Carminho fechou o Caixa Alfama entre o amor que mata e a coragem de resistir

Carminho fechou o Caixa Alfama entre o amor que mata e a coragem de resistir, com um maravilhoso concerto na noite de sábado.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Nuno Tátá

O Caixa Alfama também se vive a correr. Consulta-se o programa, escolhe-se um palco, atravessa-se o bairro e tenta-se chegar a tempo do concerto seguinte. Durante dois dias, o público anda entre ruas, igrejas, associações e o Terminal de Cruzeiros, sempre com a sensação de que alguma coisa importante está a acontecer noutro lugar.

Até que surgiu Carminho.

Coube-lhe fechar a 14.ª edição do festival e, durante quase duas horas, deixou de haver qualquer lugar onde fosse mais importante estar. O relógio perdeu utilidade. A pressa ficou do lado de fora e o Palco Caixa, apesar da sua dimensão, tornou-se pequeno o suficiente para receber um concerto profundamente íntimo.

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Carminho não entrou para vencer o espaço através do volume ou da imponência. Aproximou-o de si. Cantou com tempo, deu importância às mensagens dos poemas e permitiu que as palavras chegassem inteiras ao público.

Não houve urgência em provocar aplausos. Houve confiança no repertório, no silêncio e na capacidade de uma frase bem cantada permanecer no ar depois de a voz terminar.

Ao longo do concerto, distribuiu ternura, controlo, talento e classe. Tudo sem ostentação. A classe de Carminho não está numa pose distante nem numa ideia decorativa de elegância. Está no cuidado. Na escolha do que canta, na forma como se apresenta e no respeito com que trata cada poema.

O amor já não tem autorização para matar sempre

O alinhamento aproximou canções de Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir, o seu mais recente trabalho, de temas anteriores que já se tornaram obrigatórios nos espectáculos da fadista.

O disco apareceu no concerto na proporção certa: como parte da artista que Carminho é hoje, e não como matéria para uma apresentação faixa a faixa.

É o sétimo álbum da sua carreira e aquele em que assume de forma mais evidente o risco artístico. Assina oito das 11 canções, voltou a ocupar o lugar de produtora e abriu o fado a outras experiências sonoras sem perder o seu centro. Contudo, o mais relevante para compreender este concerto talvez esteja no próprio título.

No fado, morre-se muito de amor. Carminho conhece essa linguagem, cresceu dentro dela e sabe tudo sobre a entrega absoluta que tantas vezes atravessa os poemas. Mas agora acrescenta uma alternativa: resistir.

“Morre-se muito de amor no fado, mas poder resistir é algo que me interessa e me interessa cantar”, explicou a artista a propósito do disco.

Essa possibilidade muda a mulher que está dentro das canções. Já não tem obrigatoriamente de se desfazer por aquilo que sente. Pode amar, sofrer, contradizer-se e continuar de pé.

Em palco, Carminho não precisou de transformar essa ideia num discurso. Ela estava na segurança com que conduziu o concerto e na liberdade com que aproximou o repertório mais recente das canções que a acompanham há vários anos.

O passado não foi corrigido pelo presente. Os dois conversaram.

A voz que sabe quando deve calar-se

Nome maior do fado, Carminho dispensa apresentações excessivas. Aos 42 anos, encontra-se num momento artístico particularmente bonito, com a sensibilidade mais apurada e a coragem de quem já não precisa de repetir aquilo que os outros esperam.

A força e a garra continuam lá. O que mudou foi a forma como as administra.

Carminho possui uma voz capaz de crescer e dominar qualquer palco, mas o concerto no Caixa Alfama mostrou sobretudo a inteligência de não usar sempre tudo o que tem. Em vários momentos, interessou mais a contenção do que a potência. A maneira como deixou uma palavra cair teve mais peso do que qualquer demonstração vocal.

Cantar baixo diante de muita gente também exige coragem.

Exige acreditar que o público irá acompanhar, que ninguém precisa de ser constantemente despertado por um golpe de voz e que a emoção não se mede pelo número de decibéis. Carminho acredita nisso e tem autoridade suficiente para levar uma plateia consigo.

A sua interpretação nasce nesse lugar entre o domínio e o abandono. Controla a voz, mas não controla a ponto de lhe retirar vida. Entrega-se ao poema sem deixar que ele a desgoverne. O resultado tem uma naturalidade difícil de alcançar e ainda mais difícil de explicar.

Carmo e Carminho no mesmo palco

Carmo Rebelo de Andrade e Carminho já não parecem duas figuras separadas. A mulher que pensa, escreve e produz a sua obra está cada vez mais exposta dentro da artista que a canta.

Talvez seja por isso que este momento da carreira se revele tão interessante. Carminho não está apenas a interpretar canções escolhidas por outros. Compõe, produz e assume a responsabilidade pelo universo que leva a palco. O extremo bom gosto reconhecido nos seus espectáculos nasce dessa visão global.

Nada parece colocado ao acaso. Também nada pede ao público que admire a inteligência da construção antes de sentir a música.

Primeiro sente-se. Depois, se houver vontade, pensa-se sobre aquilo.

Há ainda uma aura luminosa em Carminho que não depende da luz desenhada para o palco. Surge na serenidade com que se apresenta, na atenção dada a cada palavra e na impressão de que o canto vem de um lugar onde o terreno e o espiritual se tocam por instantes.

Não é preciso atribuir-lhe uma qualidade divina. Basta reconhecer que há vozes capazes de alterar o ambiente de um espaço. A sua é uma delas.

Quando o festival deixou de correr

Carminho fechou o Caixa Alfama sem tentar construir um final maior do que tudo o que tinha feito antes. O concerto já tinha encontrado a sua dimensão na soma dos pequenos momentos, das palavras escutadas até ao fim e da intimidade criada ao longo de quase duas horas.

Num mundo habituado a consumir canções enquanto faz outra coisa qualquer, Carminho exige presença. Obriga-nos a abrandar, a pensar e a aceitar que sentir também ocupa tempo.

Por isso, escrever sobre este concerto tem um limite. Podemos falar da voz, do controlo, da escolha do repertório e da delicadeza com que cada poema foi tratado. Ainda assim, aquilo que verdadeiramente aconteceu não cabe todo numa descrição.

Tinha de ser vivido. Coube a Carminho fechar a 14.ª edição do Caixa Alfama. Fechou-a com chave de ouro, sim, mas fez mais do que isso: durante quase duas horas, conseguiu que ninguém tivesse pressa de chegar ao fim.

A arte, quando é assim, pode salvar-nos durante alguns minutos. Por vezes, chega mesmo a mudar a sensibilidade com que regressamos à vida. Acima dela, só o amor.

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