Nena antes do Rock in Rio: “No dia 1 de Outubro sai o meu novo disco”

Nena antes do Rock in Rio: “No dia 1 de Outubro sai o meu novo disco”, contou-nos antes de subir a palco, este sábado.

Texto e Entrevista: Rui Lavrador
Fotografias: Carlos Pedroso

O sol batia de frente. Antes de qualquer pergunta sobre discos, concertos ou canções, houve aquele instante pequeno que diz quase tudo sobre Nena: a naturalidade.

“Estás a olhar para a minha altura?”, atirou, em tom de brincadeira, quando percebeu o gesto à sua frente. Não era a altura. Era o sol. E ela, sem pose de estrela, resolveu logo o assunto: “Então vem para aqui, vem para aqui. Vê lá, se assim está melhor.”

Foi assim, com a leveza de quem não precisa de criar distância, que Nena falou antes de subir ao palco do Rock in Rio Lisboa. Ainda não tinha actuado. Ainda havia expectativa, nervo e aquela electricidade própria dos minutos anteriores a um concerto. Mas já se percebia o essencial: a artista chegava ao Music Valley do Rock in Rio com um alinhamento escolhido ao milímetro e um ano cheio nas mãos.

A actuação seria mais curta do que os concertos habituais. Por isso, a escolha das canções tinha outro peso. Não bastava tocar. Era preciso condensar um universo.

Olha, o alinhamento que nós vamos trazer é um bocadinho o alinhamento que temos feito já nesta tour, que fizemos o ano passado e também vamos fazer este verão, mas que estamos a selecionar também aquelas músicas que sabemos que o público quer mesmo muito ouvir, porque é um concerto um bocadinho mais curto. Acho que vai ser mesmo, mesmo bonito. Estou a sentir que, especialmente canções como Lembras-te de mim, Portas do Sol, Os Croquetes Acabam, acho que o público vai estar comigo, espero que sim, comigo e com a minha banda, e acho que vai ser um momento lindo.

O disco novo já tem nome, data e promessa de mergulho

Nena não chegou ao Rock in Rio Lisboa apenas com o presente do concerto. Chegou também com futuro anunciado.

Depois do Campo Pequeno em nome próprio, recordado pelo autor destas linhas e da entrevista, na conversa como um dos grandes concertos do ano passado, a artista explicou também que o projecto Dois Pares de Botas – com Joana Almeirante – vai fazer uma pausa. Mas essa pausa não significa travagem. Significa mudança de fôlego.

Pois é, é verdade. Tem sido anos de muito, muito trabalho, mas também com coisas muito boas a acontecer e estamos a surfar a onda, não é? A aproveitar as coisas boas que estão a acontecer.

Logo depois, veio a novidade maior. O próximo disco já tem título e data marcada.

Olha, é verdade o projeto Dois Pares de Botas, por enquanto agora fazemos uma pausa, mas vamos ter um disco novo no fim do ano. No dia 1 de Outubro sai o meu novo disco que se chama Debaixo de Água Contigo, com muitas músicas novas. Só ouviram ainda uma que se chama O Amor Existe, que lancei recentemente.

O título traz imagem, risco e uma espécie de romantismo submerso. Debaixo de Água Contigo parece nome de disco, mas também podia ser promessa, vertigem ou abrigo.

Quando se brincou com a possibilidade de respirar debaixo de água, Nena entrou no jogo.

Vai dar para respirar, espero que sim. Estou muito, muito ansiosa para que vocês ouçam e vamos fazer também uma tour nova desse disco, que vamos passar também pelo Multiusos de Guimarães, pelo Super Bock Arena no dia 13 de Março de 2027. E é bom também sentir que vamos cantar já uma música que faz parte desse disco aqui no palco do Rock in Rio. Estou muito ansiosa.

Ou seja, o concerto no Rock in Rio não seria apenas uma passagem por canções conhecidas. Seria também a primeira janela para uma nova fase.

Nena não cabe numa gaveta – e ainda bem

Há artistas que se percebem depressa. Nena não é uma dessas artistas, no melhor sentido possível.

A sua música tanto toca a melancolia como atravessa zonas mais pop, rock ou até country. Há nela uma recusa de fórmula, uma vontade de escrever sem pedir licença a um rótulo. E isso, num tempo em que tanta coisa parece feita para caber no mesmo molde, tornou-se parte da sua identidade.

