
Estremoz: Muita expectativa, muita desilusão e uma corrida que não terá memória, este sábado.
A Praça de Touros de Estremoz recebeu, este sábado, uma corrida de touros que tinha como aliciante maior o curro de touros da ganadaria Herdade de Pégoras.
Texto: Rui Lavrador
Fotografia: Roberto Pingas Rodrigues
A parte artística contou com os cavaleiros Luís Rouxinol, Marcos Bastinhas, António Prates e Francisco Maldonado Cortes (que lidou um novilho), bem como os Forcados Amadores de Évora e Monforte.
Se há algo que se deve destacar na empresa Toiros & Tauromaquia é a aposta no touro como elemento primordial dos seus cartéis. A parte dos artistas, umas vezes resulta melhor do que outras. Mas no que concerne ao elemento principal, o touro, a empresa raramente falha nas suas apostas, pelo menos em termos de ganadarias.
Porém, esta tarde, os touros não foram de todo bons. Dos seis touros e 1 novilho, destacam-se apenas pela positiva os lidados em 3º e 7º lugar, por António Prates, e o lidado em 4º por Rouxinol. Os restantes falharam ao nível do comportamento. Em termos de apresentação, nada a apontar, estando de acordo, e em alguns casos, acima do exigível nesta praça.
Tarde solarenga, cartel com motivos de interesse e, portanto, as expectativas eram positivas.
A tarde arrancou com duas homenagens. Uma a José Maldonado Cortes e outra a Luís Rouxinol, pela celebração dos 60 e 35 anos de alternativa, respectivamente. Uma homenagem da autarquia, da Tertúlia Tauromáquica de Estremoz e da Toiros & Tauromaquia.
Luís Rouxinol abriu praça frente a um touro que entrou distraído e que durante a lide empregou-se pouco. Emoção pouca ou nenhuma se viu, tendo o cavaleiro de colocar a emoção que o oponente não teve. Nos ferros compridos, dois foram de má nota, um descaído e outro tecnicamente mal. Valeu um terceiro, mais certeiro, mas sem brilhantismo. Na ferragem curta, Rouxinol esforçou-se, mas também sem romper. Terminou com um ferro em sorte violino e ainda um palmito, cravado à segunda tentativa, após na primeira ter batido noutras bandarilhas e saltado.
Luís Januário, pelos Amadores de Évora, concretizou a pega ao primeiro intento, com o touro a romper pelo grupo e este a ter dificuldade em fechar.
Marcos Bastinhas enfrentou um touro castanho de capa, bem rematado de carnes, porém que pouca emoção trouxe também a esta lide. Nos compridos, Marcos não deslumbrou e o segundo teve mesmo toque na montada, desencaixando o estribo. Nos curtos, a actuação melhorou, com dois curtos de nota boa que merecem ser destacados. Em suma, actuação esforçada, mas sem romper rumo ao triunfo.
Nuno Toureiro, pelos Amadores de Monforte, concretizou ao terceiro intento. O grupo esteve mal a ajudar nas duas primeiras tentativas. Na terceira, o grupo carregou mais em cima do forcado da cara e acabou por concretizar-se a pega.
Não se entende como foi autorizada volta ao forcado, pelo director de corrida. O público insistiu pela volta e o forcado acabou por a dar, ao lado do cavaleiro. Incompreensível falta de exigência.
António Prates elevou o nível das actuações. O jovem cavaleiro esteve muito suave na forma como executou a sua lide. Bem nos compridos, elevou a fasquia na ferragem curta. Primeiro com sortes desenhadas de frente, mas com batida ao píton contrário e posteriormente mudando as sortes, citando de frente, abrindo quarteio e cravando de forma correcta. Pela negativa, destacam-se dois ferros cravados de largo e a cilhas passadas. Destacar ainda a forma como mexeu nos terrenos do touro.
Ricardo Sousa, pelos Amadores de Évora, concretizou a pega ao segundo intento.
