Pedro Chagas Freitas deixa reflexões sobre dor, inveja e amor: “Não fiques onde te toleram; fica onde te amam”, disse.
Pedro Chagas Freitas voltou a usar as redes sociais como espaço de pensamento e confronto emocional. Em três textos publicados online, o escritor abordou temas distintos, mas ligados por uma mesma linha: a forma como cada pessoa atravessa a dor, reage à felicidade alheia e escolhe os lugares onde permanece.
Entre a resistência íntima, uma defesa pública de Ljubomir Stanisic e uma reflexão sobre amor e tolerância, Pedro Chagas Freitas escreveu sobre fragilidade sem suavizar palavras.
Rir por fora quando se chora por dentro
Num dos textos partilhados nas redes sociais, Pedro Chagas Freitas começou por falar da grandeza silenciosa de quem continua a sorrir, mesmo quando está ferido.
O escritor enquadrou esse gesto não como fingimento, mas como resistência. Para o autor, há pessoas que escolhem não espalhar a própria dor, mesmo quando tudo por dentro parece ruir.
“A grandeza de uma pessoa mede-se, muitas vezes, pela capacidade de rir para os outros quando está a chorar para si. Quando o mundo te estripa em silêncio e estendes um sorriso a alguém que precisa mais dele do que tu, és enorme. Há nisso um tipo de dignidade que escapa aos manuais de autoajuda e aos coaches de Instagram. Eu já ri por fora quando só me apetecia desaparecer. Não é fingimento; é resistência. É não deixar que a dor alastre como vírus.
Se queres frustrar a vida dos outros, estás frustrado. Ninguém feliz tenta sabotar a felicidade alheia. Os que passam a vida a cuspir amargura são os que não têm saliva para construir coisa nenhuma. Somos, todos, o espaço entre o que fizeram de nós e o que decidimos fazer com isso. Uns ficam a lamber feridas como troféus; outros levantam-se, coxos mas de pé, e continuam.
Eu continuo. Há dias em que me sinto um erro de fabrico. Depois lembro-me de que até os erros mais grotescos podem dar bons enredos. Eu estou a escrever o meu.”
A reflexão toca também na inveja e na frustração. Pedro Chagas Freitas associa a vontade de sabotar a felicidade dos outros a uma incapacidade interior de construir algo próprio.
Ljubomir Stanisic e o prazer pequeno de ver cair quem venceu
Noutro texto, o escritor partiu das notícias sobre uma eventual queda de Ljubomir Stanisic para criticar a forma como muitos reagem ao sucesso dos outros.
Pedro Chagas Freitas não afirma saber se o chef está ou não em queda. No entanto, condena o entusiasmo daqueles que se aproximam da fragilidade alheia apenas para se sentirem maiores.
“Somos tão pequenos quando celebramos a queda dos grandes.
Não sei se Ljubomir Stanisic está em queda. Mas bastaram duas ou três notícias sobre essa possibilidade para aparecerem os minorcas todos a quererem agigantar-se, a quererem consumir o sangue das presumíveis feridas. Há tantas minhocas disfarçadas de tubarão, não há?
A queda do grande não me faz maior; só me faz mais insignificante por festejá-la.
Temos uma espécie de ódio primário aos vencedores. Acontece assim em todas as áreas. Se tem sucesso, tem inimigos. Não entendo. O que tememos na vitória do outro? Porque raios é que a vitória do outro me há-de ferir? Eu amo a vitória do outro, a felicidade do outro. Amo mesmo. Se é uma felicidade que não pisou ninguém, que não fez mal a ninguém, é uma felicidade que me faz bem. A felicidade do outro devia fazer bem à nossa própria felicidade. A felicidade do outro devia ser inspiração para a nossa própria felicidade; nunca para uma qualquer amargura oca.
Temos medo de quem verbaliza confiança, de quem diz as palavras todas. Acho até que temos medo de quem diz as palavras que a nossa cobardia não nos permite dizer. Ljubomir diz todas. Sempre disse. Não me parece que ligue muito às reacções. Tenho inveja dele por isso. Gosto tanto de gente corajosa o suficiente para preferir ser malvisto pelo que é do que amado pelo que não é.
Não o conheço pessoalmente, não sou um especialista em cozinha; sou especialista no que sinto. O que sinto quando o vejo, quando o ouço, é uma alma que não pede licença para tentar a acrobacia final: viver de acordo com as regras que sente profundamente que são as que a sua humanidade exige. Não é coisa pouca.
Obrigado pela coragem, Ljubomir. Que todos possamos, um dia, não fugir tanto do que não deixamos de ser.”
Neste texto, o autor transforma o caso concreto numa crítica mais ampla. A felicidade dos outros, defende, não devia ferir ninguém. Pelo contrário, devia servir de inspiração.
“Não fiques onde te toleram”
Já no terceiro texto, Pedro Chagas Freitas virou-se para as relações e para a diferença entre ser tolerado e ser amado. A mensagem é curta, mas direta.
O escritor rejeita a ideia de tolerância como substituto do amor. Para o autor, permanecer onde apenas se é suportado é aceitar viver como sombra.
“Não fiques onde te toleram; fica onde te amam.
A tolerância tornou-se moda: é a mentira civilizada em que todos querem acreditar. O amor real não é essa sensação esfarrapada de reconhecimento que te oferecem nas redes sociais, nem as palavras doces de quem nunca te olhou nos olhos.
Onde te toleram permanecerás uma sombra: uma ausência. Onde te amam serás uma vida em movimento.
O amor exige a coragem da vulnerabilidade. Ser vulnerável é um acto de amor com coragem, sem merdas.
A tolerância é passiva; o amor é a força que te move.
Mexe-te, vá.”
A frase inicial resume a ideia central da publicação. Pedro Chagas Freitas escreve sobre amor como lugar de movimento, não como aceitação morna ou presença suportada.
Três textos sobre a forma como se escolhe viver
Apesar de tratarem temas diferentes, os três textos cruzam-se numa mesma inquietação: o modo como cada pessoa responde ao que a vida lhe coloca diante.
Num, Pedro Chagas Freitas fala da dor que se carrega em silêncio. Noutro, aponta o dedo à inveja perante a vitória alheia. No último, deixa um aviso sobre relações onde falta amor verdadeiro.
Entre a dureza das palavras e a vulnerabilidade assumida, o escritor volta a fazer das redes sociais um território de reflexão. E, desta vez, o eixo parece claro: não basta sobreviver ao que dói. É preciso escolher melhor onde se fica, o que se celebra e aquilo que se transforma em caminho.
