Morreu Jorge Palma. Cantor e compositor tinha 76 anos

Morreu Jorge Palma. Cantor e compositor tinha 76 anos, na noite desta segunda-feira, segundo foi revelado.

Há autores cuja morte obriga a regressar às canções. Jorge Palma morreu esta segunda-feira, 21 de setembro, aos 76 anos, e ficam mais de cinco décadas de música onde cabem “Bairro do Amor”, “Estrela do Mar”, “Deixa-me Rir”, “Frágil”, “Dá-me Lume”, “Encosta-te a Mim” e tantas outras palavras que Portugal foi guardando.

A notícia foi confirmada durante a madrugada pela família e pela agência do músico. Jorge Palma morreu vítima de uma paragem cardiorrespiratória.

Na mensagem divulgada através das páginas oficiais do artista, a família comunicou “com profundo pesar e consternação” a sua morte e recordou uma carreira que deixa “uma obra assinalável que faz parte da história” da música portuguesa. As informações relativas às cerimónias fúnebres serão conhecidas posteriormente.

Falar de Jorge Palma apenas através de datas seria, porém, contar pouco da sua história.

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O piano apareceu primeiro. Tinha seis anos quando começou a tocá-lo e dez quando entrou para o Conservatório de Música de Lisboa. Depois chegaram outras músicas, outros instrumentos, o rock, as viagens e uma liberdade artística que haveria de acompanhar praticamente tudo o que fez.

Antes da carreira a solo passou pelos Sindicato e viveu a experiência de uma geração que procurava musicalmente outros caminhos. Esteve fora de Portugal, regressou depois do 25 de Abril e voltou a partir. Em Paris tocou na rua e no metro. Não era ainda o Jorge Palma cujas canções atravessariam gerações, mas já estava ali muito do músico que viria depois.

Uma carreira que nunca coube apenas num disco

“Como uma Viagem na Palma da Mão”, de 1975, abriu oficialmente uma discografia que foi ganhando diferentes vidas.

Jorge Palma escreveu para si, escreveu para outros, trabalhou sozinho e encontrou-se musicalmente com outros nomes. Houve Palma’s Gang, Rio Grande e Cabeças no Ar. Houve também discos que ficaram ligados de forma particular ao seu percurso, como “Bairro do Amor” e “Só”.

Mas houve, sobretudo, canções.

“Estrela do Mar”, “Deixa-me Rir”, “Frágil”, “Dá-me Lume”, “A Gente Vai Continuar”, “Bairro do Amor” ou “Encosta-te a Mim” sobreviveram aos respetivos discos e foram encontrando novos públicos. Algumas tornaram-se inevitáveis nos concertos; outras passaram a ser cantadas por artistas que chegaram muito depois delas.

O último álbum de originais, “Vida”, foi editado em 2023. Chegava 12 anos depois de “Com Todo o Respeito” e mostrava que Jorge Palma continuava a ter coisas para escrever, décadas depois das primeiras canções.

Uma das últimas aparições públicas aconteceu nos PLAY

Nos últimos tempos, problemas de saúde tinham obrigado Jorge Palma a afastar-se dos palcos e a cancelar concertos.

Em abril de 2026 voltou a aparecer publicamente para receber o Prémio Carreira nos PLAY – Prémios da Música Portuguesa.

Não transformou o momento apenas numa celebração de si próprio.

Com um cravo vermelho ao peito, falou do país, da liberdade e daquilo que considerava continuar por fazer.

“Temos de reinventar o espírito de Abril, sempre. Liberdade, justiça, democracia. Malta, mãos à obra, vamos fazer deste país uma coisa que merece ser, melhor. Viva o 25 de Abril, viva a Liberdade, viva a Democracia!”

Acabaria por ser uma das imagens públicas finais de um músico que nunca separou completamente as canções daquilo que pensava sobre o mundo.

Jorge Palma foi distinguido ao longo da carreira com vários prémios e condecorações. Recebeu, entre outros, a Medalha de Mérito Cultural da Cidade de Lisboa e foi feito Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Mas talvez a dimensão da obra se perceba melhor fora das distinções: nas músicas que continuaram a ser ouvidas muito depois de terem deixado de ser novidade.

Morreu aos 76 anos.

As canções, essas, já há muito tinham deixado de pertencer apenas a Jorge Palma.

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