Calema transformam O Sol da Caparica num encontro de gerações ao som da lusofonia, na noite de sexta-feira.
Fotografias: Rui Pereira

Há nomes num cartaz que dispensam grandes apresentações e os Calema pertencem hoje claramente a esse grupo. Fradique e António Mendes Ferreira chegaram esta sexta-feira, 14 de agosto, ao palco principal d’O Sol da Caparica como um dos momentos mais aguardados do segundo dia e encontraram um festival particularmente ajustado àquilo que a dupla representa: música em português, diferentes geografias e um público que já atravessa várias gerações.
Depois da eletrónica de Rich & Mendes e das canções de João Pedro Pais, a noite ganhou outra dimensão com a entrada dos irmãos são-tomenses, num dia em que o Palco Via Verde ainda receberia Mizzy Miles e Veigh. A presença dos Calema tinha sido uma das últimas confirmações para o cartaz da 11.ª edição do festival.

Uma relação com Portugal que já não precisa de ser explicada
O percurso dos Calema há muito deixou de caber apenas na definição de fenómeno da música lusófona. A ligação ao público português foi crescendo concerto após concerto, ao mesmo tempo que a dupla foi alargando fronteiras e construindo uma carreira internacional sem perder a identidade que a tornou reconhecível.

É também isso que se sente quando Fradique e António sobem a um palco como o d’O Sol da Caparica. As canções podem nascer de histórias pessoais, de relações, de encontros ou despedidas, mas rapidamente deixam de lhes pertencer quando chegam a uma plateia que sabe os refrões e os devolve aos dois irmãos.
A mistura entre pop, ritmos de matriz africana e uma escrita que vive muito das emoções continua a ser uma das marcas dos Calema. Em palco, essa fórmula ganha outra força porque não existe apenas para ser ouvida. Foi construída, ao longo dos anos, para ser cantada em conjunto.

Da intimidade das canções à dimensão dos grandes palcos
O concerto na Costa da Caparica surge numa fase em que os Calema vivem confortavelmente na escala dos grandes espetáculos. A dupla tem levado a Tour Origem a diferentes mercados internacionais e, em junho, passou pelo Estádio Municipal de Braga, depois de uma agenda que incluiu atuações no Canadá, Estados Unidos e França.

É uma dimensão muito diferente daquela dos primeiros passos da carreira, mas sem uma rutura com o essencial. Fradique e António continuam a trabalhar a proximidade, alternando os momentos mais festivos com aqueles em que a melodia e as vozes ficam no centro.
Nos últimos trabalhos, essa procura continuou a passar pelo cruzamento com outros artistas e outras sonoridades. No repertório recente encontram-se colaborações com nomes como Dilsinho e Sara Correia, além do universo construído em torno de Voyage.

O Sol da Caparica encontra nos Calema parte da sua própria identidade
A escolha da dupla para esta sexta-feira também ajuda a explicar aquilo em que O Sol da Caparica se tornou. O festival continua a ter a língua portuguesa como ponto de encontro, mas essa língua chega ao Parque Urbano através de percursos, sotaques e referências muito diferentes.

Os Calema encaixam naturalmente nessa ideia. Nasceram em São Tomé e Príncipe, construíram uma parte decisiva da carreira em Portugal e projetaram-se para outros territórios sem abandonarem as raízes. Num festival que procura precisamente reunir as várias geografias da música em português, poucos nomes representam essa circulação de forma tão evidente.

O resultado, nesta sexta-feira, foi um concerto com dimensão de celebração. Não apenas pela sucessão de canções conhecidas, mas pela facilidade com que os dois irmãos conseguem transformar uma atuação de festival num encontro entre quem está no palco e quem está do outro lado.

Depois de João Pedro Pais ter convocado a memória de várias décadas da música portuguesa, os Calema mostraram outra fotografia do presente: a de uma música lusófona que deixou de reconhecer fronteiras e que encontra, na Costa da Caparica, um dos seus grandes pontos de encontro durante o verão.

