲𝗿𝗮𝗿 𝗻ã𝗼 𝘀𝗶𝗴𝗻𝗶𝗳𝗶𝗰𝗮 𝘁𝗼𝗿𝗻𝗮𝗿-𝘀𝗲 𝗽𝗲𝗿𝗳𝗲𝗶𝘁𝗼; 𝘀𝗶𝗴𝗻𝗶𝗳𝗶𝗰𝗮 𝘃𝗼𝗹𝘁𝗮𝗿 𝗮 𝘁𝗲𝗿 𝗲𝘀𝗰𝗼𝗹𝗵𝗮.”
Por fim, a publicação termina com uma imagem forte sobre o preço da dependência.
𝗛𝗲𝗹𝗲𝗻𝗮 𝗦𝗮𝗰𝗮𝗱𝘂𝗿𝗮 𝗖𝗮𝗯𝗿𝗮𝗹 𝗿𝗲𝗺𝗮𝘁𝗼𝘂: “𝗡𝗼 𝗳𝗶𝗺, 𝘁𝗼𝗱𝗮 𝗱𝗲𝗽𝗲𝗻𝗱ê𝗻𝗰𝗶𝗮 𝗰𝗼𝗯𝗿𝗮 𝘂𝗺 𝗽𝗿𝗲ç𝗼: 𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼 𝗽𝗲𝗿𝗱𝗶𝗱𝗼, 𝗿𝗲𝗹𝗮çõ𝗲𝘀 𝗾𝘂𝗲𝗯𝗿𝗮𝗱𝗮𝘀, 𝗶𝗱𝗲𝗻𝘁𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗳𝗿𝗮𝗴𝗺𝗲𝗻𝘁𝗮𝗱𝗮 𝗼𝘂 𝗽𝗮𝘇 𝗶𝗻𝘁𝗲𝗿𝗶𝗼𝗿 𝘀𝗮𝗰𝗿𝗶𝗳𝗶𝗰𝗮𝗱𝗮. 𝗘 𝘁𝗮𝗹𝘃𝗲𝘇 𝗮 𝗽𝗮𝗿𝘁𝗲 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗰𝗿𝘂𝗲𝗹 𝘀𝗲𝗷𝗮 𝗲𝘀𝘁𝗮: 𝗮𝗾𝘂𝗶𝗹𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝘂𝗺 𝗱𝗶𝗮 𝗽𝗿𝗼𝗺𝗲𝘁𝗲𝘂 𝘀𝗮𝗹𝘃𝗮𝗿 𝗮𝗰𝗮𝗯𝗮, 𝗹𝗲𝗻𝘁𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲, 𝗽𝗼𝗿 𝗰𝗼𝗻𝘀𝘂𝗺𝗶𝗿.”
Com esta reflexão, Helena Sacadura Cabral deixa uma leitura dura, mas também humana, sobre a dependência. O texto aponta para a perda, mas também para a possibilidade de reconstrução quando há coragem, tempo e ajuda.
Veja a publicação AQUI.

