
“Pelo Meu Sporting”: Nuno Sousa em entrevista ao Infocul.pt, na qual abordou várias áreas do clube e daquilo que pretende mudar e manter, caso ganhe as eleições.
Texto e Entrevista: Rui Lavrador
Fotografias: Candidatura Pelo Meu Sporting
Nuno Sousa é candidato à presidência do Sporting Clube de Portugal, nas próximas eleições que se realizam a 5 de Março.
Natural do Porto, nasceu em 1976 (ano da data de fundação de uma das claques do Sporting, a Juventude Leonina, conhecida por Juve Leo), é sócio desde 1981, é casado e tem um filho.
Apesar de futebolisticamente o azul e branco ser a cor dominante na cidade Invicta, desde cedo o seu coração se cobriu de verde e branco e começou a vibrar pelo clube do Leão rampante.
Agora, é o cabeça de lista do movimento “Pelo Meu Sporting” às próximas eleições do clube leonino.
Na passada sexta-feira, dia 25 de Fevereiro, recebeu-me no Hotel Corinthia, em Lisboa, e concedeu uma entrevista na qual a tudo respondeu sem hesitação, com um raciocínio organizado, claro e delineado. Não fugiu a temas polémicos, nem mesmo quando se falou de Bruno de Carvalho.

Como é que um adepto de bancada, como se auto-intitulou em algumas entrevistas que já deu, está a reagir ao ser a cara de uma equipa, que o acompanhará, e estar directamente a interagir com a imprensa e a massa adepta do Sporting?
É verdade. É assim que nós nos definimos, somos a alternativa vinda da bancada. Eu diria que somos de todas as bancadas, porque há pessoas nesta lista desde aqueles que gostam de estar mais calminhos na central a assistir ao seu jogo, aqueles que claramente são da superior e gostam de ver junto das claques e há também até aqueles que nem estão autorizados a ver o jogo pelo seu médico. Para poupar a sua saúde, portanto até daqueles que nem entram no estádio por estarem proibidos temos também pessoas nessa circunstância. Também temos, na nossa equipa, quem gosta mais de modalidades do que propriamente do futebol, que quase que nem entra no estádio mas que está sempre presente no Pavilhão João Rocha e esta heterogeneidade é aquilo que nós achamos que é a força precisamente desta lista e desta candidatura. Agora numa parte mais pessoal, tem sido tem sido muito gratificante lidar com tantas pessoas, tem sido muito gratificante também. É um crescimento pessoal também muito grande e a parte da relação com a imprensa tem decorrido de uma forma óptima, um diálogo muito aberto e era importante até que a sociedade percebesse também o fundamental que é esta esta função dos jornalistas e da imprensa e da comunicação social, porque de facto leva a nossa voz a quem quer ouvir. Isso é fundamental, e eu, e nós respeitamos muito esse trabalho que está a ser feito e agradecemos essa voz que nos estão a dar.
Candidata-se numa altura em que desportivamente o Sporting está num bom momento, quer no futebol quer nas restantes modalidades. Não é um risco candidatar-se, numa altura em que, desportivamente, Frederico Varandas tem tudo a favor dele?
Risco é outra coisa. Risco é atravessar a rua, sem olhar, e ser atropelado. Nós tínhamos traçado o nosso caminho e sempre dissemos que era independente daquilo que fossem os resultados que estivessem a decorrer. Ainda bem que os resultados são bons. E aí até posso dizer que seria mais arriscado, se os resultados não estivessem a ser bons, por exemplo, ao nível do futebol e das modalidades. Aquilo que nós vemos é que as modalidades é um trabalho que está consolidado, que vem que vem detrás. Só para dar um exemplo, o trabalho que é feito no futsal já é um trabalho que vem de há dez anos, portanto já passou diversos mandatos e direções. O trabalho que está a ser feito por exemplo no hóquei em patins, também foi um trabalho a todos os títulos excelente, porque o Sporting teve durante muitos anos sem hóquei em patins, recuperou e agora está no topo. Mas isto é coisa que leva tempo e que vem detrás e que tem que ser continuado. E obviamente houve aqui um acontecimento muito importante no Sporting foi em 2017 ter inaugurado o Pavilhão João Rocha. Andavam as modalidades com a casa às costas. Basicamente, o Sporting podia ter o andebol no Casal Vistoso, o hóquei em Alverca e o futsal em Odivelas. E portanto. aquilo que que aconteceu foi uma coisa muito importante. que foi o Sporting finalmente ter um pavilhão condigno para desenvolver a sua actividade e também isso ajudou a este salto que nós vemos de competitividade. Por isso, ainda bem que o Sporting, em grande parte de sua actividade desportiva ao nível dos resultados, está bem, porque assim podemos dedicar-nos a tudo o resto que é tão ou mais importante, pelo menos ao nível da sustentabilidade, e para que isto não seja apenas uma fase transitória e seja uma fase consistente e duradoura e que o Sporting não tenha tantos altos e tantos baixos e tantas fases em que parece que vai estar lá em cima e depois é trazido para baixo, por problemas financeiros, por problemas económicos, por problemas de não ter estabilidade naquilo que é um projecto sustentável.

