Álvaro Covões revela bastidores do NOS Alive e alerta: Portugal está na “cauda da Europa” na cultura, destacou.
Álvaro Covões falou sem filtros sobre a indústria dos espetáculos, o risco financeiro de cada produção e o estado da cultura em Portugal.
O promotor e fundador da Everything Is New foi entrevistado por Conceição Lino numa edição especial do podcast Geração 60. A conversa, gravada ao vivo no NOS Alive, passou pelos bastidores do festival, pelas exigências dos artistas e pela falta de hábitos culturais no país.
Aos 63 anos, Álvaro Covões recordou ainda a juventude, a relação com o trabalho e o caminho que o levou a tornar-se uma das principais figuras da promoção de espetáculos em Portugal.
Uma infância ligada ao Coliseu dos Recreios
O contacto de Álvaro Covões com o mundo dos espetáculos começou muito antes da criação da Everything Is New.
O empresário cresceu no ambiente do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, espaço que pertence à sua família há mais de um século. Contudo, os pais imaginavam para o filho um percurso profissional diferente.
“Inicialmente queriam que eu fosse médico e acabei por ir para a gestão, economia, portanto”, recordou.
Ainda assim, o promotor não comunicou imediatamente ao pai a decisão de estudar Gestão de Empresas.
“Eu sempre fui rebelde. (…) Só disse ao meu pai que estava em Gestão de Empresas quando passei para o segundo ano”, confessou.
Durante a conversa, Álvaro Covões descreveu o pai como um “bom-vivant”. Já o seu próprio quotidiano ficou marcado por uma forte dedicação à atividade profissional.
“O meu vício era trabalhar. E, portanto… Porque quando nós trabalhamos naquilo que gostamos (…) não estamos a trabalhar, estamos também a divertir-nos”, afirmou.
Cada espetáculo termina sem margem para recuperar o investimento
Apesar da dimensão alcançada pelo NOS Alive, Álvaro Covões não romantiza a realidade económica da indústria.
Ao contrário de outros negócios, um espetáculo tem uma data e uma hora definidas. Depois desse momento, não existe uma nova oportunidade para recuperar o dinheiro investido.
“Um espectáculo se não… É como uma empresa. Tem um tempo de vida muito curto. Quando ele termina, fechou. Portanto, já não há hipótese nenhuma de poder recuperar financeiramente o investimento. (…) O espectáculo é no dia 4, às 10h30 acabou, morreu. Portanto, o risco financeiro é gigante”, explicou.
Assim, cada concerto ou festival implica decisões tomadas com antecedência e sem garantias absolutas sobre a resposta do público.
O sucesso artístico não elimina, por isso, o risco económico que acompanha diariamente uma promotora.
O cartaz desejado nem sempre chega ao público
A preparação de um festival como o NOS Alive começa muito antes do anúncio dos primeiros nomes.
Segundo Álvaro Covões, existem diferentes versões do alinhamento até se chegar ao cartaz definitivo. O público acaba por conhecer apenas o resultado final de um processo condicionado pela disponibilidade dos artistas e dos espaços.
“Os festivais passam por três fases: há o programa que gostaríamos, o programa que de facto é possível (…) e o programa que vai acontecer mesmo. (…) Só conhecem o último”, revelou.
Ao longo da carreira, o promotor conseguiu trazer a Portugal vários dos maiores nomes da música internacional. Porém, houve um artista que esteve muito perto de atuar no país e acabou por não vir.
“O único que não veio e que foi quase possível era o Tom Waits, que estava a fazer uma tour por teatros de ópera e, para variar, o Teatro São Carlos, que nunca está disponível para os privados, estava em obras”, contou.
Nick Cave leva o próprio chef
As histórias sobre exigências feitas por artistas internacionais nos bastidores alimentam frequentemente a curiosidade do público.
No entanto, Álvaro Covões desvalorizou a ideia de que passa grande parte dos festivais em contacto direto com as estrelas contratadas.
“Raramente estou com os artistas. (…) O Nick Cave traz um chef. Porquê? Portanto, temos que preparar uma cozinha para ele poder trabalhar”, exemplificou.
A exigência implica criar as condições necessárias para que o cozinheiro do músico possa preparar as refeições no recinto.
Ainda assim, o empresário mantém-se afastado da relação direta com os artistas e confia essa área às equipas responsáveis.
“Não gosto de yes-men”
Além da organização logística, Álvaro Covões falou sobre a forma como escolhe e gere os profissionais que trabalham consigo.
O promotor rejeita equipas construídas apenas por pessoas dispostas a validar todas as suas decisões.
“Não gosto de yes-men. Não gosto de pessoas que digam que sim a tudo. Não podem concordar sempre com tudo”, vincou.
