Fábio Guerra participa no Europeu de jiu-jitsu depois do vice-campeonato nacional

Fábio Guerra participa no Europeu de jiu-jitsu depois do vice-campeonato nacional, conquistado em Abril deste ano.

Em abril, Fábio Guerra saiu do Campeonato Nacional de jiu-jitsu com uma medalha de prata. O resultado, alcançado no Seixal, teria valor em qualquer percurso desportivo. No seu caso, ganha ainda outra dimensão.

Aos 39 anos, o atleta natural de Estremoz pratica a modalidade há poucos meses. Pelo meio, concilia os treinos com a profissão de guarda prisional, a vida familiar e a responsabilidade de ser pai de três filhos.

Representante da Escola Nova União de Estremoz, sob a orientação do professor Bruno Martinho, Fábio Guerra foi vice-campeão nacional na categoria Master 2 – peso pesado. A competição realizou-se nos dias 11 e 12 de abril.

Agora, prepara-se para um desafio ainda maior. O PBJJF European Championship 2026 começa a 1 de agosto, em Sintra, e vai reunir atletas de vários países.

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Em entrevista ao Infocul.pt by ARDGlobal, Fábio Guerra falou sobre a rápida evolução na modalidade, a exigência da preparação e o equilíbrio necessário entre a família, a profissão e o desporto.

O atleta não esconde a ambição. Contudo, também não permite que o resultado final se sobreponha ao percurso que já construiu.

Representar Portugal e medir a evolução

A presença no Campeonato Europeu surge poucos meses depois da estreia de Fábio Guerra no jiu-jitsu. O vice-campeonato nacional aumentou as expectativas, mas também reforçou a vontade de continuar a aprender.

O atleta chega a Sintra com a intenção de competir pelo melhor resultado possível. Ainda assim, estabelece como primeira meta a representação do país e da academia.

“O principal objetivo passa por representar Portugal da melhor forma possível e testar-me ao mais alto nível europeu. Claro que entrar numa competição destas faz-nos sonhar com o pódio e com o título, mas acima de tudo quero fazer boas lutas, mostrar evolução e provar a mim próprio que o trabalho diário compensa. Ser vice-campeão nacional deu-me ainda mais motivação para continuar a crescer.”

A rapidez com que começou a apresentar resultados poderia ser explicada apenas por uma aptidão natural. No entanto, Fábio Guerra aponta sobretudo para o trabalho, a regularidade e a capacidade de transportar para o tatami a disciplina adquirida noutras áreas da vida.

Antes do jiu-jitsu, o desporto já ocupava um espaço importante na sua rotina. A musculação continua a fazer parte da preparação, depois de um período de maior dedicação ao bodybuilding.

“Acredito que muito se deve à disciplina, consistência e à mentalidade que já trazia do desporto e da vida profissional. Sempre fui muito dedicado à preparação física e quando entrei no jiu-jitsu encarei a modalidade com muito respeito e foco. Procuro aprender todos os dias, ouvir os treinadores e dar o máximo em cada treino. Os resultados acabam por surgir naturalmente quando existe dedicação.”

Entre o serviço prisional e o tatami

A vida profissional de Fábio Guerra está longe de permitir uma preparação tranquila. Enquanto guarda prisional na Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, enfrenta uma profissão exigente nos planos físico e emocional.

Os treinos surgem depois de dias marcados por tensão, responsabilidade e desgaste. Ainda assim, é precisamente no jiu-jitsu que encontra parte do equilíbrio necessário para enfrentar essa rotina.

“Não é fácil. A profissão de guarda prisional exige muito a nível físico e emocional. Há dias mais difíceis, maior desgaste mental e cansaço acumulado. Mas o desporto acaba também por ser uma válvula de escape. O jiu-jitsu ajuda-me a libertar o stress, a manter o equilíbrio emocional e a sentir-me mais focado. É cansativo conciliar tudo, mas quando fazemos algo de que gostamos, encontramos sempre forças.”

O treino não serve, por isso, apenas para preparar competições ou melhorar a condição física. É também um espaço onde consegue interromper o peso dos problemas profissionais.

Para Fábio Guerra, a prática desportiva sempre cumpriu essas duas funções. O corpo é trabalhado, mas a mente também encontra uma forma de reorganização.

“Sempre teve as duas vertentes. Claro que existe a preocupação física, a saúde e a imagem, mas para mim o desporto sempre foi também uma forma de equilíbrio emocional. Ajuda-me a ganhar disciplina, confiança e a lidar melhor com os desafios do dia a dia. O treino acaba por ser quase uma terapia.”

O jiu-jitsu entrou em casa através de Mel

O percurso de Fábio Guerra na modalidade começou fora do tatami e através da família. A primeira praticante foi Mel, a filha do meio, de sete anos.

Inicialmente, o pai limitava-se a acompanhar os treinos e a observar. A evolução da filha, os valores transmitidos pela escola e o ambiente vivido nas aulas acabaram por despertar-lhe a curiosidade.

“Começou muito por acompanhá-la. Ao início era apenas para apoiar e estar presente, mas com o tempo fui ganhando curiosidade pela modalidade. Via o ambiente, os valores transmitidos e a evolução dela, e isso despertou-me vontade de experimentar. Hoje acabou por se tornar uma paixão partilhada em família.”

Mel também já começou a dar os primeiros passos em competição. No Campeonato Nacional, alcançou o quarto lugar na categoria Mirim.

Entretanto, Mia, a filha mais velha, de 11 anos, seguiu o mesmo caminho. A influência da irmã e do pai levou-a igualmente para o jiu-jitsu.