Antes de irmos à parte financeira, permita-me questioná-lo por que motivo não se candidatou nas últimas eleições, ocorridas após o ataque à Academia?
Nem sequer me passava pela cabeça tal coisa.
Um nome que continua a ser incontornável na história do Sporting, por bons e por maus motivos, mas que neste momento foi ilibado de todas as acusações e de todos os julgamentos que lhe fizeram em praça pública, chama-se Bruno de Carvalho. Houve fundamento para expulsar Bruno de Carvalho de sócio do clube?
Não! Tanto é que no recurso que foi feito para a assembleia geral, pelos sócios expulsos, para além de Bruno de Carvalho, foram bastantes mais os sócios expulsos, eu votei a favor do recurso, portanto contra a expulsão, precisamente por causa disso. A nossa visão é que a expulsão, seja de que sócio for, só deveria de ocorrer num caso que se provasse em tribunal. Porque é aí que se tem que se fazer as provas de crimes e de ações dolosas contra o clube, ou contra uma instituição, ou contra quem for, ou contra pessoas. Como não há nada disso, nós somos claramente a favor de uma reintegração. Precisamente porque achamos que a regra deve ser: para haver uma expulsão, e uma expulsão é, vá lá, a pena capital, teria que haver uma decisão transitada em julgado num tribunal, ou um tribunal que confirmasse que havia conduta dolosa e grave contra o Sporting. Mas não é só esse caso, há mais casos também do passado, e aquilo que nós gostávamos era que esta regra fosse genérica e também fosse estabelecida daqui para a frente, para as pessoas também terem cuidado que precisamente esses julgamentos em praça pública são muito perigosos porque baseiam-se mais em opiniões do que em factos. A questão é que os tribunais se baseiam sempre em factos e na prova. E como não se provou nada, até hoje, seja no caso do Bruno de Carvalho seja por exemplo no caso de Godinho Lopes, parece-me da mais elementar justiça que se reponha a situação, porque senão fazemos perdurar situações de injustiças e situações de injustiça são sempre interpretadas pelas pessoas como como coisas que são más, como é óbvio. Nós temos um sentido de justiça e, portanto, para pacificar e enterrar de vez essa história, seria interessante, a nosso ver, que se desse uma reintegração de todos os sócios expulsos, em que não se verificou nada em tribunal.

Nos anos mais recentes do Sporting, em termos daquilo que é a presença da massa adepta, por exemplo, no estádio podemos definir um antes e um depois de Bruno de Carvalho. Bruno de Carvalho voltou a aproximar o clube dos adeptos e as lotações em Alvalade aumentaram. Frederico Varandas, no seu programa, queria unir o Sporting. O problema é que Frederico Varandas, neste seu primeiro mandato, não conseguiu unir o Sporting. Houve sempre problemas, ou com alguns sócios em específico ou com as claques. Caso seja eleito, qual será o seu posicionamento relativamente às claques?
