Nena no Rock in Rio: A verdade foi tão crua que o concerto tornou-se extraordinário

Nena no Rock in Rio: A verdade foi tão crua que o concerto tornou-se extraordinário, antes de anoitecer este sábado.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: João de Sousa

Nesse sentido, Nena levou ao Music Valley uma coisa rara: verdade sem pedir licença.

Não precisou de muralhas sonoras, nem de fingir grandeza. Não foi ao Rock in Rio para se mascarar de estrela maior do que as canções. Foi com o que tem de mais perigoso e bonito: uma escrita que parece simples até nos acertar no sítio certo.

E acertou.

O concerto foi extraordinário porque teve essa coragem quase antiga de deixar a canção respirar. Nena canta como quem sabe que as palavras, quando são honestas, não precisam de correr atrás do espectáculo. Ficam quietas. Esperam. Depois entram.

Começou por dentro, como só podia começar. “O Pior Inimigo (Sou eu)” abriu a ferida logo no primeiro gesto. Não houve rodeio. Não houve cortina. A artista entrou pelo conflito mais íntimo, esse lugar onde todos já estivemos e poucos sabem transformar em canção.

Depois, “É o que é” trouxe outra lucidez. Quase uma aceitação com os dentes cerrados. “Temos Pena!” apareceu com essa ironia que em Nena nunca é apenas graça. É defesa. É resposta. É a elegância possível quando a vida não pergunta se estamos preparados.

O alinhamento seguiu por “E se?” e “1%”, duas canções que não precisam de explicar tudo para dizer muito. Há artistas que cantam grandes frases. Nena canta pequenas possibilidades. E, às vezes, uma possibilidade pesa mais do que uma certeza.

A delicadeza também pode rebentar um palco

“O Amor Existe” foi uma espécie de clarão.

Não por ser uma proclamação ingénua. Nada em Nena soa ingénuo quando a escutamos com atenção. O amor, ali, não apareceu como frase de almanaque. Apareceu como insistência. Como quem sabe que o mundo é bruto, mas se recusa a entregar-lhe a última palavra.

“Passo a Passo” veio depois com essa sabedoria de quem conhece o valor do caminho lento. Nena não precipitou o concerto. Não o quis ganhar à força. Foi deixando as canções fazerem o seu trabalho, uma a uma, como quem pousa cartas numa mesa e espera que alguém as reconheça.

E reconheceu-se muita coisa.

“Do Meu ao Teu Correio” pertence a esse território onde a música parece escrita para uma pessoa, mas acaba por encontrar dezenas, centenas, talvez milhares. É a velha magia das boas canções: nascem privadas e tornam-se de todos.

No Music Valley, esse foi um dos grandes trunfos de Nena. Fazer do palco um lugar próximo. Tirar a distância ao festival. Obrigar a escala do Rock in Rio a caber dentro de uma frase cantada com verdade.

Carolina de Deus entrou e a memória ganhou corpo

Com “Lembras-te de Mim?”, Nena recebeu Carolina de Deus.

E o momento teve essa beleza de duas vozes que não se atropelam. Encontram-se. A canção já trazia uma pergunta inteira no título. Com Carolina, ganhou outra sombra, outra luz, outra forma de ficar suspensa.

“Lembras-te de Mim?” não é apenas uma pergunta a alguém. É quase uma pergunta ao tempo. Ao que fomos. Ao que deixámos de dizer. Ao que ainda nos atravessa quando julgávamos estar limpos de tudo.

Foi por isso que o dueto resultou. Porque não apareceu como enfeite. Apareceu como consequência natural de um concerto feito de memória, afecto e pequenas tempestades interiores.

Depois, “Portas do Sol” abriu Lisboa sem precisar de postal ilustrado. Nena trouxe a cidade pelo lado menos turístico e mais sensível: essa Lisboa que não se mostra, mas que se sente quando uma canção lhe apanha a luz certa.

E depois acabaram os croquetes, como acaba quase tudo

O concerto terminou com “Os Croquetes acabam”.

E aqui está uma das maiores inteligências de Nena: saber que a vida não é feita só de tragédia bem iluminada. Também é feita de absurdos, de humor, de coisas domésticas, de frases que parecem pequenas e depois dizem tudo.

Acabam os croquetes. Acabam as festas. Acabam os amores. Acabam as certezas. Acabam até certos silêncios que julgávamos eternos.

Mas uma boa canção não acaba da mesma maneira.

No Music Valley, Nena fez um concerto extraordinário porque não tentou domesticar aquilo que sente. Levou fragilidade, ironia, amor, memória e uma ternura sem maquilhagem. E, com isso, conseguiu uma coisa difícil: ser delicada sem ser frágil, ser doce sem ser decorativa, ser intensa sem precisar de berrar.

Há artistas que ocupam o palco.

Nena fez melhor: deixou o palco ocupado por aquilo que as canções provocam em nós.

E isso, no meio do Rock in Rio, foi enorme.

Destaques

NAPA trouxeram doçura e pertença ao Palco Super Bock do Rock in Rio Lisboa

NAPA trouxeram doçura e pertença ao Palco Super Bock...

Rock in Rio: Maninho fez do Music Valley uma roda quente de pagode, amor e canções com pele

Rock in Rio: Maninho fez do Music Valley uma...

Pedro Sampaio transforma Rock in Rio Lisboa numa pista de dança e leva Palco Mundo ao delírio

Pedro Sampaio transforma Rock in Rio Lisboa numa pista...
Publicidade
Alojamento Web

Reportagens

Artigos relacionados