Luís Nascimento emociona-se em entrevista ao irmão Cláudio Ramos e abre o coração sobre família, fama e ‘reality shows’, hoje na TVI.
Foi uma conversa pouco habitual no ‘Dois às 10’. Cláudio Ramos recebeu esta sexta-feira, 7 de agosto, o irmão Luís Nascimento e, pela primeira vez em televisão, coube-lhe conduzir uma entrevista onde a carreira televisiva acabou por ser apenas uma parte de uma história muito mais pessoal.
O antigo concorrente, primeiro português a vencer dois ‘reality shows’, regressou à TVI para falar do impacto que a exposição teve na sua vida, da profissão que exerce atualmente, da relação com Teresa, da paternidade e da família. Houve também espaço para recordar os pais e para duas surpresas que o deixaram visivelmente emocionado.
A emissão desta sexta-feira teve o Alentejo como pano de fundo e Cláudio Ramos começou precisamente por recuperar imagens do percurso televisivo do irmão.
“Foi o primeiro a vencer mais do que uma vez um reality nesta casa. De quem eu falo? Do Luís Paulo. Quem é o Luís Paulo? É o meu irmão. E o meu irmão quem é? É o Luís Nascimento”, apresentou.
A revisão daquele passado teve efeito imediato.
“Agora, ao ver estas imagens, emocionei-me”, confessou Luís.
A fama chegou quando Luís Nascimento não sabia sequer o que o esperava
A primeira participação de Luís Nascimento num ‘reality show’ aconteceu em 2013. A entrada naquele universo estava longe de ser um passo natural para alguém que trabalhava entre a construção civil e a tipografia e que pouco contacto tinha com este tipo de formatos televisivos.
“Sou muito sincero, eu não estava. Trabalhava em construção civil, como tu sabes, estava na área de tipografia, e foi quando houve uma grande crise na construção. Nunca vi ‘Big Brother’, nem ‘Casa dos Segredos’. Não porque não goste do formato, mas porque vejo pouca televisão. Gosto de ver notícias e essas coisas. Não estava nada preparado, perdi-me um bocado”, recordou.
A vitória mudou-lhe a vida com uma rapidez para a qual admite não ter ferramentas.
A perda de privacidade tornou-se especialmente difícil. A atenção em locais públicos, os pedidos constantes para fotografias e a sensação de estar permanentemente observado foram algumas das consequências que mais lhe custaram.
“Quando saí foi muito, muito complicado. Não estava preparado para a fama. Eu não consigo dizer que não porque acho que as pessoas merecem a nossa atenção, merecem que nós tiremos fotos com elas. Foi muito difícil, mas eu nunca lidei bem com isso.”
Apesar da notoriedade, o percurso televisivo não terminou ali.
Luís voltou a participar no formato numa experiência em dupla com Joana, relação que considera ter sido desafiante dentro do jogo, mas que não prejudicou a amizade entre ambos.
“Temos uma boa relação. Cada um seguiu a sua vida, mas somos felizes e damos-nos super bem. Não há stress nenhum.”
A necessidade de provar que conseguia vencer sozinho
O regresso seguinte teve uma motivação diferente. Luís Nascimento sentia que uma parte do público atribuía demasiado peso a Joana na primeira vitória e quis testar-se sem essa ligação.
“Joguei para ganhar, joguei, mas havia sempre aquela coisa: ‘Tu ganhaste por causa da Joana’. Tinha necessidade (…) de provar a mim próprio que sou capaz sozinho.”
Entrou disposto a mostrar uma faceta mais frontal e acabou por alcançar aquilo que não imaginava ser possível: uma segunda vitória.
“Pensei: ‘Não, vou aceitar, vou dar tudo. Vou mostrar um lado que não mostrei tanto’.”
O resultado transformou-o no primeiro português a vencer por duas vezes um ‘reality show’, mas Luís garante que o feito não alterou a forma como se via.
“Deslumbramento zero. Mas provei a mim próprio que não tenho de ser inseguro e tenho de ser seguro daquilo que digo e daquilo que penso, porque consigo chegar onde quero.”
Regressar agora como concorrente, porém, não está nos planos imediatos.
“Ai, voltar agora já não. As coisas estão muito mudadas, o tempo mudou, agora ia ser mais difícil, mas com um bom cachet…”, brincou.
