Nuno da Camara Pereira canta Tony de Matos: “Foi muito maturado e desde sempre pensado…”

Nuno da Camara Pereira canta Tony de Matos: "Foi muito maturado e desde sempre pensado..."

Nuno da Camara Pereira canta Tony de Matos: “Foi muito maturado e desde sempre pensado…”, disse o cantor em entrevista ao Infocul.pt.

Nuno da Camara Pereira lançou o seu mais recente disco, no qual presta homenagem a Tony de Matos.

Texto e Entrevista: Rui Lavrador
Fotografias: D.R.


Desde 1977, Nuno da Camara Pereira é nome maior da música portuguesa. 1977 representa o início da sua carreira e desde então que foi o grande impulsionador e o primeiro renovador do Fado após o 25 de Abril, conseguindo fazer aflorar ao fado, os novos valores que hoje são expoente neste género musical.

Agora, aos 70 anos de idade e 44 de carreira, presta homenagem a Tony de Matos, com quem se cruzou e conviveu várias vezes.

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Neste disco conta com Fernando Silva na guitarra portuguesa, Carlos Garcia na viola clássica e Fernando Calado no Baixo. O disco conta ainda com arranjos de Nuno da Camara Pereira, Fernando Silva e Carlos Garcia.

Nuno da Camara Pereira concedeu uma entrevista ao Infocul, na qual abordou o mais recente trabalho e também um pouco do seu percurso.

Nuno, antes de mais congratulá-lo pelo novo disco. Ao fim de tantos anos de carreira, sentiu que esta era a melhor altura para fazer um disco com as canções de um artista tão icónico como Tony de Matos?

Cantar, evocar um outro artista é sempre uma enorme responsabilidade. Sei que hoje, se fazem as coisas de certa forma volúvel; Sem conhecimento, sem maturação sem originalidade e até muitas vezes com razões de afirmação e ou comparação. Não é o meu caso. Conheci-o ,lidei e actuei com ele e até ficámos amigos. Foram muitas as vezes e sempre em mutua admiração. Agora com mais de 40 anos de carreira e com 40 álbuns editados, é a hora diria Fernando Pessoa. A experiencia, a trajectória e o respeito maior assim mo permitem e reclamam.

Esta era uma ideia que surgiu recentemente ou foi maturando ao longo do tempo?

Foi muito maturado e desde sempre pensado…sempre o admirei e o tive por farol. Um dia haveria de ter a coragem e a certeza de poder evoca-lo sem medo de comparação ou oportunismo. Cantar um ícone tem duas únicas formas de o fazer e, a única admissível, para mim, é sem perder a sua essência, assumir a nossa personalidade e individualidade com o respeito maior a quem se homenageia. Ter a certeza que a personalidade ficaria honrada e orgulhosa nesse contacto apenas metafísico. 

Cresci a ver o Nuno como nome mais mediático do fado contemporâneo (embora eu deteste essa descrição, mas será a melhor para enquadrar temporalmente). O que mudou e porque se deixou de ver tanto o Nuno a actuar?

Por vezes sentimos vontade de nos dedicarmos a outras paragens, quanto mais formos irrequietos e sentirmos outras missões. Assim foi, que fui Presidente de um Partido (PPM), Deputado na Assembleia da Republica e escrevi um livro histórico e didático (O Usurpador) que se debruça sobre a questão dinástica portuguesa, questionando a própria República. Fui igualmente mentor e obreiro principal da “Lei da Rádio e da musica portuguesa”, que tanto tormento então me causou pela oposição causada pelas direções das rádios e, possibilitou o sucesso da mesma passando de 4 para mais de 40% a sua audição e divulgação. Tive quatro candidaturas individuais a 3 autarquias. Enfim…a música foi sendo deixada um pouco para trás mas nunca abandonada ou deixando de actuar e editar contudo.

Neste disco dedicado ao Tony de Matos, como é feita a escolha de repertório? Algum tema que lamenta não poder estar neste disco?

Escolhi os dez melhores temas de acordo com o meu gosto e os sucessos maiores de Tony de Matos. Julgo ser a seleção ideal sem nada ficar para trás.

Visto durante anos e anos (e ainda hoje) como galã, pelo público feminino, pergunto-lhe se o homem romântico sempre existiu ou se foi sendo construído?