Em primeiro lugar, dizer que a sua análise é correcta. Ou seja, Frederico Varandas tem insistido em quezílias, muitas vezes pessoais, esquecendo-se que o seu cargo é institucional, e, portanto, ao usar muitas das vezes uma linguagem contra sócios em particular ou às vezes a grupos de sócios, não está a fazer aquilo que prometeu. O seu mote da campanha era Unir o Sporting, e de facto aquilo que nós vemos é que Ruben Amorim, por exemplo, tem feito mais por isso, e até sendo reconhecidamente um adepto de outro clube, do que propriamente o presidente que se candidatou e foi eleito com essa intenção e, portanto, a nossa visão em relação às claques é: as claques são parte integrante daquilo que é a família sportinguista, está assim dito nos estatutos e aquilo que nós vemos é que até na condução daquilo que é a relação institucional que deve haver dentro da família sportinguista, Frederico Varandas não fez a melhor condução, queimou toda e qualquer hipótese de diálogo que deve sempre existir, elevando o tom a um nível belicista, de guerra com as claques, em que ninguém sai beneficiado com isso. A nossa postura é: devem-se manter relações institucionais, devem ser claramente apoiadas naquilo que podem ser apoiadas, assim como outros grupos do Sporting devem e podem ser apoiados. Aquilo que nós dizemos é que o apoio deve ser ao nível administrativo e também logístico. Um exemplo: Hoje, sexta-feira, o Paços de Ferreira vem jogar aqui ao Estádio Nacional, com a B-SAD, e a direção do Paços Ferreira, por ser uma sexta-feira, ser de noite e ficando Paços Ferreira a mais de 300 quilómetros de Lisboa, definiu que iria apoiar os adeptos que se quisessem deslocar para assistir a este jogo. Aqui está uma forma clara de apoiar, de uma direção, que eles também são sócios do Paços de Ferreira, e são estes exemplos que deviam de existir. Não se fazer lutas contra os adeptos. E também tivemos em termos legislativos, uma luta grande que ainda não está totalmente vencida, que é o cartão do adepto que é uma forma clara de discriminação de adeptos dentro de um espetáculo desportivo e que a nosso ver não deve acontecer, não deve acontecer nesse caso, nem noutros casos. E aquilo que me parece é que, por exemplo, Frederico Varandas discrimina claramente adeptos quando obriga, por exemplo, a uma revista muito agressiva com descalçar, fossem mulheres, fossem idosos, fossem crianças e por outro lado, noutras zonas do estádio, entram sem revista nenhuma. Uns parecem que são terroristas a querer passar bombas num aeroporto e os outros parecem ser pessoas com privilégios especiais, isto é que não pode acontecer. Temos de ser todos iguais e os estatutos do Sporting dizem isso mesmo, ninguém pode ser discriminado. Está nos estatutos do Sporting, portanto a nosso ver isso até era um incumprimento estatutário porque lá diz que ninguém pode ser discriminado e ao fazer isto há uma clara discriminação, que está aos olhos de todos, e inclusive até foi falada pela Europa toda, e que chegou até ao jornal A Marca, de Madrid. É um dano reputacional muito grande.
Esta sua candidatura, se não me falha a memória, começou em 2019 a ser desenhada num congresso em Coimbra, que reuniu 68 pessoas. Desde essa altura, até aqui, como é que foi sendo construído o programa, que ideias suas é que estão lá e quais é que são as ideias que inicialmente não apoiava, mas que em equipa chegou à conclusão que eram as melhores?
Foi exactamente isso, começou a ser desenhado em 2019. No final, e tudo porque o Sporting tinha previsto um congresso, que está previsto estatutariamente, mas depois cancelou. E, portanto, nós íamos a esse congresso para dar a nossa opinião e dar as nossas ideias ao Sporting. Tendo sido cancelado, nós dissemos então já que sabemos quem são algumas das pessoas que vão, porque é que nós não criamos um congresso? Chamámos essas pessoas e outras que queiram vir e vamos juntar-nos e vamos fazer aqui um debate de ideias, vamos partilhar aqui um bocadinho de sportinguismo. Portanto, há males que vêm por bem e o cancelamento de um congresso organizado pelo Sporting, vira um congresso organizado por nós e chegamos aqui. O que é que aconteceu a partir desse Congresso? Essas pessoas que se viram e aquelas que quiseram continuar, continuamos a agregar mais pessoas, mais ideias e conseguimos fazer com que estas ideias começassem a ser trabalhadas em diversos grupos, para entregarmos, se assim quiséssemos, aquilo que agora é o programa eleitoral e na altura seriam as conclusões do congresso, se assim quisermos. Mas como começamos a ver que havia uma massa crítica, já de pessoas e ideias, decidimos então avançar para este tema. Há alguns temas que se calhar, eu poderia não me lembrar. Olhe, por exemplo, ao nível da marca, foi uma ideia sugerida por alguém, voltar ao símbolo anterior. Nunca me teria passado se calhar essa ideia, se não fosse um grupo alargado de diversas pessoas que nos alertaram para esse tema que é: o Sporting há 20 anos mudou o seu símbolo, mas a verdade é que o símbolo antigo ainda não foi descontinuado verdadeiramente, porque a maior parte dos sócios do Sporting continuam ligados ao símbolo antigo e há uma convivência. Basta entrar na Loja Verde, ali junto ao estádio, e ver que os dois símbolos convivem ainda passados 20 anos. e, portanto, o que nos parece claro que isto está a querer dizer é que, e isto foi alertado pelo grupo da comunicação, convivendo hoje não é possível porque se nós queremos ter uma identidade e passados vinte anos, o antigo ainda tem tanta ou mais força que o que o novo, então este deve ser um sinal. Se vamos à Loja Verde e a escolha dos sportinguistas é o símbolo antigo,então isto é um sinal. Então temos de propor [regressar ao símbolo antigo]. No meu caso pessoal, não me tinha passado pela cabeça, mas esta é que é a vantagem de um programa participado por dezenas e dezenas de pessoas, grupos de trabalho multidisciplinares, e é esta a vantagem deste pensamento e desta forma moderna, porque é assim que nas empresas hoje em dia também acontece e aquilo que nós fizemos foi utilizar metodologias para construir isto, exactamente iguais àquelas que são utilizadas nas empresas. Mas está aí um bom exemplo de uma coisa que se fosse eu a escrever sozinho, se este fosse o programa do Nuno e não do “Pelo meu Sporting”, de uma série de pessoas, provavelmente esta esta proposta nunca estaria aí presente.