A modalidade passou, assim, a ocupar um lugar especial na vida familiar. Contudo, Fábio Guerra admite que a serenidade demonstrada nos seus combates desaparece quando são as filhas a competir.

“Sem dúvida por elas. Quando somos nós a competir conseguimos controlar melhor as emoções e focar-nos no combate. Como pai, ver as filhas competir traz sempre outro nervosismo, porque queremos protegê-las e vê-las felizes. Mas ao mesmo tempo sinto muito orgulho por as ver crescer no desporto, ganhar confiança e aprender valores importantes.”

O apoio da esposa e dos três filhos tem sido essencial num percurso que obriga a reorganizar horários e a gerir ausências. Fora da profissão e do desporto, é precisamente junto da família que Fábio Guerra prefere estar.

“Sou uma pessoa muito ligada à família e aos amigos. Nos tempos livres gosto de estar com as minhas filhas, aproveitar momentos simples e descansar um pouco da rotina intensa. Também gosto de treinar, cuidar da saúde e manter uma mentalidade positiva. Valorizo muito a tranquilidade e o equilíbrio.”

Até quatro horas diárias de preparação

Com a aproximação do PBJJF European Championship 2026, a carga de trabalho aumentou. A preparação não fica limitada às sessões técnicas realizadas no tatami.

A condição física, a alimentação e a recuperação assumem uma importância decisiva. Fábio Guerra prevê dedicar várias horas diárias ao processo, ajustando o volume às diferentes fases da preparação.

“A preparação está a ser feita com muito foco. Inclui treinos técnicos de jiu-jitsu, preparação física, recuperação e atenção à alimentação. Em média devo dedicar entre duas a quatro horas por dia ao treino, dependendo da intensidade e da fase da preparação. Nesta fase todos os detalhes contam.”

O Campeonato Europeu representa a oportunidade de enfrentar adversários com maior experiência. Também permitirá perceber até onde pode chegar um percurso iniciado há tão pouco tempo.

Apesar da ambição assumida, Fábio Guerra recusa medir o sucesso exclusivamente através da classificação. Para o atleta, existe uma diferença clara entre perder um combate e falhar consigo próprio.

“Para mim, fracasso seria não dar o máximo de mim. Claro que todos os atletas entram para ganhar, mas competir num europeu já representa muito trabalho, dedicação e superação pessoal. Quero sair da competição com a sensação de que fiz tudo o que estava ao meu alcance. Se isso acontecer, independentemente do resultado, já será algo positivo.”

Não se trata de uma forma de diminuir a exigência. Pelo contrário. Fábio Guerra quer subir ao pódio, mas sabe que uma competição não apaga o trabalho anterior nem define, sozinha, o valor de um atleta.

“Não é apenas luta”

Ainda existe algum desconhecimento em torno do jiu-jitsu. Para quem acompanha a modalidade apenas de forma ocasional, os combates podem parecer dependentes da força física.

Fábio Guerra destaca uma realidade diferente. A técnica, a leitura do adversário e a capacidade de tomar decisões sob pressão assumem um papel determinante.

“O jiu-jitsu é uma modalidade muito completa, tanto física como mentalmente. Ensina disciplina, respeito, controlo emocional e resiliência. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, não é apenas luta; existe muita estratégia, técnica e inteligência envolvida. Além disso, melhora a condição física, a autoconfiança e ajuda bastante na gestão do stress.”

O atleta considera que essas características podem ajudar a modalidade a chegar a mais pessoas. O crescimento já é visível em Portugal, com a abertura de academias e o aumento da participação competitiva.

Além disso, o facto de poder ser praticado em diferentes idades permite que o jiu-jitsu não fique fechado num público específico.

“Sem dúvida. O jiu-jitsu tem crescido muito em Portugal e acredito que ainda vai crescer mais. Cada vez mais pessoas procuram modalidades que trabalhem não só o físico mas também a mente e os valores pessoais. Além disso, é um desporto inclusivo, que pode ser praticado por crianças, adultos e até pessoas mais velhas.”

Um Europeu no horizonte e uma década por imaginar

Organizado pela Portugal Brazilian Jiu-Jitsu Federation, o PBJJF European Championship 2026 começa a 1 de agosto, em Sintra.

A competição receberá atletas internacionais, numa disputa pelos títulos das diferentes categorias.

Fábio Guerra estará entre os participantes, levando consigo a Escola Nova União de Estremoz, o trabalho desenvolvido com Bruno Martinho e o apoio da família.

O Europeu poderá ser mais um momento importante. Contudo, o atleta não olha apenas para o resultado imediato. Quando projeta a vida daqui a uma década, os títulos aparecem, mas não ocupam o primeiro lugar.

“Daqui a 10 anos gostava de continuar saudável, ativo e ligado ao desporto. A nível pessoal, o mais importante será ver as minhas filhas felizes e realizadas. No desporto, gostaria de continuar a evoluir, conquistar mais títulos e talvez inspirar outras pessoas a começarem, independentemente da idade. A nível profissional, espero continuar a desempenhar o meu trabalho com dignidade e equilíbrio.”

Em poucos meses, Fábio Guerra passou de pai que assistia aos treinos da filha para vice-campeão nacional. A 1 de agosto, vai entrar numa competição europeia.

Em entrevista ao Infocul.pt by ARDGlobal, mostrou que a ambição de chegar ao pódio não se separa da família, da profissão e da vontade de continuar a superar-se.

O resultado ainda está por escrever. O percurso, esse, já diz muito sobre o atleta que Estremoz levará até ao tatami de Sintra.

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