Reportagem: Pedro Abrunhosa & Os Camponeses de Pias iluminaram de arte o Coliseu de Lisboa, na noite de ontem.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Rute Nunes e Carlos Pedroso
O Coliseu dos Recreios recebeu, ontem, Pedro Abrunhosa & Os Camponeses de Pias, num espectáculo inserido na digressão que têm feito a nível nacional, depois de já o terem feito internacionalmente.
Talvez Pedro Abrunhosa tenha estado 29 anos para conseguir criar este espectáculo supremo, no qual junta as suas canções ao Cante Alentejano, Património Imaterial Cultural da Humanidade, pois em 1994, após editar o disco ‘Viagens’, esteve 3 meses no Alentejo para entender a origem e o mistério do Cante Alentejano.
Um artista que nesse disco contava com canções pop e eletrónicas, queria assim saber mais sobre a “a mais excelsa e suprema forma de arte popular em Portugal ligada à ancestralidade e à terra”, que é assim que define o Cante Alentejano.
As canções de Pedro Abrunhosa tornaram-se marcos da música portuguesa, bandas sonoras das almas inquietas, de amores vividos, de partidas e chegadas na vida terrena, de elo de ligação com aqueles que amamos e que nos deixaram ou partiram.
A intrínseca capacidade de escrever sobre histórias vividas, sabidas ou pensadas e transformá-las em canções de tantos homens e mulheres que na música encontram o conforto ou as respostas para os mistérios da vida, faz de Pedro Abrunhosa um património imaterial cultural nacional. Oficialmente não reconhecido, mas creio que todos o sentimos assim.
[Best_Wordpress_Gallery id=”5559″ gal_title=”Pedro Abrunhosa & Camponeses de Pias-21 Abril-2023″]Abrunhosa é mistério por detrás dos óculos escuros e verdade nas letras escritas e por si cantadas, replicadas em milhões de vozes que adoptam a arte dele como sua.
Pedro não revela o que dizem os seus olhos, mas partilha o que cria com o seu coração. Dá-nos euforia e paz, alegria e dor, amor e desamor, faz-nos chegar e partir, acreditar e duvidar.
Este espectáculo com os Camponeses de Pias, liderados por Paulo Ribeiro, aumenta tudo o que atrás se referiu.
O Cante despe-nos a alma e através daquelas vozes e cobre-nos com os aromas da terra que nos dá o alimento. São estórias deles, minhas, tuas, dos pais, dos avós, de quem já partiu, de quem ainda não nasceu. É a intemporalidade na vida e na arte.
Abrunhosa e os Camponeses de Pias conseguiram juntar o melhor de dois mundos e dar ao público algo que não é quantificável, por ser imaterial, duradouro, marcante, visceral.
Há uns tempos, Abrunhosa foi alvo de parangonas e criticado por um texto falso, escrito por alguém que não o devia ter feito. Podia ter desistido de um projecto que definitivamente marca a música portuguesa. Não o fez. Respondeu às críticas por escrito. Mas a sua melhor resposta é dada neste espectáculo.
A sua capacidade de ir ao passado do Cante e de trazer novos caminhos ao futuro do mesmo, não tem preço, não precisa de embaixador ou de escárnio e mal dizer no tribunal acéfalo das redes sociais.
Em palco, contou ainda com os Comité Caviar, as vozes de Patrícia Silveira e Patrícia Antunes. Foi através de tantas vozes e tantos instrumentos, da alma e da entrega, da arte e do amor, que Abrunhosa obrigou os incultos a colocar a viola e a maldade no saco e a calarem-se para sempre.
Talvez um dia, o Deus do A.M.O.R perdoe a malícia dos invejosos. Até lá, saibamos ignorá-los e ficar com a alma inquieta, alerta e o coração e os ouvidos no que ontem se ouviu no coliseu lisboeta.
Foi de blazer azul que ontem Abrunhosa subiu ao palco. Uma cor que representa tranquilidade, serenidade, harmonia e espiritualidade, frieza, monotonia e depressão. Simboliza a água, o céu e o infinito. Deu-nos tudo isto. E chegou!
Destaque ainda para Rodrigo Aleixo, dos Camponeses de Pias. Jovem de tenra idade, mas de voz adulta. Talvez não tenha noção do tanto que transmite. Que o saibamos conservar e acarinhar. Ontem recebeu das maiores ovações da noite. E que merecida foi!
Os Camponeses de Pias foram extraordinários. Benditos sejam pelo tanto que nos dão. As suas vozes são faróis de vida. Porto seguro de infinitas emoções.

Por fim, destaque para as homenagens aos pais de Pedro Abrunhosa, a Rui Nabeiro, a Lídia Jorge, a Gisberta (prostituta, toxicodependente, assassinada no Porto) e às mães ucranianas e russas que sofrem com os seus filhos mandados para a guerra que persiste em continuar.
Alinhamento:
A.M.O.R.
Que o Amor Te Salve Nesta Noite Escura
Balada de Gisberta
É sempre escurso antes de amanhecer
Deixas em mim tanto de ti
Momento
Ó Minha Mãe
Tenho saudades mais nada
Fazer o que ainda não foi feito
Leva-me p’ra casa
Se eu fosse um dia o teu olhar
É preciso ter calma
Acima & Abaixo
Amor em tempo de muros
Devias vir salvar-me
Hallelujah
Não posso mais
Socorro
Ilumina-me
Lavoura
Alentejo, Alentejo
Para os braços da minha mãe
Lua
Tudo o que eu te dou

