Francisca Borges: talento, carisma e alma em palco

Francisca Borges: talento, carisma e alma em palco, num vendaval de felicidade que promete invadir a música portuguesa nos próximos anos.

No final de junho, entrei na Warner Music Portugal para assistir a um showcase de Francisca Borges. Já conhecia o seu trabalho, já a tinha entrevistado para o Infocul.pt e sabia que havia talento. Saí de lá com uma certeza bem maior.

Francisca Borges é uma artista de palco.

Não digo isto por simpatia, nem porque fica bem elogiar uma cantora que está a dar os primeiros passos. Digo-o porque foi aquilo que vi. Durante aquela atuação, fiquei genuinamente fascinado com a capacidade de uma jovem tão nova ocupar uma sala, agarrar as canções e entregá-las como se aquele lugar já lhe fosse familiar há muito tempo.

A idade percebe-se quando Francisca fala, sorri ou reage ao entusiasmo de quem a acompanha. Há nela uma frescura natural e uma alegria que ainda não foi contaminada pelas poses tantas vezes associadas à indústria musical.

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Depois começa a cantar. E tudo muda.

O palco mostrou-me outra Francisca

A entrevista que lhe fiz permitiu-me conhecer a cantora para lá das músicas. Falámos do percurso, da escrita, da forma como começou a assumir este sonho e do papel que a música ocupa na sua vida.

Francisca mostrou-se disponível, divertida e consciente do caminho que ainda tinha pela frente. Não encontrei uma jovem deslumbrada com os primeiros números, nem alguém convencido de que o sucesso já estava garantido.

Encontrei ambição, mas também pés assentes no chão.

Contudo, uma entrevista não nos mostra tudo. Podemos conhecer a história de um artista, compreender as suas referências e perceber de onde nasce determinada canção. Falta sempre aquilo que só o palco consegue revelar.

Foi isso que aconteceu naquele showcase. A Francisca que encontrei na Warner Music Portugal era mais intensa. Mais segura. Até maior.

Não porque tenha criado uma personagem diferente daquela com quem conversei. Pelo contrário. Pareceu-me que, em palco, algumas partes da sua personalidade ganharam finalmente espaço para aparecer sem qualquer contenção.

A ironia das letras tornou-se expressão. A emoção ganhou corpo. O humor deixou de estar apenas nas palavras e passou para a forma como comunicava com quem estava à sua frente.

Ela não estava ali apenas a cantar bem. Estava a contar-nos quem era.

Há coisas que não se ensinam

Uma editora pode criar condições. Pode investir numa boa produção, trabalhar a imagem, promover as canções e encontrar oportunidades.

Um artista também pode estudar, melhorar tecnicamente, aprender a controlar a respiração e ganhar confiança através da experiência.

Tudo isso conta. Seria injusto fingir o contrário. Porém, há coisas que ninguém consegue ensinar.

Francisca tem carisma.

É uma palavra muito usada, por vezes sem grande critério, mas neste caso não encontro outra que traduza tão bem aquilo que senti. Quando estava em palco, os olhos procuravam-na. Não por obrigação, nem porque as luzes indicavam onde deveríamos olhar.

Procuravam-na porque havia qualquer coisa a acontecer.

Francisca não precisou de exagerar os movimentos, de forçar uma confiança artificial ou de transformar cada música num exercício de dramatização. Estava confortável, comunicava e parecia divertir-se verdadeiramente com aquilo que fazia.

Há cantores tecnicamente irrepreensíveis que nos deixam indiferentes. Cumpriram tudo, cantaram todas as notas e, ainda assim, não nos levaram com eles.

Francisca levou-me.

Talvez seja isso a alma em palco. Aquela parte que não aparece nas fichas técnicas, não se mede em visualizações e dificilmente se consegue explicar através de uma publicação nas redes sociais.

Ou se sente, ou não se sente. Eu senti.

As canções encontram nela uma intérprete

Francisca Borges não vive apenas de uma boa presença. Tem canções que encaixam na sua personalidade e uma forma de escrever que mistura sentimentos, ironia e algum descaramento.