Sempre existiu e foram já diversos os C.D. editados nesta conformidade nomeadamente: “Só à noitinha” (disco de prata) com a Orquestra Sinfónica da Lituânia cantando exclusivamente Frederico Valério e “A ultima Noite” cantando boleros em espanhol orquestrados por músicos latino-americanos.

Indo ao disco, começo por lhe perguntar se ainda hoje envia cartas a alguém e se a vida vive-se melhor lado a lado com alguém ou por vezes é melhor fazer o caminho sozinho?

Hoje enviam-se muitas mensagens e poucas cartas de amor, mas obviamente o poeta e eu sou autor, está sempre a inventar, a enfatizar e, até a encarnar situações que à partida  lhe podem ser estranhas mas que acabam por fazer parte da sua utopia. Todo o caminho deve ser partilhado e sem essa cumplicidade o homem não se realiza totalmente. Mas o trabalho de criação é sempre um acto solitário e de confronto.

O destino marca a hora’ integra também este disco. O Nuno é um homem que acredita no destino?

Sou crente e acreditando em Deus, acredito na missão de cada qual no seu destino, na sua graça (sorte) e até na sua própria vontade em mudar o seu próprio ego existencial. O homem nunca se conforma ,graças a Deus, está sempre em mutação, a criar e a recriar-se.

Tenho muita curiosidade em saber como foi o seu processo criativo. Uma coisa é quando se gravam originais. Outra é cantar temas que foram celebrizados e eternizados por um outro artista. Partiu da linha interpretativa de Tony de Matos ou conhecendo já os temas, desenhou o seu próprio caminho para interpretá-los?

Parti da linha interpretativa de Tony de Matos sem o confrontar, sem me intimidar e apenas acreditando na minha personalidade. O caminho esse, traçou-se naturalmente.

Uma outra qualidade a destacar neste disco é todo o design gráfico da capa e do livrete que o acompanha. Participa nesta criação ou tem o cuidado de tudo o que seja publicado com o seu nome tenha um toque (para não escrever vários) de classe e bom gosto?

Confiei este trabalho a um gráfico de enorme gosto, Paulo Passos,  que já havia experimentado com o ultimo álbum editado há três anos “Belmonte Em cantos mil”. Para isso, limitei –me a inspirá-lo com fotos que tirei para este álbum ,com uma rosa na mão que aqui simboliza as cartas de amor. A rosa é a rainha das flores e com seus espinhos sempre revelou a batalha entre o amor e o desespero… 

Qual a maior marca que Tony de Matos deixou na música portuguesa?

A genuína musica romântica e a sua única forma de cantar ao nível dos maiores cantores de sempre como Frank Sinatra ou Tonny Bennet. Foi e será sempre único, tornando sólida e poética a enfática forma de dedicar ao coração os diversos estados de Alma.  A canção que pela voz nos transporta para lugares transcendentes traz-nos momentos de felicidade e alegria. O amor seja ele qual for sempre será a grande razão de bem viver e de bem-estar.

Em termos de espectáculo, o que me pode já revelar?

A simplicidade para já. Cantar praticamente “despido” e assumir sem artifícios maiores, a emoção e a entrega a cada poema ou imagem que o poeta ditou e o intérprete moldará; para deleite do espectador que entregue a si mesmo, terá de viver por si só, em uníssono, toda o extase que o espectáculo de luz e cor tornará intimo e personalizado a cada qual.  

Para quando novamente uma grande digressão, daquelas à antiga?

Agora mesmo se delineia essa digressão; para isso mesmo toda a promoção que ora se projecta e se divulga através da edição deste C.D. Claro que tal só poderá acontecer como reflexo do êxito almejado com esta edição. Uma digressão tem sentido se desejada e apoiada pelo publico e promotores. A ver vamos….

Por fim, fazendo uma retrospectiva, qual o balanço que faz do seu percurso e o que mudaria?

É sempre difícil fazer a nossa autoanálise. Com uma carreira contínua iniciada desde 1977 e com tanta edição, espectáculo, digressão, crítica, viagem e tormenta. Com tanto sucesso e inconformismo, com tanto desassossego e tanto dissabor, difícil seria não encontrar erros e inflexões. Não há sucesso com certezas e definições assumidas. Quem alcançasse tal segredo jamais seria artista porque a sua primeira premissa é precisamente a sua própria fluidez e fragilidade. Sendo o mesmo nada mudaria ,sendo outrem tudo mudaria.

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