Maninho depois do Rock in Rio: “Estou a viver o sonho”, afirmou em entrevista ao Infocul.pt by ARDglobal, na tarde de ontem.
Texto e Entrevista: Rui Lavrador
Fotografias: João Sousa

Há artistas que chegam ao palco com a pressa de provar alguma coisa. Maninho parece estar noutro lugar: no da gratidão, da surpresa e de uma alegria ainda meio incrédula por ver o próprio nome crescer no meio de nomes maiores, palcos maiores e públicos cada vez mais seus.
Depois do concerto no Rock in Rio Lisboa, este sábado, o artista falou ao Infocul sobre a energia recebida no palco, o crescimento em nome próprio, a ligação a André Ferreira, a música feita em português e a vontade de não ficar preso a uma só gaveta.

O concerto no Music Valley juntou aquilo que Maninho tem vindo a construir nos últimos anos: Portugal, Brasil, canção popular, ritmo, emoção e uma proximidade que não se fabrica. Ou existe, ou não existe. E ali existiu.
Questionado sobre o que sentiu depois da atuação, o artista não procurou grandes floreados. Foi directo ao essencial: o público.
“Muito boa energia, a malta estava lá comigo e isso é o mais importante. Eu acho que para nós artistas o mais importante é o público sentir a nossa música, cantar connosco, participarem. Eu senti tudo isso hoje, só posso estar grato e feliz.”

O sonho que já ultrapassou o rapaz que o imaginou
Maninho está a viver uma fase de afirmação evidente. O nome, que durante muito tempo apareceu associado a outros projectos e artistas, começa agora a ocupar o centro da conversa.
A pergunta impunha-se: o menino que sonhou isto já foi ultrapassado pela realidade?

A resposta veio sem pose, quase com espanto.
“Completamente. Nunca esperei isto sequer e hoje estar aqui no meio de tantos nomes, no meio de tantos nomes incríveis, é para mim surreal ainda. Estou a viver o sonho, mas estou a encarar isto da melhor maneira possível.”
Esse espanto diz muito sobre o momento que atravessa. Maninho não fala como quem se habituou à máquina. Fala como quem ainda olha para certas coisas com os olhos do primeiro dia.
Durante a conversa, foi recordado o percurso anterior, quando muitos o conheciam como músico de Mariza, Bárbara Bandeira, D.A.M.A. e outros nomes. Agora, o lugar é outro. Já não é apenas “o músico de”. É Maninho. De todos.
E ele sabe disso.
“É surreal, é. E ainda por cima as pessoas estão-me a receber tão bem, estão a receber tão bem a minha música e fazem da vida delas a banda sonora, com as minhas canções. Portanto, eu só posso estar mesmo muito grato e muito feliz por tudo o que está a acontecer.”
Há nesta frase uma das chaves do seu crescimento: a ideia de banda sonora. Maninho não quer apenas que as pessoas ouçam as canções. Quer que elas as levem para dentro da vida.

Grandes salas em Portugal? “2027? Talvez”
Com uma agenda cada vez mais preenchida e um público em crescimento, a possibilidade de Maninho chegar às grandes salas em Portugal começa a ganhar forma.
O artista não confirmou datas, mas também não fechou a porta. Pelo contrário, deixou a hipótese no ar.
“Não, mas já estamos a pensar nisso. Não sabemos quando é que vai ser, mas estamos a pensar. 2027? Talvez. Não vou dizer que sim nem que não, mas talvez.”
A prudência é clara, mas o caminho parece estar a ser desenhado. Depois do Rock in Rio Lisboa, essa possibilidade soa menos distante.
André, o “paizão” que acreditou desde o dia zero
No meio da conversa, surgiu um nome importante: André Ferreia, da Mundos Cruzados. Para Maninho, não é apenas alguém da equipa. É uma figura fundadora.
O artista chama-lhe “paizão”. E quando fala dele, o tom muda. Há uma gratidão menos pública, mais íntima, de quem sabe que há pessoas que seguram os sonhos antes de eles aprenderem a caminhar sozinhos.
“O André está comigo desde o dia zero. Eu liguei-lhe um dia à noite, só tinha ‘Pode Tentar’ e apresentei-lhe o projeto e ele só me disse assim: Eu não sei como é que isto vai ser, mas eu estou contigo. E está até hoje e está a fazer um trabalho incrível.”
Depois, rematou com uma frase que diz quase tudo: “É a melhor pessoa que a música me podia ter dado mesmo. O meu paizão.”
Num meio onde se fala tanto de números, visualizações, agendas e palcos, Maninho fez questão de falar de lealdade. E isso também explica o artista que se está a tornar.
“Há lugar para todos”
A música feita em português vive um tempo de diversidade. Há géneros diferentes, novas vozes, novos públicos e uma circulação cada vez maior entre sonoridades.
Maninho olha para esse movimento sem espírito de competição.
“É verdade, eu costumo dizer que há lugar para todos, portanto isto não é um mundo de concorrência, não é um mundo de luta, por nada.”
A visão prolonga-se numa defesa de liberdade e convivência artística.
“Mas há lugar para todos e tem-se vindo a fazer tão boa música ultimamente em Portugal e com estilos tão distintos, diferentes, e acho que é isso, e acho que o pessoal pode viver o sonho e não passar por cima de ninguém e não achar que está a ir contra alguém.”
A frase vale também como retrato do seu próprio lugar. Maninho não parece interessado em entrar numa corrida de cotovelos. Quer construir caminho, sem esmagar caminhos alheios.

O Maninho que não quer rótulos
A sonoridade do artista tem oscilado entre canções mais ritmadas, baladas, influências brasileiras, pop, pagode e uma escrita de forte apelo popular.
Mas, para Maninho, essa mistura não é uma indecisão. É identidade.
“Podemos esperar muitas coisas diferentes, porque eu não me quero rotular a um estilo, eu quero ser o Maninho que faz música para o povo, seja ela como for e de maneira de tocar às pessoas.”
A expressão “música para o povo” podia soar a frase fácil. Mas, nele, ganha outro peso. Porque Maninho tem procurado precisamente esse lugar: canções que não se fecham numa estética, nem numa elite, nem numa moda.
E até o fado pode entrar nesse caminho.
“Pode ser com fado, pode ser com fado, claro que sim. Eu amo fado, portanto…”
Depois do concerto no Rock in Rio Lisboa, fica a imagem de um artista em expansão, mas ainda agarrado à gratidão inicial. Maninho já não é apenas o músico que acompanhava outros nomes. É uma voz em nome próprio, com público, estrada, sonho e uma noção clara de que a música só ganha sentido quando encontra quem a leve para casa.
No palco, cantou. Depois, em conversa, confirmou o essencial: está a viver um sonho. Mas não parece deslumbrado. Parece, isso sim, consciente de que os sonhos também exigem chão.

