Blasted Mechanism no Rock in Rio: 30 anos condensados “à porrada” e um novo disco a caminho, revelaram ao Infocul.pt.
Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora
Antes de subirem ao palco do Rock in Rio Lisboa, este domingo, os Blasted Mechanism falaram como sempre foram: sem verniz a mais, sem frases domesticadas e com aquela mistura rara de humor, consciência e desassossego criativo.
Há bandas que chegam aos 30 anos com ar de museu. Os Blasted não. Chegam com a energia de quem ainda discute repertórios como se fosse uma guerra interna, prepara nova imagem, novo disco e continua a olhar para a música como território de invenção.
A pergunta era simples: como se condensa uma vida de 30 anos num concerto de festival?
A resposta veio com o exagero teatral de quem sabe brincar com a própria lenda.
“Tivemos horas à porrada, a tentar escolher o repertório certo.”
Logo a seguir, a brincadeira ganhou continuação: “Não está a brincar, não está a brincar. Ainda ontem…”
E, como nos Blasted nada fica apenas na superfície, a imagem tornou-se ainda mais física: “E à mocada, e garrafas partidas na cabeça, só para escolher o repertório. Mas escolhemos o mais forte.”
Por trás do humor, estava a dificuldade real. Três décadas não cabem facilmente num alinhamento curto. Muito menos quando a banda tem uma história marcada por fases, discos, estética, risco e um lugar muito próprio na música portuguesa.
“São 30 anos, tentar condensar 30 anos. Em 45 minutos, mais ou menos. 45 minutos, não. Uma hora. Não é fácil. Mas acho que está um bom resumo destes 30 anos.”

O regresso não caiu do céu
O momento actual dos Blasted Mechanism tem peso. Depois de salas grandes, do Alive e agora do Rock in Rio Lisboa, a banda vive uma fase que pode parecer regresso, celebração ou ressurgimento.
Mas eles não falam como quem acordou de repente com uma segunda vida. Falam como quem a trabalhou.
“Sentimos-nos mesmo verdadeiramente bem, porque trabalhamos imenso para isso. Felizmente estamos com uma equipa boa também, que nos está a acompanhar, o Nuno Chanoca por aí fora. E acho que deu-nos motivação extra.”
A palavra “extra” importa. Não é a única razão. Mas é combustível. E os Blasted parecem estar precisamente nesse ponto: com memória suficiente para saber de onde vêm e inquietação suficiente para não ficarem apenas a celebrar o passado.
“Ajuda sempre. Não é a principal, mas extra, produzir um novo disco, uma nova imagem e continuar por mais 30 anos.”
A frase tem graça, mas também tem manifesto. Porque a banda não fala de encerramento. Fala de continuidade.

A marca Blasted: originalidade sem pedir autorização
Os Blasted Mechanism nunca foram uma banda fácil de arrumar. Nem quiseram ser.
A música, os fatos, a presença cénica, a ideia de colectivo, a dimensão visual e a estranheza assumida fizeram deles uma espécie rara dentro do panorama português. Não apenas uma banda para ouvir. Uma banda para ver, estranhar, seguir e reconhecer.
Quando convidados a olhar para a própria história de fora, a palavra que surgiu foi clara: originalidade.
“É uma pergunta engraçada, até porque a banda tem elementos que eram fãs da banda antes de entrarem para a banda. Eu acho que tem um grande marco de originalidade na música portuguesa e não só. Na realidade, tocamos fora de Portugal e isso é-nos atribuído também.”
Depois, veio a memória de quem percebeu, mesmo sem pertencer ao mesmo gosto musical, que havia ali algo impossível de ignorar.
“Eu e os meus amigos, cada um não temos um gosto comum, mas todos gostámos do vosso espetáculo e os fatos. Então, eu acho que têm esse cunho de originalidade.”
Essa talvez seja uma das grandes vitórias dos Blasted. Conseguirem ser estranhos sem ficarem fechados. Conseguirem ser identitários sem se tornarem inacessíveis. Conseguirem criar uma imagem tão forte que, mesmo quando a música muda, a marca permanece.
Dos cartazes colados à era do algoritmo
A conversa recuou depois a outro tempo.
