Pedro Chagas Freitas escreve sobre mudança, identidade e futebol: «Há derrotas que acontecem quando deixamos de reconhecer quem somos»

Pedro Chagas Freitas escreve sobre mudança, identidade e futebol: «Há derrotas que acontecem quando deixamos de reconhecer quem somos», afirmou.

Pedro Chagas Freitas voltou a usar as redes sociais para deixar duas reflexões que, embora partam de lugares diferentes, acabam por tocar num ponto comum: a identidade.

Numa das publicações, o escritor fala da capacidade de mudar e contesta a ideia de que as pessoas permanecem iguais ao longo da vida. Na outra, regressa à infância, ao pai e à seleção brasileira de 1982 para refletir sobre aquilo que acontece quando se perde uma forma própria de estar no mundo.

Entre crescimento pessoal, memória e futebol, Pedro Chagas Freitas escreve sobre a importância de não ficar parado. E também sobre o risco de, no caminho, deixar de reconhecer aquilo que se é.

«As pessoas mudam»: Pedro Chagas Freitas rejeita a imobilidade como virtude

A primeira reflexão parte de uma frase repetida tantas vezes que o escritor decidiu atacá-la de frente. Para Pedro Chagas Freitas, dizer que alguém “não muda” não representa, necessariamente, firmeza.

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Na publicação, começa sem suavizar as palavras:

«Deixem-se dessa merda de dizer que as pessoas não mudam. Isso não é filosofia de vida; é preguiça mental com pretensões de sabedoria, um slogan de almofada barata: “Eu sou assim, não mudo por ninguém”. Grande feito, caríssimo. Os seixos do rio também não mudam; acabam gastos, estéreis, arredondados pela corrente, vencidos.»

O escritor segue depois por uma ideia que atravessa todo o texto. A mudança, na sua visão, não é uma traição ao que se é. Pelo contrário, pode ser uma consequência natural de continuar vivo.

«As pessoas mudam. Nunca deixamos de ser muitos dentro do mesmo corpo. Não é uma contradição; é biologia emocional. Somos instáveis, arde cá dentro qualquer coisa que não sossega. Ainda bem.»

A reflexão afasta, assim, a ideia de que a permanência é sempre sinónimo de coerência. Para Pedro Chagas Freitas, recusar qualquer transformação pode esconder medo, e não força.

«Quem diz “sou assim e serei sempre assim” não está a declarar firmeza de carácter; está a assinar um atestado de óbito emocional. É o autoelogio dos medíocres: confundem lealdade a si próprios com medo de crescer.»

O escritor olha para a própria mudança no último ano

O texto não se fica por uma observação sobre os outros. Pedro Chagas Freitas leva a reflexão para o seu próprio percurso e reconhece diferenças profundas entre quem é hoje e quem era anteriormente.

Não renega, contudo, essa versão passada. Pelo contrário, olha para ela com alguma ternura e compreensão.

«Eu mudei. Mudei tanto no último ano. Se me encontrasse com a minha versão anterior, não sei se me reconheceria; mas daria um abraço ao idiota que fui. Com carinho. Ele também estava a tentar. Não são os burros que não mudam; são os mortos, os que desistiram, os que decidiram sentar-se a meio do caminho e montar uma loja de queixas.»

É precisamente aí que o escritor coloca a mudança como parte da sobrevivência emocional. A última frase da publicação resume a ideia sem a transformar numa contradição.

«Se ainda estás vivo, muda; deixa-te mudar. É a forma mais honesta de te manteres igual a ti próprio.»

A mensagem fecha uma reflexão pessoal, mas a segunda publicação leva o mesmo tema – a identidade e aquilo que acontece quando se perde – para um território completamente diferente.

Uma memória de infância, o pai e o Brasil de Sócrates, Zico e Falcão

Noutra publicação, Pedro Chagas Freitas regressa aos cinco anos e a uma memória partilhada com o pai.

O ponto de partida é simples e íntimo:

«— Filhote, senta-te aí que vai jogar o Brasil.»

Depois, o escritor recupera os nomes de uma geração que, para si, representou muito mais do que futebol.

«Eu com cinco anos e o meu pai a fazer-me olhar para Sócrates, para Zico, para Falcão. Eu com cinco anos a torcer pelos mágicos de amarelo.»

A partir dessa imagem, Pedro Chagas Freitas constrói uma reflexão sobre a seleção brasileira enquanto símbolo de uma possibilidade. Não apenas ganhar, mas fazê-lo através de uma determinada forma de estar.