De sua lista fazem parte pessoas que nunca integraram uma outra lista ou concorreram a outras eleições, que é algo que não é muito habitual. É um sinal de que o Sporting precisa de ar fresco e quebrar alguns poderes que estão instalados há demasiados anos?
Sim, acho que sim. Acho que isso é fundamental, mas não é só nestes sistemas. Não é só nestes sistemas. As pessoas estão demasiado fechadas numa bolha e que estão durante muito tempo a debruçarm-se sobre um assunto, seja ele qual for, começa a haver vícios e começamos a fechar sobre nós próprios e sobre as nossas próprias ideias e, portanto, é fundamental haver uma renovação constante porque o mundo não pára, porque nós assim o desejamos, o mundo vai a uma velocidade cada vez maior e portanto é fundamental haver este refrescamento de pessoas e de ideias, em todos os momentos e, portanto, nós fomos buscar obviamente pessoas muito qualificadas, mas que tipicamente não são consideradas naquilo que são os poderes, ou daquele círculo à volta do Sporting, que durante anos e anos e anos quase que determinavam quem seriam o estereótipo do presidente ou daquilo que é o Conselho Diretivo do Sporting, que tinham de ter quase que a bênção de uma série de pessoas do Sporting para serem até candidatos. E nós seguimos em frente, sem isso, sem tentar recolher recolher apoios. Os apoios que nos interessam são os apoios das ideias e da vontade das pessoas que integram a lista, e depois sujeitarmo-nos a votos. Esse é o principal apoio que que que nós procuramos. Portanto, sim é fundamental que as pessoas alarguem aquilo que é o círculo de potenciais candidatos, de potenciais membros da lista e de potenciais ideias para fazer uma campanha e candidatar-se ao Sporting.
Em 2018 não votou. Com algum distanciamento, se fosse hoje voltaria a fazê-lo?
Sim, porque estava em completo desacordo com aquilo que era o ambiente eleitoral, de não se permitirem na secretaria que listas concocorressem. E, portanto, por outro lado, daqueles que se apresentaram também não me revia em nenhum. Portanto, isto era dois em um. Portanto, a minha resposta foi, passado muitos anos, não ter ido votar, a abstenção, neste caso porque foi a minha resposta a estas duas situações.
Defende um Presidente virado ou focado no adepto e chegou a dizer que se revia, em alguns pontos, na presidência, por exemplo, de Bruno de Carvalho. Chegou a falar com ele sobre a sua candidatura?
