Matay recorda episódio de racismo em Portugal

Matay recorda episódio de racismo em Portugal

Matay recorda episódio de racismo em Portugal, em entrevista a Daniel Oliveira, no Alta Definição, na SIC.

O cantor, de 34 anos, destacou um episódio que aconteceu durante uma saída à noite, com amigos, em Lisboa.

Éramos quatro pretos e um branco. Veio a polícia e manda-nos encostar à parede. Perguntei porquê e disseram que nos enquadrávamos na descrição do grupo para o qual eles estavam ali. E ao branco que estava connosco, disseram-lhe que ele podia ir para casa. Questionei porque ele estava connosco, era nosso amigo, vai para casa porquê? E ele revoltado também, ficou do outro lado do passeio. Pediram-nos para ficarmos voltados para a parede. Eu não me virei para a parede, isso não. […] Recusei-me“, contou.

Trabalho todos os dias, venho aqui sair, divertir-me, e sou encostado à parede por nada, ninguém me diz porquê. Disse-lhe que se fiz alguma coisa, para me levarem para a esquadra. […] O que é que fiz para merecer isto? Fomos identificados e fomos embora sem nenhuma explicação. E aí eu já era adulto. […] Não se faz. E isto foi aqui, cá em Portugal“, acrescentou.

Matay é filho de pais separados e confessou que “não tem memória dos pais juntos”. Em casa do pai nunca faltou comida, “mas em casa da mãe era mais difícil”.

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Tínhamos apoios, as associações onde íamos buscar comida, e aí era difícil. Não faltava porque a minha mãe era batalhadora. Mulher de guerra. Uma sandes de fiambre, por exemplo, se calhar não era tão fácil, mas havia um pão com manteiga. Era o que havia”, recordou Matay.

Aprende-se a viver desta forma e a dar graças a Deus”, acrescentou.

Entre as muitas memórias, Matay falou sobre uma situação em que um dos irmãos “estava a brincar na rua e houve uma mãe de um miúdo que da janela disse: ‘então estás a brincar com esse preto’”.

Tens que sobreviver, vais aprender de dia para dia o que é que tens de fazer, que caminhos tens de fazer para conseguires continuar cá. Não sinto raiva de ninguém. É tu conseguires depois dar seguimento à tua vida porque isto são coisas que… fazem parte da minha vida”, referiu.

Quantas vezes estava sentado [no autocarro] e vinha alguém que dizia que eu tinha que me levantar. [Eu respondia]. Nunca fui pessoa de aceitar abusos”, afirmou Matay.

Daniel Oliveira questionou o convidado sobre “quando é que passou a sentir orgulho da sua cor”, Matay respondeu: “É difícil ao ponto de precisares de viver um processo de aceitação. E perceberes que não és menos. Não tens só uma luta exterior, também é interior. Não é só aquela coisa de ser o preto que venceu, é sentires que realmente estás a fazer uma coisa bem feita e valorizares-te por isso. E sentires que o facto de seres preto não te diminuiu em nada”.

Felizmente tenho várias coisas que faço que me deixam orgulhoso. […] E estas pequenas vitórias ajudam-me a valorizar aquilo que sou, quer seja preto, branco ou amarelo. Depois há outro lado, que é o lado na comunidade. E aí é quase como uma missão minha também de tentar mostrar, primeiro eu não cheguei aqui por ser melhor que ninguém, sou como tu, temos a mesma cor. Se eu consegui, tu também consegues”, acrescentou.

Porém, contou também episódios positivos.

Há dias estava a brincar com os meus filhos, que estavam a jogar à bola, e um senhor de 92 anos pediu a bola ao meu filho e ficou a jogar à bola com ele. E vias claramente brilho naquele olhar, coração bom. Isto também se vê. Agora perguntas-me, um senhor com 92 anos vem de um outro tempo, se calhar de um tempo em que esta questão da cor estava muito presente… Ele não mudou agora“, contou.

“[É uma questão de educação] e não só, é uma escolha. Podes escolher marcar a diferença pela positiva. E aquele senhor, um querido, no final disse: próximo domingo estou cá e se vocês não vierem têm falta de comparência”, salientou.

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