António Manuel Ribeiro: há pedaços da nossa vida escritos nas suas canções, numa carreira brilhante.
Tenho 36 anos. Menos anos de vida do que António Manuel Ribeiro leva de carreira. Não acompanhei, obviamente, o princípio dos UHF, não vivi o impacto de «Cavalos de Corrida» quando chegou às lojas nem assisti ao momento em que aquela geração começou a perceber que era possível fazer rock em português e levá-lo verdadeiramente a todo o país.
Fui chegando depois.
Primeiro através das canções, naturalmente. Mais tarde, com outra atenção, através da escrita, das entrevistas, das intervenções públicas e da própria história dos UHF. E fui aprendendo a perceber António Manuel Ribeiro enquanto artista nas suas diferentes facetas.
Quanto mais percebo, mais fascinante o acho.
Não estou a falar do homem privado, que não conheço, nem tenho qualquer proximidade que me permita fazê-lo. Falo do artista que está diante de nós há quase meio século e daquilo que escolheu mostrar através da música, das palavras e da forma como pensa publicamente sobre a cultura, o país e o mundo.
Há nele uma capacidade intelectual que me parece evidente, mas há sobretudo uma coisa bastante mais difícil: conseguir transformar essa capacidade em canções sem fazer delas demonstrações de intelectualidade.
António Manuel Ribeiro pensa, observa, lê o tempo em que vive e depois consegue transformar tudo isso em pedaços de vida humana. Não escreve para mostrar o que sabe. Escreve de uma forma que permite a alguém que nunca o conheceu sentir que determinada frase lhe pertence.
Algumas dessas canções colaram-se à nossa pele. E daí já ninguém as tira.
Os UHF apareceram quando muita coisa ainda estava por inventar
Os UHF nasceram em Almada, em 1978, numa realidade musical muito diferente daquela que hoje conhecemos. O rock cantado em português ainda procurava espaço, havia pouco circuito, poucas estruturas profissionais e praticamente nenhuma estrada previamente preparada para uma banda construir uma carreira com a dimensão que eles viriam a alcançar.
Isso é importante quando se olha para o percurso.
É fácil analisar o passado com as condições do presente e esquecer o que significava, naquela altura, montar uma banda, conseguir concertos, viajar pelo país, criar uma estrutura de produção e convencer público, promotores e indústria de que aquele caminho fazia sentido.
Os UHF foram fazendo muitas dessas coisas antes de elas se tornarem normais.
E fizeram-nas a partir de Almada, o que também tem significado. Não nasceram no centro cultural mais óbvio nem precisaram dele para construir identidade.
Quando editaram «Jorge Morreu», em 1979, já estava ali uma característica que atravessaria a escrita de António Manuel Ribeiro durante décadas: a realidade não precisava de ser bonita para poder entrar numa canção.
Entraram as drogas, a marginalidade, a violência, os problemas sociais. Mais tarde entrariam guerras, racismo, intolerância, amor, desejo, ausência e tudo aquilo que cabe numa vida suficientemente longa para ser observada com atenção.
A canção nunca ficou fechada numa redoma. Tinha rua.
O sucesso passa. Uma canção pode não passar
«Cavalos de Corrida» chegou em 1980 e tornou-se um dos temas incontornáveis da explosão do rock português. Vendeu mais de 30 mil exemplares e foi o primeiro single de rock português a alcançar um galardão discográfico.
O número é importante para a história. Mas hoje interessa-me muito mais outra coisa: passaram 46 anos e continuamos a reconhecê-la.
Isso já não se explica por vendas.
Quantas músicas venderam milhares de cópias, ocuparam rádios durante meses e desapareceram praticamente da memória coletiva? Muitas. É o percurso normal da maioria dos sucessos. Depois há aquelas que sobrevivem ao momento em que foram um sucesso.
António Manuel Ribeiro escreveu várias.
«Rua do Carmo» não precisa de uma explicação sobre os anos 80 para continuar a funcionar. «Estou de Passagem» não ficou presa à época em que nasceu. «Foge Comigo Maria» surgiu muito mais tarde e provou novamente que os UHF não estavam condenados a viver do primeiro grande período da carreira.
É aqui que os números deixam de chegar.
Quando uma pessoa ouve uma canção escrita décadas antes e encontra nela qualquer coisa que lhe pertence, houve um autor que conseguiu ultrapassar o tempo em que escreveu.
A inteligência de não complicar aquilo que é humano
É provavelmente nesta dimensão que mais admiro António Manuel Ribeiro.
Há autores muito cultos que não conseguem evitar que cada texto pareça uma demonstração da sua cultura. Há inteligência que pesa, que se exibe e que acaba por ficar entre o autor e quem o ouve.
Não sinto isso nas melhores canções dos UHF.
Existe pensamento por trás delas, existe cultura, existe atenção ao que acontece em Portugal e fora dele, mas a chegada ao público faz-se através de pessoas, histórias, lugares e emoções reconhecíveis.
Isso é dificílimo. «Sarajevo» pode existir no mesmo percurso que «Foge Comigo Maria» sem que António Manuel Ribeiro deixe de parecer o mesmo autor. Numa encontramos a preocupação com aquilo que acontece no mundo; na outra, uma dimensão emocional e íntima completamente diferente.
Não há contradição nenhuma. Nós também somos assim.