Não, que fique claro que não falo com Bruno Carvalho desde o verão de 2018. Já sei qual foi a entrevista em que me perguntaram isso, quais eram quais eram os presidentes, eu referi que Bruno Carvalho e João Rocha. João Rocha principalmente, porque foi ele que reavivou a matriz do fundador, que era um clube eclético e portanto, depois Bruno de Carvalho recuperou também essa essa matriz, do João Rocha, mas eu cresci com João Rocha, portanto, é mais impactante tudo o que nós fazemos da nossa na nossa adolescência e na nossa infância. É mais impactante, do que aquilo que nós fazemos em adultos e, portanto, eu sempre fiquei com aquela ideia, que depois foi interrompida quando João Rocha sai e entramos no célebre projeto de Roquette, da tal elitização do Sporting, ao arrepio daquilo que era na sociedade portuguesa uma forma de ser mais inclusivo é que hoje em dia com a globalização se vê que é um caminho completamente errado, porque nós temos que nos expandir e não trabalhar para nichos. Não é através de uma elitização, porque as pessoas depois confundem muito o que é ser um clube elitista ou ter elites e, portanto, esse caminho a nosso ver é errado porque aquilo que se pretende é aquilo que a sociedade evolui é para uma maior inclusão e para cada vez mais pessoas terem acesso àquilo que primeiro só alguns é que tinham acesso e, portanto, este caminho de João Rocha que pôs dezenas de milhares de atletas a praticarem atletismo, natação, ginástica é o caminho que nós vemos do ecletismo que queremos preservar e é o caminho do futuro. Nós temos um capítulo importante aí que são as Academias Ecléticas do Sporting que no fundo é tentar levar a experiência que algumas pessoas, aqui à volta de Lisboa conseguem ter no Sporting, para o resto do país, principalmente dirigido àquilo que são os tempos livres das crianças que é poderem experimentar diversas modalidades com o selo de qualidade e o Livro de Estilo do Sporting. E é isso que nós queremos, é levar a todo o lado a experiência de ser do Sporting e praticar desporto e ter uma vida saudável, com o leão rampante como símbolo.

Recentemente no jogo do Estádio do Dragão [entre Porto e Sporting] assistimos a cenas lamentáveis. A relação entre os clubes grandes não tem sido propriamente a mais proveitosa e cordial. Caso seja eleito presidente do Sporting, qual é a relação que estabelecerá com o Benfica e com o Porto?
Em primeiro lugar, dizer que essas tais cenas lamentáveis, curiosamente, não mereceram nem do governo nem das instituições nenhumas palavras. Portanto, parece que os assuntos muitas das vezes são selectivos e as indignações são selectivas. E por acaso essas imagens e aquilo que aconteceu percorreu o mundo todo e ninguém ficou indignado. O que também mostra um bocadinho que se calhar já passou a ser uma coisa normal. E é isso que que é preocupante. As relações deviam de ser sempre as melhores possíveis, institucionalmente falando. Mas, para que isso seja possível, não se pode entrar em tipo de discurso que acabou por acontecer no final desse jogo. Tem de haver respeito mútuo e a linguagem que é utilizada, a de tentar desvalorizar por exemplo o nome do Sporting- onde temos assistido a isso ao nível da comunicação do futebol, com o Porto. Não é aceitável. Somos adultos.
A questão do Sporting de Lisboa…
Exactamente. Quer dizer o Sporting não tem o nome de Lisboa e, portanto, não faz sentido estar a brincar com os nomes, porque isso é elevar o nível da discussão ao pátio da escola de pré-adolescentes, em que isso é muito engraçado brincar com os nomes. Mas isso é na escola, quando temos 12 ou 13 anos, não são adultos responsáveis que podem fazer esse nível de conversa. Acho que era muito mais proveitoso se o Futebol Clube do Porto, por exemplo, nesse caso tivesse feito propostas para as coisas que aconteceram lá. E se tinha alguma razão de queixa em relação ao Sporting, devia apontar, mas imediatamente apresentar uma proposta que acho que é bem mais interessante que andar a falar em Sporting de Lisboa
E relativamente ao Benfica?
Exactamente a mesma coisa. Se o Benfica demonstrar o respeito institucional, que também algumas vezes tem faltado, terá as melhores relações institucionais. E depois há aqui outro nível de questões, em que muitas vezes se confundem aquilo que são relações pessoais com relações institucionais. Eu posso me dar muito bem pessoalmente por exemplo com o presidente do clube A e institucionalmente não ter relações, assim como o contrário também é verdade. O que interessa não é a pessoa em si, mas o cargo, e nisso há uma confusão muito grande, muitas das vezes na cabeça das pessoas. O cargo é porque os sócios desse clube, dessa instituição, decidiram que era aquela pessoa que está a representar, depois existem as relações pessoais. O problema muitas vezes, em Portugal, é confundir os dois ou os dois. Os dois níveis de relações é achar que só é possível ter relações institucionais, se as relações pessoais existirem. E nada disso tem que ser assim.
Passando aqui à parte menos sonora dos programas eleitorais que é sempre a parte financeira. Os adeptos acima de tudo querem ganhar no futebol. A parte financeira vem por acréscimo ou então quando a sirene de alerta estiver a soar bem alto. Tem revelado algumas preocupações com a situação financeira e patrimonial do Sporting. Enquanto adepto, não enquanto candidato a presidente, quais são as suas maiores preocupações neste momento?
