Carlos Castro: série revela últimas palavras e data da possível liberdade de Renato Seabra

Carlos Castro: série revela últimas palavras e data da possível liberdade de Renato Seabra, da prisão dos EUA.

As últimas palavras de Carlos Castro, a confissão prestada por Renato Seabra e a possibilidade de uma futura liberdade condicional foram reveladas na série Portugal Criminal, emitida pela SIC no domingo, 23 de agosto. O episódio reconstruiu o homicídio ocorrido a 7 de janeiro de 2011, em Nova Iorque, e recuperou também testemunhos de amigos do cronista.

Renato Seabra foi condenado nos Estados Unidos a uma pena de 25 anos de prisão a prisão perpétua. A primeira audiência para analisar um eventual pedido de liberdade condicional está prevista para setembro de 2035.

Renato Seabra contou como começou a discussão

Carlos Castro morreu no quarto 3416 do Hotel Intercontinental, onde se encontrava com Renato Seabra, então com 21 anos. Segundo a série, os dois mantinham “uma relação íntima”.

O inspetor Rick Tirelli revelou o conteúdo da confissão prestada pelo antigo modelo após o crime.

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“Disse que nunca tinham tido uma discussão antes deste incidente. Mas, naquele momento, algo se apoderou dele. Começou a ter dúvidas e muitas questões sobre si próprio, sobre se ainda era homossexual ou se queria continuar a sê-lo. Acabaram por discutir, ele queria ir para casa”, relatou.

Segundo o investigador, a discussão evoluiu para uma agressão física.

“Nesse momento, aproximou-se por trás, agarrou-o por trás, e começou a estrangulá-lo por trás. Derrubou-o com tanta força que, quando o Sr. Castro caiu no chão, disse: ‘Partiste-me o braço, partiste-me o braço’”, afirmou Rick Tirelli.

Estas terão sido as últimas palavras de Carlos Castro.

Inspetor descreveu agressões dentro do quarto

De acordo com o relato apresentado na série, Renato Seabra utilizou um saca-rolhas para agredir o cronista.

“Foi buscar um saca-rolhas e começou a esfaqueá-lo com ele repetidamente”, contou o inspetor.

A agressão incluiu ainda mutilações, pontapés e pancadas com um monitor de computador. Segundo Rick Tirelli, Renato cortou posteriormente os próprios pulsos, tomou banho, vestiu-se e abandonou o hotel.

O investigador explicou que o antigo modelo descreveu o episódio como prolongado e apresentou uma interpretação associada às dúvidas que dizia sentir sobre si próprio.

“Ele disse que tudo aquilo durou cerca de uma hora, uma hora e meia, em que o espancou e o torturou. Ele sentia que já não queria ser homossexual e que tinha demónios dentro de si, e que a única forma de se livrar desses demónios era fazer aquilo ao Sr. Castro. Foi algo horrível, o local do crime era terrível”, afirmou.

As declarações foram apresentadas como parte da versão relatada pelo arguido ao investigador e não afastaram a sua responsabilização criminal.

Relação começou depois de contacto no Facebook

A série Portugal Criminal recuou também aos meses anteriores ao homicídio para explicar como Carlos Castro e Renato Seabra se conheceram.

Em 2010, o jovem de Cantanhede participou no programa À Procura do Sonho, da SIC, experiência que despertou o seu interesse pelo mundo da moda.

Segundo a investigação apresentada na série, Carlos Castro adicionou Renato Seabra no Facebook e enviou-lhe uma mensagem em outubro desse ano. O jovem procurava conselhos para desenvolver uma carreira como modelo.

“Vou ao Porto, ao Portugal Fashion. Estás por perto? Acho-te giro e és altíssimo”, escreveu o cronista.

Seis dias depois do primeiro contacto, os dois encontraram-se no Hotel Sheraton, no Porto.

De acordo com a versão posteriormente apresentada por Renato Seabra, o encontro começou no átrio do hotel e prosseguiu no quarto de Carlos Castro, que pretendia oferecer-lhe um dos seus livros.

A série descreveu esse momento da seguinte forma: “De acordo com o que Renato viria a contar mais tarde, os dois estiveram cerca de 10 minutos no lobby e sobem depois ao quarto do cronista, que queria oferecer um dos seus livros ao jovem. Carlos beija Renato e pergunta-lhe se está tudo bem”.

Segundo o relato atribuído ao antigo modelo, Renato terá ficado surpreendido e optado por não reagir, receando perder o apoio de Carlos Castro no meio da moda. Esta versão corresponde ao testemunho posteriormente apresentado pelo próprio.

Amigos recordam conversas sobre a morte

O episódio reuniu também declarações de pessoas próximas de Carlos Castro, que recordaram a relação especial do cronista com Nova Iorque e as conversas que mantinha sobre a morte.

Fernanda Dias explicou que a cidade ocupava um lugar central na vida do amigo.

“Nova Iorque sempre foi a cidade dele e ele sempre disse, de facto, que gostava de morrer em Nova Iorque. Ele falava muito na morte, como é que iria morrer, o que é que as pessoas se iriam lembrar dele”, afirmou.

Abel Dias recordou que o assunto surgia frequentemente nas conversas entre ambos.

“O tema morte, até porque tivemos vários amigos que morreram de várias maneiras: uns assassinados, no caso dos homossexuais, outros por causa da SIDA, e, portanto, o Carlos achava sempre que um dia, se calhar, a morte dele também era uma coisa parecida, porque ele metia-se por sítios que era difícil de andar. Metia-se com gente que não conhecia muito bem e arriscava”, contou.

A série acrescentou que Carlos Castro já tinha abordado publicamente esse receio.

“Dez anos antes, Carlos Castro já havia dito numa entrevista que sabia que ia morrer assassinado. Em 2010, voltou ao tema e disse: ‘Morro em Nova Iorque’”, referiu a produção.

Último desejo estava escrito na autobiografia

Cláudio Montez recordou igualmente declarações feitas pelo cronista antes da viagem aos Estados Unidos.

“Ultimamente ele falava muito na morte. Aliás, os 65 anos que ele comemorou num restaurante em Lisboa foi no sentido de ser o último aniversário dele”, afirmou.

Na autobiografia Solidão Povoada, publicada em 2007, Carlos Castro tinha deixado registado o desejo de ser cremado e de permanecer simbolicamente ligado a Nova Iorque.

“Quando morrer quero ser cremado, as minhas cinzas atiradas pela ruas da Broadway, em Nova Iorque. E não me perguntem porquê”, escreveu.

Segundo a série da SIC, as cinzas do cronista foram posteriormente lançadas em Times Square.

Liberdade condicional poderá ser analisada em 2035

Renato Seabra foi condenado em dezembro de 2012 a uma pena de 25 anos de prisão a prisão perpétua.

A primeira audiência para avaliar uma eventual liberdade condicional está prevista para setembro de 2035.

Caso o pedido seja aceite, o antigo modelo poderá sair da prisão a partir de 3 de janeiro de 2036, depois de cumprir a pena mínima de 25 anos.

A série esclareceu, contudo, que essa possibilidade não representa uma libertação garantida.

“Se lhe for concedida, poderá sair a partir do dia 3 de janeiro de 2036, quando cumprir a pena mínima de 25 anos. Mas os pedidos de liberdade condicional podem ser recusados até ao fim da vida de Renato Seabra”, informou a produção.

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