Mafalda Matos divide ‘Passadeira Vermelha’: David Motta questiona vídeo e Filipa Torrinha defende Joana Marques, esta tarde.
A reação de Mafalda Matos ao episódio de ‘Extremamente Desagradável’ dominou a emissão desta terça-feira, 28 de julho, do ‘Passadeira Vermelha’.
No programa da SIC Caras, David Motta manifestou dúvidas sobre a forma como o vídeo da atriz foi construído. Já Filipa Torrinha defendeu que Joana Marques, enquanto humorista, não tem a responsabilidade de informar ou esclarecer o público.
A polémica começou depois de Mafalda Matos criticar a abordagem feita ao seu diagnóstico de autismo na rubrica da Rádio Renascença. Visivelmente emocionada, a atriz falou do impacto das piadas e deixou várias pessoas preocupadas com a mensagem publicada.
David Motta admite sofrimento, mas mostra-se desconfiado
Durante a conversa conduzida por Liliana Campos, David Motta começou por reconhecer que Mafalda Matos poderá estar a atravessar um momento de sofrimento.
Ainda assim, o comentador não escondeu a estranheza que sentiu depois de assistir ao vídeo e procurar conhecer os restantes conteúdos da atriz.
“Em primeiro lugar, vou partir do pressuposto que isto é verdade, não é? (…) Que autista ou não, isto a ser verdade, a rapariga está em sofrimento, está em dor.”
Posteriormente, explicou que não acompanhava o trabalho de Mafalda Matos nas redes sociais e que decidiu procurar mais informação antes de formar uma opinião.
“Eu não conhecia a Mafalda nem o conteúdo da Mafalda. Fui ver (…) e eu achei penoso. (…) Fiquei com, senti que alguma coisa de errado não estava certa, por assim dizer.”
Comentador considera que Joana Marques satirizou os conteúdos
Para David Motta, o episódio de ‘Extremamente Desagradável’ não teve como alvo as pessoas que estão no espectro do autismo.
Na sua interpretação, Joana Marques concentrou-se na forma como Mafalda Matos comunica e apresenta os próprios conteúdos nas plataformas digitais.
“Não achei em momento algum que a Joana Marques estivesse a fazer troça ou a questionar as pessoas com espectro do autismo. Achei que de facto era claramente uma sátira ou uma crítica ou ironizar a prestação da Mafalda nas redes sociais.”
O comentador questionou ainda a forma como a atriz deixou algumas frases sem uma explicação imediata, aumentando a preocupação entre os seguidores.
“Teve meia hora sem resposta. Eu não percebi se era ela a induzir-nos ou a querer dar-nos a entender que tentou o suicídio (…) Custa-me imenso dizer e quero mesmo acreditar que não é alguém a encostar-se a problemas seríssimos para ter uma voz ativa ou para ter engajamento.”
David Motta compara publicação a uma gravação para um casting
A estrutura da publicação também levantou dúvidas ao comentador. David Motta considerou que o vídeo parecia preparado e criticou a decisão de fechar os canais de comunicação após uma mensagem tão preocupante.
“Parece um bocado uma ‘self-tape’ de uma atriz para um ‘casting’, porque depois a maneira como o ‘post’ vem estruturado (…) ‘a Mafalda não dará entrevistas, não está disponível para contactos’, parece uma coisa muito estruturada.”
Na sua análise, a mensagem deixou o público em alerta, mas não permitiu que jornalistas ou seguidores obtivessem esclarecimentos adicionais.
Filipa Torrinha rejeita responsabilidade social dos humoristas
Filipa Torrinha apresentou uma posição diferente sobre a discussão. A psicóloga e comentadora defendeu que não cabe aos humoristas cumprir uma função informativa.
“A Joana Marques ou qualquer humorista (…) não tem responsabilidade social. O humorista não é responsável por rigorosamente nada, ou seja, não cabe a ele esclarecer ou não esclarecer, desinformar ou informar. Não há responsabilidade social a um humorista, isto não existe.”
A comentadora considerou excessivo atribuir a Joana Marques um poder social que, na sua opinião, não corresponde à natureza do trabalho humorístico.
“Acharmos que alguém como a Joana Marques ou outros fazem piadas e que caia sobre ela responsabilidade social não faz qualquer tipo de sentido. Isto é dar à Joana um poder que ela não tem (…) É dar uma seriedade a este trabalho que não tem.”
«O mundo não se dobra de acordo com a nossa dor»
Apesar de reconhecer a fragilidade demonstrada por Mafalda Matos, Filipa Torrinha separou o apoio à atriz da defesa dos argumentos apresentados contra Joana Marques.
“Uma coisa é apoiarmos a Mafalda, outra coisa é apoiarmos o raciocínio. E aqui é que entra o raciocínio de que a Joana tem responsabilidade social (…) A Joana deve contribuir, não deve contribuir para a desinformação.”
A psicóloga sustentou que a dor individual não pode determinar aquilo que os humoristas podem ou não abordar.
“Esta ideia de que nós, que o mundo tem que funcionar de acordo com a nossa dor, é infantil e é do mais desempoderador que eu posso imaginar. O mundo não se dobra de acordo com a nossa dor. Os humoristas não fazem, deixam de fazer de acordo com a nossa dor e nós não podemos viver a nossa vida a achar que isso pode acontecer.”
Filipa Torrinha considera perigoso tentar silenciar o humor
Para a comentadora, uma pessoa que se sente magoada por uma piada pode procurar compreender a origem desse desconforto. Contudo, não deve tentar impedir o outro de continuar a expressar-se.
“Se uma piada me magoa, eu tenho, se assim entender, uma possibilidade de olhar para mim e perceber para que é que isto me está a magoar e trabalhar isto em mim. A ideia de que eu vou calar o outro é muito infantil e é perigosa. E é uma ideia, e a questão é que desempodera-nos, ou seja, tira-nos a nós a possibilidade de termos uma ação sobre nós próprios, um poder sobre nós.”
No final, Filipa Torrinha deixou um desafio aos defensores de Mafalda Matos e às pessoas ligadas à comunidade neurodivergente.
“Convido-os mesmo a pensar porque é que nós achamos que é legítimo calarmos um humorista ou que ele deve calar-se e não fazer piadas porque nos magoa.”
A análise dividiu o painel e voltou a colocar no centro do debate os limites do humor, a liberdade artística e o impacto público de conteúdos relacionados com condições de saúde.