As minhas preocupações vêm, para já, do facto de achar que é impossível ter resultados desportivos sustentáveis sem ter uma base. Por isso é que nós falamos no nosso programa que a base principal são os sócios e aquilo que é a massa adepta, porque um clube sem adeptos não tem razão de existir. Sobre essa base, tem que existir uma forte estrutura económico-financeira para que depois se consiga ter resultados desportivos de uma forma consistente. Aquilo que nós vemos é que tipicamente o modelo que está instituído é vamos tentar ter resultados desportivos para que venham os resultados financeiros. A questão é que só um é que pode ganhar e, portanto, quando os outros não ganham, acontece um problema. Quando se ganha parece que está tudo bem, mas rapidamente se passa também do tudo bem para o tudo mal, porque lá está, há um ano em que se ganha e noutro perde-se, porque isto é desporto no fundo e, portanto, ninguém pode garantir que vai ganhar sempre. Enquanto adepto, se quisermos enquanto pessoa individual e não a pessoa que se está a candidatar, a minha preocupação vem desde logo pelo facto de na minha formação em gestão, e estive activo em muitas vertentes financeiras, no meu curso, e portanto aquilo que eu estou habituado a fazer desde a universidade é olhar para aquilo que são as diversas métricas do que são as demonstrações financeiras, seja uma empresa ,seja de um clube, seja do que for ,e imediatamente ver aquilo que que se nos apresenta. É sempre com um espírito muito analítico, do que lá está porque podemos jogar ao nível das opiniões, mas depois os números são o que são, e as demonstrações financeiras são claras a dizer que o nível de gestão que o Sporting tem feito é pagar o mais tarde possível e receber o mais o mais cedo possível. Isto não há problema nenhum, são as regras que qualquer director financeiro tentará fazer na vida daquilo que é a operação do dia-a-dia. A questão é quando temos isto tão desequilibrado. E temos muito para pagar e não temos nada para receber e o Sporting tem uma situação muito desequilibrada que advém do facto de a sua operação, aquilo que é o seu dia-a-dia, gastar sempre mais do que recebe. Ora, isto ao longo de anos e anos e anos, levou a que o Sporting tenha um passivo que já não é facilmente gerido. Aliás já fez várias reestruturações financeiras e se não quebrar o ciclo rapidamente, pode entrar outra vez em algum descontrolo. Porquê? Porque a nosso ver o que é fundamental ser feito em termos estruturais, está por fazer, e é por isso que Frederico Varandas prometeu uma série de coisas que não fez. E volta a prometer, mas, entretanto, passaram-se aqui quatro anos em que nada foi feito e perdeu uma excelente oportunidade, a nosso ver, de ter feito e ter resolvido alguns dos problemas estruturais.

Fazendo aqui uma analogia à profissão de Frederico Varandas, o Sporting precisava de uma operação a nível financeiro e ele optou por um tratamento conservador. É isso?
É e vamos esperar que não tenhamos que entrar em cuidados paliativos.
Como é que vê neste momento o jornal Sporting? É um jornal informativo ou é um jornal propagandista da actual presidência?
É um jornal propagandístico. Aliás nem utilizaria o nome de jornal, até porque aquilo já nem mesmo esteticamente parece. Parece-se mais com outro formato que não um jornal. Vemos muito pouco de jornalismo ali, vemos muita opinião de pessoas até ligadas à direção que estão nas colunas de opinião e o diretor do jornal ser um amigo pessoal de Frederico Varandas, que por acaso também é membro da direção. É aquilo que nós temos que pensar e olhar para a história daquilo que é o Sporting, ver por exemplo que o jornal do Sporting foi dirigido durante 18 anos por Fernando Correia, um jornalista de mão cheia, uma voz da rádio, ou uma cara de televisão, e é isso que nós queremos e que dizemos no nosso no nosso programa. Tem de ser eminentemente um jornal conduzido por jornalistas e de preferência que a redação seja conjunta com a Sporting TV, porque só um centro produtor de conteúdos e que depois pode, consoante a plataforma a que se dedicar, adaptar esses conteúdos. Já sabemos que há conteúdos que são mais para TV. outros serão mais para jornal. outros ainda por exemplo por uma revista que é uma das nossas propostas ou até para uma rádio que é também uma das nossas propostas que que nós temos, mas o fundamental disto tudo é ser um projecto jornalístico mais aberto aos sportinguistas, de preferência até com conteúdos que possam advir dos próprios, da própria massa adepta, porque afinal de contas o conteúdo é o que interessa e o Sporting tem conteúdos riquíssimos e tem uma massa adepta e associativa riquíssima que podem construir todos estes estes conteúdos e dar-lhe uma riqueza de uma forma que estamos a desperdiçar, uma vez que preferimos que seja por plano de grande dístico da direção e não para aquilo que nasceu, que é levar informação daquilo que é a actividade do clube.

