Quim Barreiros fez da Caparica uma festa popular em tamanho grande, na tarde deste domingo, 16 de Agosto.
Fotografias: Rui Pereira

Há artistas que precisam de explicar ao público porque estão num festival. Quim Barreiros não é um deles.
O acordeão chegou, este domingo, ao Palco Via Verde d’O Sol da Caparica para abrir a programação do último dia do festival e, num cartaz onde cabem linguagens musicais separadas por décadas, tendências e públicos aparentemente distintos, o músico minhoto representou uma das formas mais antigas e eficazes de juntar pessoas: uma canção conhecida, humor suficiente para dispensar cerimónias e música feita para ser partilhada.

Quim Barreiros tinha concerto marcado para as 18h00, antes das atuações de ÁTOA, MC Paiva, Slow J e Lon3r Johny, numa jornada que talvez explique melhor do que qualquer manifesto aquilo que O Sol da Caparica pretende ser. Num espaço de poucas horas, o palco principal passa da concertina e da música popular portuguesa para a pop e as diferentes linguagens da música urbana.

E Quim cabe ali sem precisar de pedir autorização à modernidade.
O popular também fala a língua de um festival

Durante anos, houve uma estranha necessidade de colocar determinadas músicas dentro de gavetas. Umas seriam próprias para festivais, outras para festas populares. Umas teriam direito ao estatuto de cultura contemporânea, enquanto outras ficariam condenadas ao bailarico, como se fazer milhares de pessoas cantar fosse uma arte menor.
Quim Barreiros sobreviveu tranquilamente a essas classificações.

A sua carreira atravessou modas, gerações e mudanças profundas na indústria musical, mantendo uma característica que poucos conseguem fabricar: reconhecimento imediato. O chapéu, o bigode, o acordeão e a malícia das letras formam uma assinatura que dispensa apresentações demoradas.

No Sol da Caparica, essa presença ganha ainda outro significado. A 11.ª edição do festival assumiu precisamente um cartaz transversal, cruzando música popular, fado, pop, hip hop, funk, sertanejo e diferentes tendências da música urbana, numa programação construída em torno da música de expressão lusófona.
Por isso, talvez a pergunta não seja o que faz Quim Barreiros num festival onde também atua Slow J.

A pergunta mais interessante será perceber porque haveriam de não estar os dois.
Décadas depois, o segredo continua bastante simples
Não existe grande aparato conceptual no universo de Quim Barreiros. E provavelmente ainda bem.

Existe música popular assumida como tal, duplos sentidos que o público conhece antes de chegar o refrão, um acordeão que não precisa de efeitos especiais para se fazer reconhecer e uma capacidade rara de transformar a distância entre palco e plateia numa formalidade.
É precisamente aí que reside parte da longevidade do artista. Quim não tentou transformar-se naquilo que cada década achava moderno. Foi o moderno que, várias vezes, acabou por regressar à procura da simplicidade que ele nunca abandonou.

Num festival ocupado durante quatro dias por algumas das sonoridades que dominam atualmente as plataformas digitais, a presença do músico recorda também uma evidência: popularidade não nasceu com os streams, os virais ou os vídeos de quinze segundos.
Muito antes disso já havia refrões capazes de passar de geração em geração.

Do acordeão ao hip hop sem mudar de recinto
A escolha de Quim Barreiros para abrir o Palco Via Verde neste domingo acabou por oferecer ao último dia uma das suas maiores diferenças de linguagem.
Depois dele, a programação prossegue com ÁTOA às 19h30, MC Paiva às 21h00, Slow J às 22h30 e Lon3r Johny já depois da meia-noite.

É uma viagem musical com poucas preocupações em respeitar fronteiras. E talvez esteja precisamente aí uma das virtudes d’O Sol da Caparica: não obrigar a língua portuguesa a ter apenas uma sonoridade.
Quim Barreiros representa um Portugal musical que alguns gostam de considerar antigo até ao momento em que começa a tocar e descobrem que sabem as músicas.

Depois disso, as teorias costumam durar pouco.
Porque entre o público de um festival de verão e o de uma festa de aldeia existe, afinal, uma fronteira bastante mais pequena do que aquela que por vezes se imagina.
Basta aparecer um acordeão para a encontrar.
Quim Barreiros foi homenageado pelos 50 anos de carreira, por um dos directores do festival, André Sardet.

