Restaurante Monte da Mina com Jorge Almeida: do ensino à restauração, um percurso de regresso e investimento em Monção em entrevista ao Infocul.pt by ARDglobal.
Texto e entrevista: Rui Lavrador
Fotografias: João de Sousa
Há percursos que parecem desenhados desde o início. O de Jorge Almeida não é um deles.
Durante mais de uma década, o empresário esteve do outro lado da vida que hoje conhece. Licenciou-se em Informática de Gestão, no Porto, regressou a Monção e acabou por seguir o ensino. Foi professor de informática durante 13 anos.
A restauração não vinha de família. Não existia uma tradição para continuar ou um negócio herdado que precisasse de uma nova geração. Existia, isso sim, uma churrasqueira antiga, da qual era cliente, e um homem cansado da profissão que tinha escolhido.
Foi assim que tudo mudou.
“Acontece que me chateei com o ensino. Nessa altura havia a Churrasqueira Chiote, a mais pequena, uma churrasqueira já com cerca de 50 anos, da qual eu era cliente. Estava para trespasse e decidi comprá-la. Mudei radicalmente de profissão.”
Catorze anos depois, Jorge Almeida continua na restauração. À Churrasqueira Chiote juntou-se, mais tarde, o Restaurante Monte da Mina, um espaço com uma identidade muito diferente.

Duas casas, mais de 22 trabalhadores, centenas de referências de vinho e uma certeza que atravessa toda a conversa: um restaurante nunca pode ser apenas aquilo que chega no prato.
De professor a empresário sem qualquer tradição familiar na restauração
A mudança aconteceu sem uma rede familiar ligada ao setor e sem qualquer plano antigo de abrir um restaurante.
Jorge Almeida não esconde isso.
“Não tinha ninguém na minha família ligado à restauração. Portanto, não era propriamente um objetivo de vida. Mas estava chateado com aquilo que fazia e acho que as pessoas devem fazer aquilo de que gostam.”
A primeira aposta foi na casa mais pequena.
A Churrasqueira Chiote mantém um conceito muito próprio e sem grandes distrações. O foco está no frango e na costela. Os acompanhamentos são simples e a identidade foi sendo preservada.
“É uma churrasqueira muito sui generis. Faz apenas frango e costela. Não temos arroz, as batatas fritas são de pacote e há apenas uma salada para acompanhar.”
Há, naturalmente, um segredo no tempero.
Tentámos chegar lá. Não chegámos.
Quando questionado sobre o tempero do frango, Jorge Almeida admitiu apenas que existe algo próprio. Sobre explicar exatamente o quê, a resposta foi imediata e a rir-se: “Não.”
Seguiu-se um sorriso e uma frase que revela bem o ambiente da conversa.
“É sempre aquela questão do molho, do segredo, daquilo que é. Toda a gente esconde e, depois, vamos a ver e é tudo parecido.”
O segredo, portanto, continua onde estava.

Um segundo espaço, mas sem perder o lado descontraído
Cerca de uma década depois do primeiro passo, surgiu a possibilidade de criar algo diferente.
O novo projeto nasceu há quatro anos e meio e partiu de um convite para abrir um restaurante com outro posicionamento.
“Surgiu a oportunidade de expandir e criar, em paralelo com a churrasqueira, um novo conceito.”
O Monte da Mina nasceu com outra apresentação, outra estrutura e uma carta mais ampla. Ainda assim, Jorge Almeida rejeita a ideia de transformar o espaço num restaurante demasiado formal.

O objetivo passa por criar elegância sem afastar ninguém.
“Aquilo que pretendo é que este seja um restaurante elegante, mas descontraído.”
Essa ideia repete-se quando fala sobre quem quer receber.
Não existe, no discurso de Jorge Almeida, um cliente-tipo.
“Tanto pode vir comer um casal, como uma família ou um grupo de amigos. Quero, acima de tudo, que as pessoas se sintam bem.”

