José Gonçalez: entre o sucesso de Em Casa d’Amália e a identidade do Caixa Alfama, há méritos que merecem ser destacados.
José Gonçalez irrita-me. Às vezes, bastante. Depois, divirto-me por me irritar.
Também é verdade que eu o provoco. Já discordámos vezes sem conta, trocámos opiniões divergentes – outras tantas convergentes diga-se – e continuaremos, certamente, a olhar de forma diferente para algumas coisas. Não aprecio tudo o que faz, nem tenho qualquer intenção de fingir o contrário para tornar este texto mais bonito.
Ainda assim, seria desonesto não reconhecer os muitos méritos do trabalho que tem apresentado ao longo dos anos.
José sabe pensar projetos. Sabe defendê-los, fazê-los crescer e dar-lhes continuidade. Num meio onde tantas ideias desaparecem depois do entusiasmo inicial, essa capacidade não é pequena.
Em Casa d’Amália é a melhor prova disso.
Muito mais do que um programa sobre Amália
A ideia podia ter ficado presa à saudade. Podia ter resultado num programa carregado de homenagens previsíveis, fotografias antigas e convidados a repetirem histórias já contadas inúmeras vezes.
Não aconteceu.
Em Casa d’Amália nasceu inspirado nas tertúlias que Amália Rodrigues promovia na sua casa, mas encontrou uma identidade própria. José Gonçalez percebeu que não valia a pena tentar reproduzir um tempo que já não existe. Era mais importante recuperar o espírito daqueles encontros.
A conversa descontraída, a música sem grandes cerimónias, as histórias e o cruzamento entre diferentes gerações tornaram-se o coração do formato.
Ao longo das temporadas, passaram pelo programa fadistas, músicos, atores e outras figuras da cultura portuguesa. Nem todos chegaram pelo mesmo caminho, nem todos cantam da mesma forma. É precisamente aí que o programa ganha interesse.
José não está sentado naquele espaço apenas para apresentar o próximo convidado ou anunciar mais um tema. Conhece o fado, conhece muitas das pessoas que recebe e percebe o peso de determinadas histórias.
Por vezes, entusiasma-se mais do que eu gostaria. Noutras, deixa a emoção tomar conta da conversa. Mas também é isso que impede Em Casa d’Amália de parecer um produto televisivo frio, feito por alguém que apenas recebeu um alinhamento antes de entrar em estúdio.
O programa tem a sua impressão digital.
E tem resultados. Em Casa d’Amália venceu o Prémio Autores 2024, da Sociedade Portuguesa de Autores, na categoria de Melhor Programa de Entretenimento. A autoria é de José Gonçalez.
Esse reconhecimento não explica sozinho o sucesso. O mais relevante é a permanência. O formato regressou, renovou convidados e continuou a encontrar público sem perder aquilo que o tornou reconhecível.
A Casa saiu da televisão
Em Casa d’Amália podia ter ficado na RTP1 e já teria cumprido um percurso respeitável.
José quis mais.
O formato saiu do ambiente televisivo habitual e passou para Em Casa d’Amália ao Vivo. A mudança parecia simples, mas não era. Uma coisa é gravar uma conversa num espaço controlado, onde a proximidade faz parte do cenário. Outra é levar esse conceito para um palco, diante de uma plateia maior, sem o transformar numa sucessão de atuações desligadas.
A Casa teve de crescer sem deixar de parecer uma casa.
O espetáculo ao vivo manteve a conversa, as histórias, a cumplicidade e a reunião de artistas. Mudou a dimensão, não abandonou a essência.
Este formato encontrou espaço em festivais, cidades e emissões especiais. O público deixou de assistir apenas através do ecrã e passou a fazer parte daquele ambiente. A televisão, por sua vez, ganhou um espetáculo com outra energia.
Depois surgiu uma nova evolução: o concerto.
Não apenas um programa gravado diante de público, mas um espetáculo pensado para circular por salas e levar aquele universo a diferentes pontos do país. Em 2025, foi anunciada uma digressão nacional de Em Casa d’Amália.
Convém perceber o que isto representa.
José Gonçalez pegou numa ideia televisiva e conseguiu dar-lhe várias vidas. Há o programa intimista, o espetáculo televisivo ao vivo e o concerto pensado para palco. São formatos próximos, mas não são a mesma coisa. Cada um exige ritmos, escolhas e formas diferentes de comunicar com o público.
Quando um conceito consegue sobreviver a todas essas mudanças, deixa de ser apenas um programa. Torna-se uma marca.
Em Casa d’Amália já chegou a esse ponto.