Num dia preocupamo-nos com aquilo que acontece a milhares de quilómetros e, algumas horas depois, todo o nosso universo pode resumir-se a uma pessoa que não respondeu a uma mensagem.
É vida. E António Manuel Ribeiro soube escrever muita vida.
Foram pioneiros sem precisar de passar a vida a dizê-lo
Também há uma parte do percurso dos UHF que merece mais atenção do que aquela que normalmente recebe.
A banda ajudou a profissionalizar uma forma de fazer rock em Portugal quando grande parte das condições que hoje consideramos elementares ainda não existia.
Fizeram digressões nacionais, montaram estruturas de produção, trabalharam som e luz com uma preocupação profissional pouco habitual naquela fase e contribuíram para que as bandas que partilhavam os seus espetáculos também encontrassem melhores condições.
Há depois episódios que hoje parecem quase curiosidades, mas que dizem muito sobre a inquietação criativa que sempre acompanhou os UHF.
A apresentação de «Rua do Carmo» numa montra do Chiado foi uma ação invulgar para a época. Em 1985 editaram «Ao Vivo em Almada – No Jogo da Noite», o primeiro álbum de rock ao vivo gravado por uma banda portuguesa.
Foram abrindo portas.
E uma das injustiças habituais em relação aos pioneiros é esta: quando aquilo que fizeram se torna normal, as gerações seguintes deixam de perceber que alguém teve primeiro de experimentar, errar, insistir e provar que era possível.
Há uma parte do reconhecimento que continuo sem compreender
Percebo perfeitamente que António Manuel Ribeiro possa ter criado anticorpos ao longo da carreira.
Quase cinco décadas de exposição pública, opiniões fortes, tomadas de posição e uma personalidade que nunca pareceu especialmente interessada em agradar a toda a gente tornam isso praticamente inevitável.
O que tenho mais dificuldade em perceber é outra coisa.
Porque é que esses anticorpos tantas vezes parecem impedir uma avaliação tranquila da dimensão artística daquilo que fez?
Não precisamos de gostar de tudo aquilo que um artista diz para reconhecer aquilo que escreveu. Não precisamos sequer de simpatizar particularmente com a figura pública para avaliar a obra.
E às vezes tenho a sensação de que António Manuel Ribeiro ainda não recebe, em vida e em plena atividade, uma parte do reconhecimento que a sua importância justificaria.
Isso incomoda-me.
Não porque ache que deve ser colocado num altar, nem porque todas as suas canções devam ser tratadas como obras-primas. Seria ridículo.
Mas porque continua por cá, continua a criar e continua a entregar de mão beijada à cultura portuguesa uma obra cuja dimensão já não é discutível apenas em função do gosto.
Mais de 300 canções originais fazem parte desse percurso.
Algumas serão esquecidas, como acontece em qualquer discografia extensa. Outras já sabemos que não serão.
Não o fechemos nos anos 80
Também não gosto de ver os UHF constantemente colocados na prateleira do «rock português dos anos 80».
Pertencem àquela história, evidentemente. E tiveram nela um papel decisivo. Mas não pertencem apenas àquela década.
Uma banda que começa em 1978, atravessa quase cinco décadas e continua em atividade em 2026 não pode ser resumida ao período em que alcançou a primeira explosão de popularidade.
Seria injusto com tudo aquilo que veio depois. E, principalmente, seria esquecer que algumas das canções daquele período deixaram entretanto de ser objetos históricos.
Quando pais e filhos conhecem o mesmo tema, quando alguém que nasceu vinte anos depois sabe o refrão e quando uma canção continua a funcionar sem necessitar do contexto em que nasceu, entrámos noutro território.
Aquilo já faz parte da cultura popular portuguesa.
Aos 36 anos, fui percebendo melhor a dimensão
Talvez seja também uma questão de idade.
Há artistas cuja dimensão percebemos imediatamente e há outros que vamos entendendo à medida que também nós acumulamos referências suficientes para os avaliar de outra forma.
Com António Manuel Ribeiro aconteceu-me isso.
Não conheço o homem, nem pretendo fingir que conheço. Conheço aquilo que qualquer pessoa interessada na sua obra pode conhecer: as canções, o percurso, as entrevistas, o pensamento que expõe publicamente e uma carreira que está diante de todos.
E isso chega para me impressionar.
Aos 36 anos, consigo perceber hoje muito melhor do que há quinze anos a inteligência que existe naquela escrita, a importância do caminho aberto pelos UHF e, sobretudo, o privilégio que é ainda podermos ouvir António Manuel Ribeiro escrever sobre o presente em vez de estarmos apenas a celebrar o passado.
Talvez devêssemos fazer mais isso em Portugal. Reconhecer antes da homenagem póstuma.
Valorizar enquanto o artista continua a criar.
Dizer que alguém é importante sem esperar pelo momento em que essa afirmação deixa de poder chegar aos ouvidos de quem a merece.
António Manuel Ribeiro escreveu canções que entraram na vida de milhares de pessoas sem nunca saber onde iam parar.
Foram para amores, separações, carros, quartos, concertos, noites, viagens, adolescências e vidas adultas. Algumas acompanharam pessoas durante décadas e mudaram de significado à medida que essas pessoas também mudaram.
Ele escreveu-as. Depois deixaram de ser dele.
Talvez seja esse o lugar mais alto a que um compositor de canções pode chegar. E António Manuel Ribeiro chegou lá há muito tempo.