Uma das ideias que tem defendido nas entrevistas tem dado é que irá aproveitar, caso ganhe as eleições obviamente, o que de positivo foi feito por Frederico Varandas e a sua equipa. Aquilo que eu lhe pergunto é se não tem receio que algumas das propostas que o seu programa tem depois sejam copiadas por outros e adulterada a sua origem e criador?
Dizem que a cópia é a melhor forma de elogio. Não, não temos receio nenhum disso. A partir do momento em que passou a ser público, o programa passou a estar no seio de todos os sportinguistas e, portanto, se alguém vir, e nós achamos que sim, que há muitas e boas ideias, pois que faça bom proveito. Logo que seja pelo clube, pelo Sporting, estaremos satisfeitos.
Tem alguma coisa a dizer sobre a lista de Frederico Varandas as eleições? [Entrevista realizada na sexta-feira, dia 26 de Fevereiro]
Frederico Varandas, a sua lista pura e simplesmente não foi apresentada e, portanto, parece quase que Frederico Varandas parece ter vergonha sobre a sua lista, porque pelo menos uma apresentação merecia. Depois, uma análise que se deve fazer é que as figuras que acompanhavam Frederico Varandas no primeiro mandato não quiseram acompanhá-lo, agora, para esta reeleição e pelo menos jornalisticamente parece-me que seria uma forma de questionar Frederico Varandas porque é que o seu actual presidente da assembleia geral, Rogério Alves, não o acompanha e Baltazar Pinto, o juiz Baltazar Pinto, também não o acompanha, nem no conselho fiscal. Para além disto, se juntarmos que Frederico Varandas perdeu três pessoas da sua antiga direção, ao longo do mandato, e também não há João Sampaio, que historicamente é uma figura conhecida do Sporting e também é administrador da SAD, além de ser do conselho diretivo também não vai nesta lista. Levanta uma série de perguntas que mereciam resposta de Frederico Varandas, nomeadamente o porquê de fazer isto. A pergunta que eu deixo é que se Frederico Varandas não consegue manter a união na sua lista, como é que ele se propõe, uma vez que também já vimos que falhou, a criar união no Sporting?
Relativamente ao futebol, Ruben Amorim é para manter?
Ruben Amorim é o treinador do Sporting e todos os contratos são para cumprir. E estamos muito satisfeitos com a sua presença com a sua a sua performance e deve ser para continuar. Tal e qual como, por exemplo, Nuno Dias no futsal, já há 10 anos que desenvolve um excelente trabalho no Sporting, Paulo Freitas também já há quatro ou cinco anos que desenvolve um trabalho de excelência no Sporting, e pensamos que deve ser assim que deve continuar. Tudo o que venha detrás, que já está estabelecido e está bem, deve-se manter. O que nós queremos fazer é fazer diferente em coisas que não estão feitas e nas coisas que não estiverem tão bem, melhorá-las.
Ruben Amorim já falou várias vezes, até publicamente, da boa relação que tem por exemplo com Hugo Viana, que é quem neste momento está com a pasta do futebol do Sporting. Caso o Nuno ganhe, quem fica com a pasta do futebol do Sporting?
Isso é uma questão que ainda não se percebeu bem o que é que quer dizer pasta do futebol. Parece que o Hugo Viana tenha a direção desportiva e, portanto, tem o contacto com o mercado e com os agentes, parece ser essa a função. Se em equipa, depois de nós nos sentarmos todos e verificarmos que as pessoas estão satisfeitas ,as coisas estão a correr bem, e dentro daquilo que nós dissemos, que é aquilo que estiver bem é para continuar, pois o Hugo Viana ou outro membro qualquer da equipa será para continuar. Se as coisas não estiverem tão bem nesse diagnóstico, mudaremos aquilo que for. Obviamente que a primazia será sempre dada às pessoas que estão na estrutura, porque fazer política de terra queimada é uma coisa completamente errada. Foi uma coisa que este presidente fez diversas vezes. Nós não iremos cometer o mesmo erro.
Quem é o homem Nuno Sousa, para além de ser o candidato a presidente do Sporting?