Amália continua a ser o centro emocional de tudo, como não podia deixar de ser. Porém, o projeto não vive apenas do seu nome. Caso contrário, teria perdido força depois das primeiras emissões.
Sobrevive porque existe uma ideia artística por detrás, porque os convidados mudam e porque José consegue criar encontros que fazem sentido para lá da homenagem.
O programador que também merece ser avaliado
O trabalho de José Gonçalez não termina quando as câmaras se desligam.
Há o José apresentador, o fadista e o autor. Mas existe também o programador e diretor artístico, funções que desempenha no Caixa Alfama.
É uma área menos visível para o público. Quem compra bilhete vê o cartaz pronto. Não vê as conversas, as recusas, as alterações de horários, as exigências técnicas, os equilíbrios financeiros e todas as decisões que ficam pelo caminho.
Programar um festival não é escolher os nomes de que mais gostamos. Curiosamente, em tantos anos, acho que nunca lhe perguntei isso, se escolhia apenas os artistas que mais gostava. Talvez o faça este ano, sempre é mais uma oportunidade de o provocar.
É necessário pensar no público, respeitar a identidade do evento, cruzar gerações e perceber quem merece determinada dimensão. Há ainda que conjugar artistas consagrados com vozes mais recentes, sem transformar os novos nomes em simples decoração de cartaz.
Nem sempre concordo com as escolhas do José.
Já questionei ausências, destaques e opções de programação. Voltarei a fazê-lo quando considerar necessário. Não seria eu caso passasse agora a aplaudir tudo apenas porque decidi escrever um artigo elogioso.
Contudo, o Caixa Alfama tem uma linha reconhecível e manteve-se, ao longo dos anos, como um dos principais encontros dedicados ao fado. As edições realizadas cruzaram nomes históricos, artistas consolidados e novas vozes, distribuídos por diferentes espaços do bairro.
A edição de 2025, por exemplo, reuniu nomes como Gisela João, Kátia Guerreiro, Marco Rodrigues, Rão Kyao, Alexandra, Hélder Moutinho e Pedro Moutinho. Entre muitos outros nomes, com destaque para a homenagem a Maria da Fé.
O Caixa Alfama 2026 está marcado para 11 e 12 de setembro, em Lisboa. O cartaz anunciado inclui Carminho, Raquel Tavares e uma edição de Em Casa d’Amália ao Vivo dedicada a Rodrigo, entre vários outros nomes. Destaque também – entre outros nomes – para Gonçalo Salgueiro.
Portanto, ainda não é possível avaliar o resultado desta edição. É possível, isso sim, reconhecer o trabalho de preparação e discutir as escolhas já conhecidas.
É isso que faço. Já o congratulei pelo cartaz deste ano.
Elogiar não significa concordar com tudo
Tenho cada vez menos paciência para a ideia de que só podemos elogiar pessoas com quem concordamos sempre.
Isso não é reconhecimento. É devoção.
José Gonçalez não precisa que eu transforme o seu percurso numa sucessão de decisões perfeitas. Também não precisa que eu apague as vezes em que me irritou.
Os méritos existem precisamente sem essa maquilhagem.
Em Casa d’Amália tornou-se um dos projetos musicais mais reconhecíveis da televisão pública. Saiu do estúdio, encontrou público ao vivo e ganhou uma dimensão de concerto. O Caixa Alfama manteve uma identidade ao longo de várias edições e continua a obrigar diferentes gerações do fado a partilharem o mesmo bairro.
Nada disto nasceu de um golpe de sorte.
Houve visão, persistência e uma capacidade pouco comum para transformar uma ideia num projeto duradouro.
José acredita profundamente naquilo que faz. Por vezes, até em excesso. Defende as suas escolhas com uma convicção que pode tornar qualquer conversa mais difícil do que seria necessário.
Eu sei. Mas prefiro alguém que assume uma visão e aceita responder por ela do que um diretor artístico preocupado apenas em evitar críticas.
José Gonçalez não inventou o fado, não é dono da memória de Amália e não acerta em todas as decisões.
Fez, porém, uma coisa que merece ser reconhecida: encontrou novas formas de reunir pessoas em torno dessa memória e dessa música, sem as fechar num lugar onde apenas caberia o passado.
Levou Em Casa d’Amália à televisão, às cidades e aos palcos. Transformou o Caixa Alfama no maior festival de Fado que o mundo conheceu e conhece.
Pode irritar-me algumas vezes pelo caminho. O mérito, esse, fica. E ao fim de tantos anos apeteceu-me assinalar em texto. Parabéns, José. Até à próxima picardia.
Fotografia: Carlos Pedroso – Infocul.pt