É uma combinação que lhe assenta bem.

Não existe a preocupação de parecer mais madura do que é, nem uma tentativa de tornar cada desgosto numa tragédia solene. Francisca consegue falar de relações, inseguranças e desilusões sem perder a capacidade de encontrar humor no meio delas.

Esse tom já estava presente nas gravações. Ao vivo, tornou-se ainda mais claro.

Ela não se limitou a repetir o que ouvimos nas plataformas digitais. Deu outra vida às músicas. Brincou com determinadas frases, mudou expressões e soube relacionar-se com o ambiente à sua volta.

Isso interessa-me especialmente.

Uma carreira não se constrói apenas com temas que funcionam nas redes sociais. É preciso conseguir defendê-los diante de pessoas reais, sem filtros, repetições ou possibilidade de editar o momento.

Francisca consegue.

O showcase não era um grande concerto, com milhares de pessoas predispostas a cantar cada refrão. Era uma apresentação mais próxima, num ambiente onde todos os detalhes ficam expostos.

Por vezes, estas atuações são até mais exigentes. Não existe a força de uma multidão a esconder hesitações. Cada gesto se vê, cada silêncio se sente e qualquer falta de presença se torna evidente.

Francisca não se perdeu nessa proximidade. Aproveitou-a.

Uma artista jovem, não uma artista menor

Quando surge um novo nome, há sempre uma pressa desnecessária em decidir imediatamente o seu lugar.

Ou estamos perante a próxima grande estrela, ou perante alguém que teve sorte com uma música. Ou se exagera tudo, ou se desvaloriza antes de existir tempo suficiente para observar.

Não me interessa colocar Francisca Borges em nenhuma dessas caixas.

É jovem e está no início. Isso não diminui aquilo que já demonstrou, nem obriga a tratá-la como um projeto ainda sem valor artístico.

Ao mesmo tempo, seria absurdo exigir-lhe agora uma carreira totalmente definida, como se aos primeiros passos já tivesse de saber exatamente quem será daqui a cinco ou dez anos.

Francisca deve ter espaço para crescer, testar e até enganar-se.

Aliás, espero que o faça.

Que experimente sons diferentes, que escreva canções inesperadas e que, em determinados momentos, arrisque sair daquilo que parece mais seguro. Uma artista só descobre verdadeiramente a sua identidade quando deixa de tentar cumprir todas as expectativas.

O essencial já existe.

Existe uma voz reconhecível, uma forma própria de escrever e, como confirmei naquele showcase, uma presença que transforma as canções quando chegam ao palco.

O resto constrói-se.

O que vi na Warner não se esquece facilmente

Há atuações que terminam quando acaba a última música. Aplaudimos, conversamos durante alguns minutos e seguimos a vida sem voltar a pensar demasiado no assunto.

Não foi isso que aconteceu comigo.

Dias depois, continuava a recordar a segurança de Francisca, a forma como interpretou os temas e, acima de tudo, a naturalidade com que ocupou aquele espaço.

Não parecia estar a cumprir uma apresentação preparada pela editora. Parecia estar a fazer aquilo para que sempre caminhou, mesmo antes de ter coragem para o assumir totalmente.

A entrevista mostrou-me a pessoa. O showcase apresentou-me a artista de uma forma ainda mais completa.

E gostei muito do que vi. Francisca Borges tem talento, mas o talento, por si só, nunca explica tudo. Tem também carisma, identidade e aquela alma que faz a diferença quando as luzes se acendem e já não há lugar onde esconder inseguranças.

Ainda haverá muito trabalho. Haverá nervos, dúvidas e palcos onde as coisas talvez não corram exatamente como imaginou. Isso pertence à vida de qualquer artista.

Mas quem consegue fascinar numa sala mais pequena pode, com tempo e crescimento, chegar muito mais longe.

Francisca ainda é uma miúda. Em palco, porém, já sabe perfeitamente como se fazer ouvir.

E isso nenhuma editora consegue fabricar.

Fotografia: Francisca Borges – Instagram

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