Miguel Cristovinho começou a pensar em “Ouro na Fenda” depois de um concerto dos D.A.M.A na MEO Arena. A sala estava lotada, mas o músico não se sentia bem. Dessa inquietação nasceu o seu primeiro disco a solo.
Em declarações ao Correio da Manhã, o artista descreveu o trabalho como “um disco profundamente pessoal que nasceu de um processo criativo muito instintivo”.
O ponto de partida surgiu após a atuação dos D.A.M.A em fevereiro do ano passado. Apesar do momento vivido pela banda, Cristovinho percebeu que precisava de encontrar espaço para outras canções.
“Tínhamos tocado na maior sala do país completamente lotada e eu sentia-me esgotado. Talvez esta não seja a palavra certa, mas não me sentia bem”, explicou ao jornal.
“Quando tens demasiada arte dentro de gavetas, às tantas essa gaveta começa a pesar”
A vontade de avançar em nome próprio ganhou forma nas semanas seguintes. O caminho musical dos D.A.M.A ajudou-o a perceber que parte do que estava a criar precisava de outro destino.
“E passado umas semanas percebi que isso tinha a ver com o facto de termos andado cinco anos a misturar a nossa música com a música tradicional portuguesa, primeiro no Alentejo e depois no Minho, e haver uma série de canções que percebi que não podiam ser encaixadas no repertório de DAMA. Havia um vazio. Quando tens demasiada arte dentro de gavetas, às tantas essa gaveta começa a pesar. E foi aí que decidi que queria fazer um projeto a solo.”
Cristovinho era o único dos três elementos do grupo que ainda não tinha lançado um projeto em nome próprio. A estreia acontece com sete temas, num percurso paralelo ao trabalho com a banda.
“Ouro na Fenda” conta com colaborações de João Não, X-Tinto e MAR. “São pessoas de quem gosto, os chamados talentosos do bem”, afirmou.
Um disco que assume fragilidades e imperfeições
O título inspira-se no kintsugi, a arte japonesa de reparar peças de cerâmica partidas utilizando ouro nas fendas. Já o conceito aproxima-se do Wabi-Sabi e da aceitação das imperfeições.
Essa ideia atravessa um disco que passa pelo amor, pelo desamor e pela introspeção. O próprio músico reconheceu que avançar sozinho também trouxe dúvidas.
“Havia sim alguma insegurança quando tive vontade de fazer este projeto”, admitiu ao Correio da Manhã.
Sobre o Wabi-Sabi, destacou a importância “de abraçar e aceitar as imperfeições. Às vezes é isso que precisamos, deixar a luz entrar. Estamos cada vez mais num mundo algorítmico e tecnológico e cada vez mais distante da nossa natureza humana. E este disco é um convite para nos conectarmos connosco”.
Projeto a solo vai continuar, mas sem digressão prevista
“Ouro na Fenda” terá uma apresentação ao vivo. No entanto, Miguel Cristovinho afasta, para já, a possibilidade de uma digressão em nome próprio.
A experiência não deverá ficar por este lançamento, embora o músico não queira impor um calendário ao próximo passo.
“A partir do momento em que a porta foi aberta, já não vai fechar-se, mas para voltar a fazer algo a solo vou precisar de sentir essa urgência.”