Nasceu no Porto. Estive no Porto até aos meus 23 anos, quando acabei a universidade. Tirei o curso de Gestão na Católica no Porto. Uma vida muito normal, uma infância normal, feliz, sem eventos traumáticos. Tenho muito boas recordações da minha adolescência e da minha infância. Depois, vim para Lisboa e comecei a fazer o meu caminho. Trabalhei em grandes empresas, trabalho numa grande empresa. Sou feliz, tenho uma família. Estou casado desde 2007, tenho um filho também. Algumas pessoas até poderão dizer que tenho uma vida um bocado chata, pronto. Nada de muito relevante ou muito diferente do que é a vida normal do cidadão comum português, que acorda todas as manhãs para levar o filho à escola e vai busca-lo ao final da tarde. Pronto, já disse várias vezes feliz, mas sim, eu posso considerar que tive sempre uma vida feliz.
Tendo nascido no Porto e tendo apanhado a hegemonia e o crescimento do Porto e toda a presidência de Pinto da Costa, não era mais fácil ser adepto do Porto?
Era muito mais fácil, mas seria impossível porque a minha família, o meu pai e a minha mãe, também eram sportinguistas. O meu pai era profundamente sportinguista. A família mais próxima, que acompanhou o meu crescimento, também. Portanto, era quase impossível eu sair para o outro lado, até porque o Sporting atingia em todas as modalidades naquela altura, tinha muito para contar e, portanto, eu tinha muito o Sporting e o que nós dizemos às vezes é qualquer coisa do género como “mesmo quando o futebol não ganha, o Sporting ganha sempre, porque há o futsal ou tem o andebol ou ao atletismo ou o que for. Por isso, nunca nos sentimos um clube sem vitórias e, portanto, mesmo quando o Porto começou a ganhar mais vezesm no futebol, eu também tinha outras modalidades para a troca. Portanto, para os meus amigos, nunca deixavam de ter o troco e a resposta.

Mas em termos de mediatismo, o futebol continua a ter uma grande vantagem relativamente às outras modalidades…
É verdade. Aliás, o professor Moniz Pereira dizia que nós vivíamos debaixo da ditadura do futebol e é um bocadinho assim, é quebrada quando há por exemplo os Jogos Olímpicos. E de facto é um ambiente e um é um espetáculo desportivo fantástico e aí nós apercebemo-nos de como há tanta qualidade e tanto talento. Infelizmente, é só de quatro em quatro anos, que muitas pessoas recordam isso, mas eu pelo menos no meu caso, e no Sporting com o Pavilhão João Rocha, é assim nós temos ali uma vida muito, muito, muito próxima daquilo que são as equipas do Sporting os atletas do Sporting e os principais feitos do Sporting, essa que é a verdade.
Eu não posso terminar a pergunta sem uma provocação. Durante muitos anos, o Sporting foi conhecido como clube dos adeptos croquete. Aquilo que eu lhe pergunto é se ganhar as eleições vai apostar também nos adeptos de roulotte e de fast food?
Eu acho que o Sporting é feito da sua heterogeneidade, é Interclassista. Há pessoas que acham que o Sporting é das elites, mas em três milhões e meio de adeptos não pode só haver elites. Porque então a população portuguesa não seriam só dez milhões ou então seríamos um país muito mais rico, portanto não somos isso. Somos um clube de base popular, obviamente que teve a sua origem na aristocracia lisboeta, mas isso foi em 1906. A aristocracia acabou em 1910 com a República e, portanto, o Sporting passado estes estes 115 anos de vida, é amplamente popular, de base popular e obviamente como tal apanha todas as classes, todas as pessoas, todos os géneros, todos os interesses da esquerda à direita, porque é um grande e, no fundo, o Sporting é um espelho daquilo que é o país. Portanto pôr rótulos mais de um lado ou do outro parecem-me claramente abusivos. O Sporting no fundo é um reflexo daquilo que é a sociedade portuguesa, e assim é que deve ser.
Cristiano Ronaldo continua a ser um sonho muito presente nos adeptos do Sporting que sonham vê lo acabar a carreira cá…
Eu até acredito que outros clubes também gostassem dele lá e não só os do Sporting.
Se for eleito, tentará que Cristiano Ronaldo, que fez agora 37 anos, termine a carreira no Sporting?
Cristiano Ronaldo obviamente terá sempre as portas do Sporting abertas e creio que isso acontecerá, independentemente do presidente que estiver. Sendo eleito a partir de 5 de março, o que farei é chegar à família do Ronaldo, que será sempre bem-vinda. Mas não é só de Ronaldo, é de outros jogadores que tenham jogado no Sporting, serão sempre bem-vindos porque o Sporting é feito de história e a história é feita pelos atletas, pelos adeptos e é toda essa construção que podemos garantir que iremos respeitar.
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