Francisco Maldonado Cortes lidou um novilho da ganadaria Herdade de Pégoras. De Francisco, já lhe vimos e escrevemos muito melhor. Porém, esta tarde, na sua terra natal, a actuação foi demasiado intermitente em termos qualitativos. Alternou bons ferros, com passagens em falso e outros com reuniões pouco ajustadas. É jovem, tem valor e irá crescer. Mas a exigência faz parte desta área e é assim que as duas actuações devem ser avaliadas. Os aplausos do público servem-lhe de conforto, mas não avaliam uma actuação.
João Cristóvão, pelos Amadores de Évora, concretizou a pega ao segundo intento. Uma pega que contou com forcados dos dois grupos actuantes.
O director de corrida voltou a estar mal, desta vez autorizando volta ao ganadeiro. Incompreensível. Ilógico. Injusto. Falta de exigência ao máximo, em que o “amor à festa” não pode, nem deve sobrepor-se.
Seguiu-se um intervalo para alisamento da arena.
Luís Rouxinol teve uma segunda lide mais ao nível do seu real valor. Dois compridos cravados de forma positiva. Nos curtos, sim, vimos Rouxinol com o nível que apreciamos e gostamos. Lidador, metódico, raçudo e com as sortes a serem muito bem desenhadas, de frente e dando vantagem ao touro. O segundo curto é de muito valor e o terceiro foi rematado com emoção, com o touro a perseguir a montada. Uma lide de nota muito positiva e rematada com um bom par de bandarilhas. Assim, que venham mais 35 anos de alternativa.
Dinis Pacheco, pelos Amadores de Monforte, concretizou a pega ao segundo intento. Muito mérito para o forcado da cara, aguentando-se bem na cara do touro, até o grupo fechar-se.
Marcos Bastinhas teve uma segunda actuação esforçada e até dada altura prazerosa e bonita. Porém, o touro tinha as suas complicações e o que fazia crer uma lide triunfal, terminou numa lide positiva apenas. Marcos esteve bem a receber o touro e bem nos compridos. O primeiro curto resultou numa reunião larga, embora corrigisse nos dois ferros seguintes. O touro a partir deste momento veio a menos, faltando ao momento da reunião e isso retirou brilho à actuação do cavaleiro, que continuou a porfiar para alcançar o êxito. Destaque apenas para um bom par de bandarilhas, o primeiro de dois. Saiu da arena com ar de dor, provavelmente no segundo par de bandarilhas. Actuação positiva, sem romper.
António Prazeres, pelos Amadores de Évora, concretizou a pega ao primeiro intento.
António Prates teve um início de actuação de muito mérito. Quer nos compridos, quer nos primeiros 3 curtos, a actuação estava francamente boa. Lidador, sortes bem desenhadas, a aproveitar as qualidades do touro. Depois no quarto curto, insistiu em sorte de frente com batida ao píton contrário, deixando o touro arrancar primeiro. 4 passagens em falso. Continuou a insistir e lá cravou o ferro. Teve ainda mais um bom ferro, mas não se pode perdoar tanta passagem em falso. Lide muito positiva, mas sem triunfo, por exclusiva responsabilidade sua. No bom, e muito que fez, e no mau, que poderia ter evitado.
Gonçalo, pelos Amadores de Monforte, concretizou a pega ao segundo intento.
Corrida dirigida por Marco Gomes, assessorado por Tenório Guerra. Ricardo Fernandes foi o cornetim de serviço.
Nota positiva para a moldura humana que preencheu 2 terços fortes da praça. E nota ainda mais positiva para a ‘lavagem’ feita na praça. Ao contrário de anos recentes, o tauródromo estava todo arranjado e limpo.
Nota negativa para a falta de exigência que existe na maioria das praças de touros portuguesas. A mesma falta de exigência que levou a tauromaquia para baixos níveis qualitativos nos espectáculos.
