David Carreira: “Ainda amo voltar lá: de cada vez que vou à Pampilhosa cantar é sempre uma sensação incrível”

David Carreira: “Ainda amo voltar lá: de cada vez que vou à Pampilhosa cantar é sempre uma sensação incrível”, assinalou.

David Carreira voltou à Pampilhosa da Serra para cantar o passado. O novo single, “Não Vás Embora”, não parte apenas de uma história de amor. Parte de um lugar, de uma idade, de uma família e de uma memória que o cantor decidiu reconstruir com recurso à inteligência artificial.

Aos 34 anos, o artista prepara o décimo álbum da carreira. Em entrevista à Vidas, explicou que este projeto terá uma lógica quase cinematográfica, com cada canção a funcionar como um episódio da sua própria história.

Um amor chamado Patrícia e um verão que ficou por fechar

No centro de “Não Vás Embora” está um amor de adolescência. Não uma personagem inventada para caber numa canção, mas uma memória concreta dos verões passados em Portugal.

David Carreira revelou que a jovem se chamava Patrícia e que nunca mais a viu.

“Esse meu primeiro amor de verão chamava-se Patrícia… nunca mais a vi!”, disse à revista Vidas.

A história ganha força precisamente por isso. Ficou suspensa naquele tempo em que David vinha de Paris para passar férias em Armadouro, na Pampilhosa da Serra, antes de regressar a França.

“Os meus amores de verão duravam um mês e meio, dois no máximo, porque eu sabia que depois tinha que regressar a França.”

Agora, anos depois, essa distância transforma-se em música. E também numa forma de olhar para a passagem do tempo.

“Este videoclipe está muito ligado a essa noção do tempo também – ou melhor, da passagem do tempo – e de termos a possibilidade de ver como as coisas eram e como estão agora.”

A inteligência artificial ao serviço da memória

O videoclipe de “Não Vás Embora” recria imagens da adolescência de David Carreira. A equipa chegou a pensar num ator para interpretar o cantor aos 16 anos, mas acabou por escolher outro caminho.

A inteligência artificial permitiu mostrar David como era antes de entrar nos “Morangos com Açúcar”.

“No início ainda ponderámos se iria ser um ator a fazer de mim com 16 anos, mas depois resolvemos recorrer a essa tecnologia.”

O resultado junta imagens atuais, filmadas na Pampilhosa e em Armadouro, com cenas do passado criadas por IA. Para David, esse risco fazia sentido no momento atual.

“Foi desafiante e inovador, mas resolvi ir por aqui porque a implementação da IA no trabalho é algo de que toda a gente fala hoje em dia.”

Além disso, havia uma intenção mais íntima por trás da escolha. O cantor quis que o disco fosse contado como uma série pessoal.

“Quis contar uma história minha em cada videoclipe deste disco, porque é o meu décimo álbum. Cada single funciona como se fosse um episódio de uma série.”

A homenagem a Tony Carreira e a “Sonhos de Menino”

Há outra camada emocional no novo single. David Carreira quis também homenagear o pai, Tony Carreira, e uma das canções mais marcantes da sua carreira.

“Sonhos de Menino” foi gravada em Armadouro quando Tony tinha praticamente a idade que David tem hoje. O filho também aparecia nesse videoclipe, ainda criança.

“Estou com 34 anos, praticamente a mesma idade que o meu pai tinha quando gravou a música mais icónica da sua carreira, ‘Sonhos de Menino’, lá no Armadouro.”

No novo vídeo, alguns planos foram feitos nos mesmos locais. David usou ainda roupa semelhante à que Tony vestiu há mais de duas décadas.

“Alguns dos planos foram feitos exatamente nos mesmos sítios de ‘Sonhos de Menino’, usei a mesma roupa que ele usou há vinte e tal anos.”

Por isso, “Não Vás Embora” não é apenas uma canção sobre uma paixão antiga. É também uma ponte entre pai e filho, entre dois tempos e duas formas de regressar à mesma terra.

“É contar também um bocadinho da história dele, daquela que foi talvez a maior música da carreira dele e acima de tudo homenageá-lo por tudo.”

França, Portugal e o choque feliz de voltar à aldeia

David Carreira cresceu entre duas realidades. Durante o ano vivia em França, falava maioritariamente francês e só reforçava o português nas férias.

A chegada à aldeia era, por isso, um choque. Mas um choque feliz.

“O contraste para mim era gigantesco.”

Na entrevista, o cantor recordou que essas férias eram essenciais para se ligar a Portugal, à língua, à música e às raízes da família.

“Eram as melhores férias que eu podia ter! Porque me reconectavam com Portugal, com as minhas origens, com a nossa gente também, com tudo.”

A diferença entre Paris e uma aldeia portuguesa com poucas dezenas de habitantes ficou-lhe marcada. Até os desenhos animados soavam de outra forma.

“Lembro-me da primeira vez que ouvi ‘O Rei Leão’ em português, porque eu só estava habituado a ouvir em francês.”

Mesmo hoje, voltar à Pampilhosa continua a ter outro peso.

“Ainda amo voltar lá: de cada vez que vou à Pampilhosa cantar é sempre uma sensação incrível.”

Um filho pequeno e raízes que ainda vão ser entendidas

David Carreira já levou o filho à Pampilhosa da Serra. No entanto, reconhece que ainda é cedo para a criança perceber toda a ligação familiar àquele lugar.

“Já foi. Gosta mas ainda não percebe bem.”

O cantor explicou que o filho está ainda a descobrir a identidade da família, incluindo o avô, Tony Carreira.

“Ainda é muito cedo, acho que ele ainda está numa fase de descobrir quem é o avô.”

Quanto ao futuro, David deixa tudo em aberto. Pode haver música, mas também representação, já que Carolina Carvalho entra agora como outra referência artística na vida do filho.

“Quiçá?! Ou talvez seja ator, como a mãe! Agora há uma outra referência, para variar!”

O décimo álbum como fecho de etapa

O novo disco ainda não tem data fechada, mas deverá sair no final do ano. Até lá, David Carreira vai lançar mais temas ligados a esta narrativa pessoal.

“Será lá mais para o final do ano, mas até lá, ainda vou lançar mais algumas músicas e mostrar mais um bocadinho desta história.”

O cantor olha para este décimo álbum como uma conclusão simbólica de 15 anos dedicados à música. Um percurso que começou depois da ficção, quando o casting para “Morangos com Açúcar” lhe mudou a vida.

“É como se fosse a conclusão de uma etapa, de uma fase da minha vida que foram os últimos 15 anos a fazer música.”

David assume que este disco nasce das suas influências familiares, da emigração, das viagens e da relação com os avós.

“Eu sou o resultado de tudo isto que vivi até chegar aqui, de todas estas influências e histórias.”

O carinho que aparece no trânsito

Na mesma entrevista, David Carreira falou ainda do afeto que a família recebe do público. Um carinho que, garante, se sente nos momentos mais difíceis e também nas situações mais simples.

“Não há um único dia que eu não esteja na rua e não sinta esse carinho.”

Às vezes, basta um semáforo.

“Basta estar no trânsito, parado num semáforo, e uma pessoa que não me conhece de lado nenhum diz-me de outro carro: ‘abraço, só quero que saibas que gosto muito de ti’.”

Com “Não Vás Embora”, David Carreira volta ao lugar onde aprendeu a sentir Portugal de outra forma. Entre um amor antigo, a memória do pai e a infância recriada pela tecnologia, o cantor transforma a saudade em matéria de canção.

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