Perante a pergunta sobre como define a própria música, a resposta veio sem manual de imprensa.

Olha, nunca me tinham feito esta pergunta, portanto agradeço-te. E obrigada por estares também atento à música que nós vamos mostrando. É verdade, eu não sei muito bem descrever, porque eu acho que vai desde o Pop Rock às músicas um bocadinho mais melancólicas.

Depois, explicou melhor o lugar onde se move.

Eu acho que descrevo uma pessoa a gostar de muita coisa e pôr cá fora o que lhe apetece. Na realidade é isso que eu tento fazer, não tento pôr-me muito dentro de uma caixa. Eu gosto de muitos estilos musicais e é isso que tenho vindo a fazer e também quero mostrar aos meus ouvintes um bocadinho de tudo.

Talvez esteja aí o segredo. Nena não procura parecer ecléctica. Ela é-o. Não força a diferença. Vive nela.

E, quando se lhe apontou essa singularidade no meio de uma vaga de artistas pop com sonoridades muitas vezes próximas, a resposta não veio em forma de vaidade. Veio em forma de generosidade para com os outros.

Olha, muito obrigada por dizeres isso. Eu acho que cada pessoa tem o seu estilo e forma de viver a música e por acaso eu sinto que muitos dos artistas portugueses que tenho vindo a ouvir estão a fazer um bocadinho isso, estão a fazer o que eles querem, o que lhes apetece e o que lhes vai na alma. E é muito bonito ver isso a acontecer e poder fazer parte também desses artistas.

A canção nasce primeiro para dentro

Há uma pergunta que acompanha quase todos os autores: escreve-se para si ou para os outros?

Em Nena, a resposta não fecha a porta a nenhum dos lados. A canção nasce de dentro, mas não ignora quem está do outro lado. Talvez por isso chegue com tanta facilidade a públicos diferentes. Tem origem pessoal, mas não fica fechada no quarto onde nasceu.

Eu acho que todo o processo é uma coisa que me encanta mesmo muito, não só a parte de estar a escrever eu, depois de ir para o estúdio e depois também as pessoas as receberem. Acho que é tudo, é um processo muito bonito no seu total.

A artista admite que escreve a partir do que sente. Ainda assim, sabe que há uma comunidade à espera de novas canções.

Eu tento um bocadinho obviamente focar-me, isto é o que eu gosto, vou escrever para mim porque estou a sentir isto e acho que isso é o mais importante, mas ao mesmo tempo sei que tenho um público que me acompanha e quero muito que eles estejam felizes também com a minha música, portanto obviamente que tem esse bocadinho na minha cabeça que pense.

E acrescentou: “Eu acho que as pessoas que estão comigo vão mesmo gostar disto. E também acho que se calhar há outras pessoas que vão ouvir uma coisa que não conheciam ainda e pode ser que também comecem a entrar no nosso universo.

“Entrar no nosso universo” é uma expressão justa. Porque a música de Nena não se limita a uma coleção de temas. Tem uma casa própria, com divisões diferentes, janelas abertas e algumas sombras bonitas.

Entre biografia, observação e o mundo lá fora

A matéria das canções vem de vários lugares.

Vem da vida, claro. Mas também vem do olhar. De histórias alheias. De filmes, séries, conversas, memórias que não são necessariamente dela, mas que lhe passam perto o suficiente para se tornarem música.

Nena explicou-o sem dramatizar o processo.

Olha, eu acho que vem muito da parte biográfica sem dúvida, acho que também vem muito da parte de eu observar muitas coisas que me rodeiam ou histórias que me contam ou um filme que eu vejo ou uma série que eu vejo. Mas pronto, vem um bocadinho de tudo e eu acho que há inspiração em muitos sítios, basta nós estarmos atentos.

Antes de atuar no Rock in Rio Lisboa, Nena parecia precisamente isso: atenta.

Ao sol que incomodava. Ao público que esperava. Às canções que tinham de caber num concerto mais curto. Ao disco novo que chega em Outubro. À tour que se seguirá. À vontade de continuar sem se deixar prender.

No Music Valley, iria cantar para muita gente. Mas, antes disso, deixou claro que o caminho continua a ser feito com a mesma matéria: verdade, curiosidade, trabalho e uma rara capacidade de transformar coisas pequenas em canções que ficam.

Leia também: Nena no Rock in Rio: A verdade foi tão crua que o concerto tornou-se extraordinário

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