Na Nazaré, a tradição não veste de cinzento e prova que a tauromaquia pode ser doce, desde que a vejamos com o coração, a razão e claro, o sempre necessário bom senso.
Fotografia: Diogo Nora
Texto: Rui Lavrador
A Praça de Touros do Sítio da Nazaré acolheu, este sábado, a terceira corrida da temporada, com casa esgotada pela primeira vez este ano. Frente a touros de Manuel Veiga, atuaram João Moura Caetano, Marcos Bastinhas e João Ribeiro Telles, com as pegas entregues aos grupos de forcados amadores de Montemor e Portalegre.
A lotação esgotada trouxe à Nazaré o ambiente que lhe é tão próprio. Festa, alegria, bancadas participativas e um público disposto a entregar-se ao espetáculo, mas sem deixar a exigência à porta. Porque uma coisa não invalida a outra.
O público tauromáquico é, maioritariamente, conservador e há quem continue a encarar esse conservadorismo como uma espécie de obrigação de sisudez permanente. Como se defender a tradição implicasse ser triste por natureza. Não implica. O conservadorismo também pode ser vivido com alegria e, na Nazaré, essa alegria quase faz parte do regulamento da casa.
Isso não significa, contudo, falta de exigência. O conclave nazareno sabe festejar, mas também sabe aquilo que quer ver em praça.
Os touros de Manuel Veiga cumpriram na apresentação, tendo em conta as características do tauródromo, mas ficaram aquém do desejável no comportamento. Houve diferentes graus de colaboração ao longo da corrida, obrigando os cavaleiros a encontrarem soluções distintas para problemas igualmente distintos.
Moura Caetano: o Príncipe do Temple trocou a seda pela armadura
João Moura Caetano abriu praça diante de um touro com 520 quilos. Começou montando o Pidal e passou posteriormente para o Gallo, numa lide que nunca encontrou verdadeira fluidez.
O touro mostrou-se áspero, com arreões e pouca disponibilidade, circunstâncias que também impediram o cavaleiro de se entregar por completo. Caetano nunca se fiou verdadeiramente no adversário e a atuação acabou por ser cumpridora, mas distante daquilo que a sua valia permite esperar.
O Príncipe do Temple, desta vez, teve de guardar alguma seda e vestir a armadura. Esteve, digamos, em modo guerreiro balcânico.
António Raimundo, pelos Amadores de Montemor, concretizou a pega à segunda tentativa.
Na segunda passagem pela arena, Moura Caetano encontrou um touro mais colaborante e pôde regressar a terrenos que reconhecemos melhor no seu toureio. Montando o Campo Pequeno, apresentou uma atuação mais estética, pausada e templada, destacando-se três bandarilhas curtas de bom recorte.
Terminou com um ferro a sesgo, fechando uma lide bastante mais próxima do seu timbre artístico.
Filipe Rodrigues, pelos Amadores de Portalegre, resolveu a pega à primeira tentativa.
Bastinhas é rei onde não existe monarquia
Se a Nazaré fosse uma monarquia, Marcos Bastinhas seria rei.
É difícil encontrar outra forma de explicar a relação entre o cavaleiro de Elvas e as gentes desta terra. Basta surgir nas cortesias para perceber que existe ali qualquer coisa que ultrapassa a mera preferência por um toureiro. Há afeto, identificação e uma espécie de pacto não escrito entre as bancadas e quem entra na arena.
Na primeira lide, Bastinhas teve pela frente um touro áspero, que se adiantava bastante nas reuniões, investia de cara alta e nunca humilhava, obrigando a uma atenção redobrada.
Ainda assim, deixou dois ferros compridos de qualidade superior e um primeiro curto extraordinário, num momento em que conseguiu vencer as dificuldades colocadas pelo touro e impor a sua conceção de lide. Terminou com adornos e cites em piruetas, aclamado pelo seu povo.
Daniel Ameixa concretizou a pega à terceira tentativa.
No segundo touro, o problema era outro. O astado tinha muitas crenças em tábuas e Marcos Bastinhas precisou de porfiar para conseguir construir a lide. Não havia matéria fácil à disposição e foi necessário ir atrás dela.
Bastinhas deu a volta à situação com classe, insistência e a irreverência que também faz parte da sua identidade. E fê-lo no seu trono tauromáquico predileto, perante um público que voltou a aclamá-lo com a mesma convicção com que, há não muito tempo, meio mundo correu atrás do chocolate do Dubai.
A analogia, desta vez, quase se escreveu sozinha.
Marcos apresentou-se com uma casaca verde pistácio e o célebre chocolate leva precisamente pasta de pistácio. Na Nazaré, porém, a receita já é antiga: o público dá-lhe afeto, Bastinhas devolve alegria e a relação continua suficientemente doce para não precisar de açúcar acrescentado.
Bernardo Batista, pelos Amadores de Montemor, concretizou a pega à terceira tentativa.
João Ribeiro Telles manda na investida e assina os melhores momentos
João Ribeiro Telles deixou uma extraordinária primeira atuação e alguns dos momentos artisticamente mais completos da corrida.
Começou a dar sinais logo na ferragem comprida, mas foi nos três primeiros ferros curtos que elevou claramente o nível da lide. Telles mudou sucessivamente os terrenos ao touro, provocou-lhe a arrancada a partir de três pontos distintos e soube mandar na investida antes de reunir a preceito.
Foram três cravagens de enorme valia, com reunião ajustada e saída a rematar, num exercício onde a técnica apareceu ao serviço da expressão artística e não como simples demonstração de recursos.
Terminou com um ferro em sorte de violino, conseguido à segunda tentativa.
Manuel Carolino, pelos Amadores de Montemor, concretizou a pega à terceira tentativa.
Na segunda lide, Telles encontrou um touro menos colaborante e teve necessariamente de alterar a abordagem. Não repetiu a fórmula anterior, porque o touro também não o permitia, mas voltou a evidenciar maturidade e inteligência na forma como interpretou aquilo que tinha pela frente.
Foi uma atuação positiva, construída com outro desenho, mas novamente reveladora da consistência que João Ribeiro Telles vem colocando na sua conceção artística.
Ricardo Almeida, pelos Amadores de Portalegre, concretizou a última pega da noite à primeira tentativa.
Na Nazaré, a tradição não precisa de estar de cara fechada
A terceira corrida da temporada nazarena ficou, assim, marcada mais pelo ambiente e por momentos individuais de bom toureio do que pelo comportamento global dos touros.
João Moura Caetano teve de começar como guerreiro antes de conseguir regressar ao seu temple. João Ribeiro Telles mostrou inteligência, mando e qualidade, sobretudo numa primeira lide de grande nível. E Marcos Bastinhas confirmou que, na Nazaré, entra em praça com uma coroa que ninguém lhe colocou na cabeça, mas que as bancadas insistem em reconhecer-lhe.
No final, ficou também uma ideia que talvez a própria Nazaré explique melhor do que muitas teorias sobre a Tauromaquia: tradição e alegria nunca foram incompatíveis. Ali, o conservadorismo não obriga ninguém a vestir de cinzento. Desta vez, até apareceu de verde pistácio. E como escreveu o cardeal Tolentino Mendonça, saibamos valorizar a arte da alegria na nossa vida.