“Os realities estão completamente mudados”
Luís continua atento ao género que o tornou conhecido, embora admita que a ligação familiar a Cláudio Ramos condiciona atualmente a liberdade com que comenta aquilo que acontece nos programas.
“Prejudica, limita-me.”
O antigo concorrente explicou que qualquer opinião acaba facilmente associada ao irmão.
“Quando estás tu a apresentar, ou mesmo eu próprio comento, as pessoas associam os meus comentários a ti. E torna-se complicado.”
Por isso, tenta afastar-se dos formatos.
“Mexe comigo e apetece-me comentar, mas limita-me sim.”
Ainda assim, deixou uma leitura sobre a evolução do género.
“Os realities estão completamente mudados.”
Luís considera que a mobilização organizada de grupos de fãs alterou significativamente a forma como se chega à vitória e que os perfis mais consensuais perderam espaço para concorrentes capazes de provocar maior intensidade no jogo.
“Acho que o bom menino, a boa— isso acabou. Esses são desvalorizados. É mais aquela pessoa mais intensa, que mais briga compra.”
E acrescentou: “As coisas estão diferentes, está mais difícil.”
A feira tornou-se profissão e motivo de orgulho
A saída da televisão não significou viver permanentemente da notoriedade alcançada nos programas.
Luís Nascimento trabalha atualmente como feirante, vendendo queijos e enchidos, atividade a que se dedica há cerca de nove anos e na qual garante ter encontrado uma realização que não conseguiu noutros negócios.
“As pessoas pensam que participamos num reality e ficamos ricos, ou que a vida agora não se faz mais nada.”
Foi precisamente o contacto direto com as pessoas e o tipo de produto que comercializa que o conquistaram.
“Quando experimentei a feira, senti-me realizado. Falar com as pessoas, que adoro, o produto em si, porque é uma coisa de que gosto, sempre fui apreciador.”
Na entrevista, levou alguns dos produtos até ao estúdio e ainda provocou o irmão quando Cláudio Ramos recusou provar algumas das iguarias.
“O Cláudio agora está-se a cortar, mas lá em casa come tudo. Farinheira então, adora.”
Luís quis também desmontar o preconceito associado à profissão. Segundo explicou, um feirante organizado pode alcançar rendimentos “superiores à maioria”.
Há, porém, uma pergunta que continua a ouvir por ser irmão de uma figura conhecida da televisão.
“Não é o chatear, dizem: ‘Então o teu irmão não te ajuda?’. Acham que tu tens obrigação de me governar ou de sustentar. As pessoas confundem um bocado as coisas.”
Teresa e Carolina mudaram-lhe as prioridades
A conversa entrou depois na família que Luís Nascimento construiu com Teresa Ferraz.
Conheceu a companheira durante o período em que viveu no Norte e recorda que a relação começou pela facilidade com que os dois comunicaram.
“O que me encantou foi o jeito dela ser, que é brincalhona, dançarina, é baixinha.”
Luís descreveu o início como “piada à primeira vista”, mas hoje identifica noutra característica aquilo que mais admira em Teresa.
“O que me encanta mais é a boa mãe que ela é.”
A companheira foi mãe ainda jovem e o antigo concorrente não escondeu a admiração.
“Foi uma mãe nova e é uma mãe dedicadíssima. Isso não tem preço. É cuidadora da menina, de mim, faz boa companhia. É fantástico.”
A chegada de Carolina alterou profundamente Luís.
“Muda tudo! A responsabilidade, o medo aumenta e é fantástico, é giro. Gosto muito de sentir, de ser pai. Ter uma pessoa dependente de mim mudou-me muito, tornou-me mais maduro.”
Sobre a personalidade da filha, não encontrou uma descrição simples.
“A Carolina tem uma personalidade muito vincada, não é nada fácil, é uma mistura do norte com o Alentejo. Ora é muito calminha, ora é uma explosão. Não há palavras para descrever a Carolina. A Carolina é um mundo.”
Uma mensagem da filha apanhou-o desprevenido
Cláudio Ramos tinha preparada uma surpresa.
Carolina surgiu através de uma mensagem gravada para o pai.
“Pai, gosto muito de brincar contigo. Pai, amo-te muito. Amo-te.”
A reação de Luís foi imediata.
“Agora não estava à espera.”
Sabendo que a filha não aprecia particularmente fotografias ou vídeos, percebeu que a gravação tinha exigido algum esforço.