Para o empresário, há restaurantes onde o excesso de formalidade interfere com a própria experiência.
“Não é um restaurante excessivamente formal. Há restaurantes onde, por vezes, as pessoas nem se sentem confortáveis a comer devido a todo o formalismo.”
No Monte da Mina, a intenção é outra.
“É mais informal, mas acho que tem requinte, apresentação e alguma elegância. Quero que seja um restaurante onde as pessoas possam estar despreocupadas.”

O atendimento não começa quando chega o prato
Há uma preocupação que se percebe rapidamente na conversa com Jorge Almeida: a restauração é, antes de tudo, um negócio de pessoas.
Entre os dois espaços trabalham mais de 22 profissionais.
O empresário assume que a comida é fundamental, naturalmente, mas recusa reduzir a experiência a isso.
“É isso que nos diferencia das máquinas. E é também aquilo que nos diferencia das grandes indústrias da comida.”

O cliente quer comer bem, mas procura também uma relação diferente com quem o recebe.
“Quando um cliente vem hoje a um restaurante, claro que quer comer. Quer almoçar ou jantar e ter uma boa refeição. Mas também quer ser atendido de uma forma diferente.”
A alternativa é uma experiência quase automática, e isso não é aquilo que pretende oferecer.
“Não é apenas ir a uma máquina, fazer o pedido, pegar num tabuleiro e ir embora.”
Talvez esta seja uma das ideias mais presentes em toda a conversa.

Jorge Almeida volta várias vezes ao atendimento, ao cuidado e à importância de ter pessoas que gostam verdadeiramente da profissão.
Não por acaso, é também nesse ponto que surgem as maiores preocupações sobre o futuro da restauração.
Mais de 450 vinhos e uma casa no território do Alvarinho
Monção não permite ignorar o vinho. O território está profundamente ligado ao Alvarinho e o Monte da Mina acompanha essa identidade com uma carta extensa. Muito extensa.

“Na carta, contando todos os vinhos, temos mais de 450 referências.”
A gestão, reconhece Jorge Almeida, dá trabalho.
No caso dos Alvarinhos, a escolha tem um critério geográfico.
“Trabalhamos apenas Alvarinhos da nossa sub-região, Monção e Melgaço.”
Não estão todos, até porque seria difícil fazê-lo, mas a presença é significativa.
“Não consigo ter todos, naturalmente, mas temos mais de 30 referências.”
Também aqui, a ideia passa por chegar a públicos diferentes.

A carta atravessa vários patamares de preço.
“Temos vinhos desde os 10 euros até aos 1.500 euros.”
A diferença é suficientemente grande para explicar a amplitude da proposta.

Quem sai de Monção acaba por regressar
Jorge Almeida nasceu em Monção, saiu para estudar e regressou.
Quando lhe chamamos “miúdo da terra”, a resposta surge imediatamente.
“Obrigado pelo ‘miúdo’. Foi simpático agora”, disse a rir-se.
A brincadeira dá lugar a uma conversa mais séria sobre uma geração que saiu para estudar, conheceu outros lugares e, em muitos casos, decidiu voltar.

Segundo Jorge Almeida, não se trata de um caso isolado.
“Acho que isso é muito intrínseco dos monçanenses.”
Muitos partiram para estudar e acabaram depois por criar negócios na própria terra.
Alguns seguiram a área em que se formaram. Outros, como aconteceu consigo, escolheram caminhos completamente diferentes.
“Outros fizeram como eu. Do nada, compraram uma churrasqueira e avançaram.”

A explicação talvez seja mais emocional do que económica.
“Nós gostamos de estar na nossa terra.”
E acrescenta: “Não sou caso único. Felizmente, há muitos outros monçanenses a fazer isso.”
No final, encontra uma forma simples de explicar o movimento.
“Acho que é qualquer coisa que está no sangue. Ir e voltar.”
Foi também isso que fez. Saiu, estudou, regressou e ficou.
Novos projetos? A falta de mão de obra trava a vontade
O investimento no restaurante já foi recuperado.
Quando lhe perguntamos diretamente, Jorge Almeida responde com humor: “Já. Mal era.”
O Chiote Monte da Mina aproxima-se dos cinco anos e seria natural perguntar o que se segue.