«Há selecções que representam um país; o Brasil representava uma possibilidade: a possibilidade quimérica de a alegria vencer. As crianças, e os adultos, deveriam passar a vida a lutar por ela, não deviam?»

«Não se pode tirar o samba do Brasil»

Para o escritor, falar daquele Brasil é falar de alegria, futebol e identidade como partes de uma mesma linguagem.

A reflexão prossegue:

«Não se pode tirar a alegria do Brasil; não se pode tirar o samba do Brasil. Aquela selecção era uma ideia filosófica, a resposta possível ao absurdo da existência. Em futebol, a alegria é a bola no pé, é a ginga, é o engano do drible, a dança temporária diante do adversário como diante da vida, e é assim que se engana a morte. Há povos que aprenderam a sobreviver através da disciplina; o Brasil sobreviveu através da festa. Quem nunca percebeu isso nunca percebeu o Brasil.»

O samba surge, neste texto, não como um mero elemento decorativo. É usado para explicar a relação que Pedro Chagas Freitas estabelece entre a seleção brasileira, a bola e uma forma coletiva de sobreviver.

«O samba não é correr atrás da bola, não é paciência; o samba é o contrário da paciência, o avesso da morte: é a bola no pé. No Brasil, a Copa era a salvação temporária de um país, como Senna o era. Há quem ache isso ridículo; eu acho monumentalmente humano.»

A referência a Ayrton Senna surge precisamente nesse contexto. Futebol e automobilismo aparecem como momentos capazes de concentrar esperanças e emoções coletivas.

A estatística que levou Pedro Chagas Freitas a dizer que o Brasil «já tinha perdido»

Depois da memória, o escritor volta ao presente do jogo que motivou o texto. Não identifica o adversário na publicação, mas explica o momento em que sentiu que algo estava errado.

O sinal chegou através da posse de bola.

«Ontem, quando a meio da primeira parte apareceu a estatística, percebi que, mesmo que ganhasse, o Brasil já tinha perdido: a bola tinha andado 60% do tempo nos pés do adversário. Isto pode ser muita coisa; não é o Brasil. O jogo estava perdido, e por goleada. Há derrotas que acontecem quando deixamos de reconhecer quem somos, quando abdicamos da nossa identidade.»

Não é, portanto, apenas o resultado que está em causa. A crítica nasce da sensação de que uma equipa pode continuar em campo e, ainda assim, ter-se afastado daquilo que a distinguia.

Pedro Chagas Freitas resume essa visão numa frase:

«Uma equipa é uma forma de literatura.»

Pelé, os buracos da rua e a criatividade que nasce da falta

A partir daí, o escritor recupera uma história envolvendo Pelé para falar de talento, imperfeição e improviso.

Na publicação, escreve:

«Quando um dia perguntaram a Pelé como é que conseguia dominar tão bem a bola, o Rei respondeu com um sorriso simples:»

E recupera a resposta atribuída ao antigo futebolista:

«— Cara, eu cresci numa rua que tinha muitos buracos.»

A imagem dos buracos serve depois para uma nova leitura do futebol brasileiro. Pedro Chagas Freitas sugere que a criatividade nasce, muitas vezes, precisamente da dificuldade e da necessidade de encontrar soluções.

«As grandes escolas nascem das imperfeições, a criatividade vem da falta. Este Brasil não sabe improvisar. Se calhar, faltam-lhe buracos no chão: se calhar, há táctica a mais e pândega a menos.»

A reflexão sai, então, novamente do futebol e regressa à vida. Os buracos deixam de ser apenas os de uma rua e passam a representar aquilo que obriga alguém a aprender, adaptar-se e inventar.

«Se não estamos atentos, a vida faz-nos isso: vai-nos asfaltando, vai-nos retirando os buracos. Quando damos por isso, já não sabemos dançar.»

Um pedido final e a memória do pai

O texto termina no mesmo lugar emocional onde começou. Depois de falar de futebol, de identidade, de Pelé e da alegria perdida, Pedro Chagas Freitas regressa ao pai.

A última frase junta a memória da infância ao desejo de reencontrar uma seleção que, para o escritor, representava muito mais do que resultados.

«Quando virem por aí o Escrete, avisem-me; quero dizer ao meu pai, esteja ele onde estiver, para se sentar ao meu lado.»

Nas duas publicações, Pedro Chagas Freitas parte de temas aparentemente distantes. Num lado, alguém que muda. No outro, uma equipa que, na sua visão, deixou de se reconhecer.

No centro das duas reflexões está a mesma inquietação: crescer sem morrer por dentro e mudar sem perder aquilo que verdadeiramente nos identifica.

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