Para o fundador da Everything Is New, a discordância pode ser importante num setor onde cada decisão envolve valores elevados e riscos difíceis de reverter.
Álvaro Covões critica política cultural portuguesa
A conversa avançou depois para o estado da cultura em Portugal.
Álvaro Covões considera que as medidas seguidas ao longo das últimas décadas não conseguiram aumentar de forma significativa a participação cultural da população.
“A política cultural em Portugal, que não tem mudado muito ao longo das décadas, não conduziu a resultados, não teve resultados positivos. Se temos dos mais baixos hábitos culturais, as políticas (…) não tiveram resultados. E quando não há resultados, há que ter coragem para mudar”, defendeu.
Na leitura do empresário, a continuidade de políticas sem resultados ajuda a explicar o atraso estrutural do setor.
Por isso, pediu uma mudança de rumo e maior coragem nas decisões tomadas pelos responsáveis políticos.
Portugal está na “cauda da Europa”
O promotor acredita que os grandes eventos podem desempenhar um papel na aproximação das pessoas à cultura.
Contudo, considera que Portugal continua numa posição preocupante quando comparado com outros países europeus.
“É muito importante este contributo que damos para incentivar o consumo cultural em Portugal, que está a bater no fundo, não é? Estamos na cauda da Europa. E nós temos que aumentar os hábitos culturais (…) para que as pessoas possam um dia viver numa sociedade melhor e, eventualmente, numa sociedade sem pobreza”, alertou.
Álvaro Covões relacionou diretamente o acesso à cultura com a construção de uma sociedade mais desenvolvida.
Para o empresário, o consumo cultural não deve ser visto apenas como entretenimento, mas também como uma ferramenta de transformação social.
Falta de coragem impede a mudança
Durante a entrevista, o fundador da Everything Is New apontou ainda a resistência à mudança como uma das fragilidades portuguesas.
Na sua opinião, o receio de falhar condiciona decisões importantes e contribui para a manutenção de problemas antigos.
“Somos um país pobre, somos dos mais pobres da Europa, porque temos uma resistência muito grande à mudança. (…) Se falhamos, há que ter coragem de mudar. Eu penso assim, nós não temos coragem. Não temos coragem de mudar, não sei porquê. Acho que há algum receio. Os políticos são muito escrutinados e têm medo de falhar”, afirmou.
Álvaro Covões considera que o escrutínio sobre os decisores políticos pode alimentar uma postura demasiado cautelosa.
Porém, entende que a ausência de risco também impede a criação de respostas capazes de mudar o panorama nacional.
Hábitos culturais ajudam a formar pensamento crítico
O empresário defendeu igualmente que a cultura tem um papel decisivo na formação de cidadãos mais atentos e esclarecidos.
“Com baixos hábitos culturais não se desenvolve um sentido crítico”, sublinhou.
Contudo, Álvaro Covões reconheceu que o acesso a concertos, teatro, cinema ou outras manifestações culturais também depende das condições económicas das famílias.
A indústria dos espetáculos vive, em grande medida, do rendimento que permanece disponível depois de pagas as despesas essenciais.
“Nós vivemos do que sobra. E por isso é que (…) preciso de uma sociedade em que de facto o poder de compra seja superior para que o dinheiro disponível seja maior e que possamos ter uma oferta cultural e um consumo cultural muito maior do que é hoje”, explicou.
Assim, a evolução do setor cultural não pode ser desligada do aumento do poder de compra e da melhoria das condições de vida.
Profissionais portugueses não ficam atrás dos estrangeiros
Apesar do diagnóstico crítico sobre Portugal, Álvaro Covões rejeitou qualquer falta de competência dos profissionais nacionais.
Pelo contrário, o promotor considera que muitos trabalhadores e dirigentes portugueses demonstram mais capacidade do que os profissionais de países economicamente mais fortes.
“Há uma contradição na sociedade portuguesa que nós temos profissionais com muito mais valor que noutros países em várias áreas, não é só na área cultural. Eu às vezes até me interrogo como é que em determinados países (…) eles são ricos, porque quando lidamos profissionalmente com eles nós dizemos assim: ‘mas estes tipos têm muito menos competência que um trabalhador português ou que um dirigente português’”, concluiu.
Entre o risco financeiro dos espetáculos e a necessidade de mudar as políticas públicas, Álvaro Covões deixou um retrato abrangente da cultura em Portugal.
Para o responsável pelo NOS Alive, não falta capacidade aos profissionais. Falta, sobretudo, aumentar os hábitos culturais, melhorar o poder de compra e ter coragem para alterar estratégias que não produziram resultados.
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