A resposta, no entanto, está longe de ser um anúncio.
“Sinceramente, não sei.”
Projetos existem. O problema é outro.
Jorge Almeida está preocupado com a falta de profissionais no setor e acredita que aquilo que já se sente em Lisboa acabará por chegar ao resto do país.
Durante a conversa, falamos da dificuldade crescente em encontrar determinadas propostas de comida tradicional portuguesa na capital.
Jorge não se mostra surpreendido.
“Aquilo que está a acontecer agora em Lisboa vai acabar por ser replicado pelo país todo dentro de alguns anos.”
Para o empresário, existem vários problemas a acontecer ao mesmo tempo.
“Estamos perante um problema demográfico que não é apenas português. Acho que é europeu.”
Mas, na restauração, há uma dificuldade muito concreta.
“Temos também um problema muito sério de mão de obra.”

“Projetos tenho. Mas é melhor estar quieto”
Jorge Almeida rejeita também algumas ideias feitas sobre o setor.
Na sua perspetiva, a questão salarial não explica sozinha a dificuldade em encontrar profissionais.
“Quando as pessoas pensam que os trabalhadores da restauração são mal pagos, em 90% dos casos não são.”
Isso não significa ignorar as dificuldades da profissão.
“É óbvio que têm horários chatos. Trabalham ao fim de semana e, muitas vezes, existem horários repartidos. Isso é verdade. É uma profissão exigente.”
O problema estende-se a vários setores ligados ao turismo e aos serviços.
“A restauração, a hotelaria, o comércio e o turismo estão a sofrer com a falta de mão de obra.”
É por isso que, quando voltamos à pergunta sobre novos negócios, a resposta ganha outro peso.
“Mediante aquilo que vejo atualmente, se calhar é melhor deixarem-me estar quieto.”
Há ideias, mas falta a segurança de conseguir montar equipas à altura do projeto.
“Projetos tenho. Mas é melhor estar quieto porque, realmente, não existe mão de obra suficiente para depois conseguirmos conciliar tudo.”
Mais do que contratar alguém para preencher uma vaga, Jorge Almeida quer encontrar pessoas que vejam a restauração como profissão.
“Quero pessoas qualificadas e que gostem daquilo que fazem.”
Para o empresário, só assim se consegue manter o nível de atendimento que procura nos seus espaços.
“Só assim conseguem atender bem os clientes. Só assim o cliente se sente verdadeiramente satisfeito.”

Quando o atendimento salva uma refeição menos conseguida
Já perto do fim da conversa, Jorge Almeida troca momentaneamente o lugar de empresário pelo de cliente.
A reflexão ajuda a perceber quase tudo o que disse anteriormente.
Para ele, uma falha ocasional na cozinha pode acontecer.
“Eu até consigo compreender quando, pontualmente, a comida não está tão boa.”
Não há cozinhas perfeitas todos os dias.
“Aconteceu. Pode acontecer. Não somos máquinas.”
A diferença pode estar na forma como alguém é recebido e tratado.
“Quando o atendimento é bom e nos sentimos confortáveis, eu consigo compreender melhor uma falha na comida do que comer muito bem e sentir que me estão a despachar.”
Talvez esteja aqui a filosofia de Jorge Almeida resumida numa frase.
Mudou de vida porque deixou de se sentir bem naquilo que fazia. Comprou uma churrasqueira sem ter qualquer tradição familiar na restauração. Depois abriu outro restaurante, aumentou a equipa e construiu um projeto com outra dimensão.
Mas continua a falar sobretudo de pessoas.
Das que regressam à terra. Aquelas que entram num restaurante. Das que trabalham nele.

E das que fazem falta a um setor que, como alerta, enfrenta uma dificuldade cada vez maior para encontrar profissionais que queiram ficar.
Em Monção, Jorge Almeida também fez esse movimento.
Saiu, regressou e encontrou na restauração um caminho que, durante muitos anos, nunca imaginou seguir.
Por fim, quanto à nossa experiência no espaço foi absolutamente extraordinária e desde a confeção da comida, ao atendimento e à envolvência do espaço, recomendamos mais do que uma visita, porque garantidamente fica a vontade de voltar.