“Olha, desarmaste-me e não é fácil porque a Carolina detesta fotos, detesta vídeos. Fomos de férias, para tirar uma foto com a Carolina é muito difícil. Estou muito contente, filho, obrigado e cheio de coração.”
A paternidade levou também Luís Nascimento a olhar de outra forma para a própria infância e para a relação com o pai, já falecido.
O lado difícil do pai ensinou-lhe o pai que queria ser
Luís e Cláudio falaram sem esconder que a relação com o progenitor teve períodos complexos.
“O nosso pai, sabes que foi complicado, mas tinha muita coisa boa.”
Luís reconhece ter herdado características do pai, incluindo “a arte do que ele era”, mas foram precisamente as dificuldades vividas em família que acabaram por definir alguns dos princípios que hoje segue com Carolina.
“Do lado mau dele, que nos fez passar por muito, ele despertou em mim o ser o melhor pai possível e sempre presente e ter muita cautela a nível financeiro para que não volte a passar aquilo que ele nos fez passar.”
Questionado por Cláudio Ramos sobre se seriam as mesmas pessoas sem aquela história familiar, Luís respondeu sem hesitar.
“Não, não, tenho a pura certeza que é graças a eles que somos as pessoas que somos hoje.”
O balanço que faz é positivo, mesmo reconhecendo aquilo que existiu de difícil.
“Para nós foi super positivo, abriu-nos o jogo, abriu-nos a mente, obrigou-nos a forçar mais, porque nós sabemos o que é o bom, o mau, o estar em baixo e o estar em cima.”
Luís lamentou apenas que Carolina não tenha conhecido o avô.
“Confesso que sim, acho que ela ia gostar de o conhecer.”
A mãe dos dois irmãos deixa Luís em lágrimas
Outro dos momentos mais emocionais aconteceu quando a mãe de Luís e Cláudio surgiu também em vídeo.
“Filhote, és o meu mais novo. És um orgulho muito grande da mãe. Foste um miúdo não esperado, mas depois muito desejado. És muito bom filho. Temos uns pequenos-almoços únicos. Espero que sejas feliz ao longo da tua vida e que consigas realizar todos os teus sonhos. Beijinhos.”
Luís não conseguiu esconder o impacto das palavras e explicou a importância da mãe nas decisões que vai tomando.
“Ela tem sido muito importante para o meu crescimento a nível pessoal e profissional. Muitas vezes sou um bocado inseguro, embora não pareça. E ela [diz-me]: ‘Ó filho, vai para a frente, não tenhas medo, vai correr bem’. Tem sido uma força estrondosa em tudo.”
A mãe é, segundo o antigo concorrente, uma das pessoas com quem mais desabafa e o principal pilar em vários momentos da vida.
Sobre o pai, Luís acredita que também estaria satisfeito com aquilo que conseguiu construir.
“Acho que sim, acho que estava orgulhoso. Ele, nesses aspetos todos, sim, acredito que sim, estava bastante orgulhoso do caminho.”
“Uma conversa de irmão para irmão”
Apesar de admitir não gostar particularmente de regressar a este tipo de exposição, Luís Nascimento reconheceu que ser entrevistado pelo próprio irmão tornou tudo mais simples.
“É contigo, é mais fácil. Embora as pessoas digam e pensem que é mais difícil, mas torna-se mais fácil e foi bom.”
Horas depois da emissão, voltou ao momento através das redes sociais e deixou uma mensagem dirigida a Cláudio Ramos.
“Uma conversa de irmão para irmão. Obrigado, meu irmão Cláudio Ramos, por esta entrevista tão especial. Foi de coração aberto, como só nós sabemos fazer.”
Foi precisamente essa proximidade que acabou por distinguir a entrevista. Cláudio Ramos conhecia muitas das respostas antes de formular as perguntas, mas também conhecia os silêncios, as dificuldades e as pessoas que estavam por detrás de cada história.
Para Luís Nascimento, que chegou à televisão sem saber lidar com a fama e acabou por fazer história nos ‘reality shows’, a vida seguiu entretanto para um lugar bastante diferente. Hoje fala com o mesmo orgulho de uma vitória televisiva, de uma banca numa feira, da companheira ou dos pequenos-almoços com a mãe.
E, no meio de tudo isso, há agora Carolina, que talvez tenha resumido a entrevista inteira com muito menos palavras do que os dois irmãos precisaram: “Pai, amo-te muito.”