Um tempo sem redes sociais, sem algoritmos a empurrar conteúdos, sem a promessa de viralidade permanente. Um tempo em que se ia para a rua colar cartazes e em que a construção de uma banda dependia de corpo, insistência e comunidade.
“Nós fizemos pósteres. Fizemos pósteres, fomos colar pósteres, fizemos tudo, fizemos os vídeos. Sempre fomos muito auto-sustentáveis, porque fizemos uma edição de autor, foi super conhecida na altura, vendemos imensos discos.”
A história dos Blasted também passa por aí: por não esperarem que o sistema lhes abrisse a porta.
“Foi a primeira grande edição de autor a sair num artista português. A produção dos nossos discos sempre tivemos muito esta ideia de que tínhamos de conhecer o processo, ser donos do processo, conhecer o processo, ser donos do processo.”
Essa repetição não parece acidente. É quase doutrina. Conhecer o processo. Ser dono do processo. Fazer antes de pedir licença.
E, nessa lógica, a música nunca esteve sozinha.
“E acho que isso ajudou-nos muito, e como o Pedro há bocado dizia, aliado à originalidade e à nossa vontade de tentar criar também um coletivo de artistas e que não seja só a música, acho que foi assim um contexto.”
O ruído, a democratização e a resiliência
Hoje, o cenário é outro. Há mais acesso, mais ferramentas, mais artistas, mais canções, mais plataformas. Também há mais ruído.
Os Blasted não entraram em discurso nostálgico fácil. Não quiseram posar como profetas contra a modernidade.
“Hoje em dia as coisas parecem que são mais fáceis, não sei, não sei, porque há muito ruído, abres o Spotify e nem sabes o que ouvir, é mesmo difícil. Nós crescemos com uma comunidade muito grande, acho que em cada concerto juntávamos pessoas, pessoas, pessoas.”
Questionados sobre se há mais ruído do que qualidade, a resposta recusou o pedestal.
“Não sei, não vou estar aqui armado em profeta da modernidade.”
Ainda assim, há uma leitura clara sobre a democratização do acesso.
“Não quero, é uma opinião, mas na realidade esta democratização abriu a porta a tudo.”
E a todos.
“E isso tem coisas boas e coisas más, como tudo, não é? Deixou de haver filtro. O filtro é cada uma das pessoas que se cruza com esse conteúdo ou com o algoritmo ou com aquilo que o algoritmo usar.”
Da era anterior, guardam uma palavra que talvez explique muito: resiliência.
“Respondendo, o que eu acho que esse tempo sem as redes nos deu foi resiliência. Porque eu não sei se realmente todas as pessoas que estão a produzir agora conteúdos com esta visibilidade toda conseguiriam surfar, se calhar, tempos menos bons.”
Os Blasted sabem o que é atravessar tempos menos bons. E talvez por isso este momento tenha outro sabor.
2026 fecha os 30 anos. 2027 abre outra pele
O futuro também entrou na conversa.
Em 2026, a banda vai continuar a encerrar a celebração dos 30 anos. Mas 2027 já surge como novo capítulo, com mudança de imagem e disco novo no horizonte.
“Em 26 vamos continuar a encerrar os 30 anos e em 27 temos preparado uma nova imagem, um novo disco.”
Quanto à possibilidade de mais uma grande sala para fechar esta fase, não há confirmação.
“Até agora acho que não.”
Ainda houve espaço para uma última gargalhada, à boa maneira dos Blasted.
“Pá, eu estou a tentar tocar na sala de estar dos meus pais. Mas eles não aceitaram.”
E a resposta fechou o círculo com ironia familiar: “O meu pai disse, não, por favor.”
“Já estou muito… Chega, chega.”
Antes de subirem ao palco do Rock in Rio Lisboa, os Blasted Mechanism deixaram claro que a celebração dos 30 anos não é uma despedida dourada. É uma travessia. Uma dessas passagens em que a banda olha para trás, percebe o tamanho da estrada, ri-se das pancadas, reconhece o ruído do presente e prepara outra mutação.
Porque os Blasted nunca foram uma banda para ficar quieta na fotografia.
Foram, e continuam a ser, uma criatura em movimento.

