Caixa Alfama: Rodrigo mostrou que a obra continua viva e Fábio Ourique foi a voz que Lisboa não viu chegar, na noite de ontem.
Texto: Rui Lavrador
Fotografia: Alfredo Matos
“A primeira vez que disse ao meu pai que gostava de fado e queria ser fadista, ele ia-me matando. E era polícia.”
Rodrigo contou a história com a graça de quem já a repetiu algumas vezes e sabe exatamente onde está o remate. Contudo, por detrás do episódio divertido, há uma realidade que ajuda a compreender o tamanho da sua caminhada. Naquele tempo, anunciar em casa que se queria cantar fado não era propriamente apresentar um projeto de vida capaz de sossegar uma família.
O pai não queria. Rodrigo quis.
Décadas mais tarde, estava no Palco Caixa, diante de uma plateia cheia, a receber uma homenagem integrada no Em Casa d’Amália ao Vivo. À sua volta, algumas das melhores vozes do país cantavam para ele e com ele. Não para recordar uma figura afastada dos palcos, mas para celebrar um fadista vivo, bem-disposto, ainda capaz de pegar num tema e ensinar que a verdade de uma interpretação não se mede apenas pela juventude da voz.
A noite pertenceu-lhe. Tinha de pertencer.

Uma obra que nunca virou as costas ao povo
Rodrigo nasceu na Graça, em Lisboa, a 29 de junho de 1941. Começou por integrar Os Cinco Reis aos 18 anos, aproximou-se depois do fado amador e tornou-se profissional em 1975. Pelo meio e depois disso, fez uma carreira longa, popular e muito mais rica do que a memória apressada permite perceber.
Há quem o associe sobretudo a Coentros e Rabanetes, canção que ganhou uma vida própria e chegou a públicos muito para lá das casas de fado. Mas Rodrigo não cabe num tema, nem sequer numa das várias gavetas em que tantas vezes se tenta arrumar os artistas populares.
A sua discografia passou pelo humor, pela saudade, pelas figuras das ruas de Lisboa, pela tauromaquia e por uma dimensão social e interventiva que merece ser recuperada. Eu Sou Povo e Canto Esperança, Nada É Pobre Quando É Povo e Não me Importa a Cor da Pele são títulos que dizem bastante sobre um fadista atento ao mundo e às pessoas do seu tempo. A Última Tourada Real em Salvaterra, Meu Desejo Sobre o Mar ou Cais do Sodré mostram outros lados de uma obra extensa, construída a partir de poetas populares e de uma maneira muito direta de comunicar.
Rodrigo nunca precisou de complicar o fado para lhe dar importância. Cantou para as pessoas e as pessoas perceberam-no. Sem traduções, sem pose e sem aquela distância afetada que transforma uma expressão popular num objeto para especialistas.
É também por isso que permanece.
Lisboa deu-lhe a origem. Cascais acolheu-o há várias décadas e fez dele o seu fadista. Durante 31 anos, o Forte D. Rodrigo foi uma casa de fado, mas também um lugar onde se cruzaram artistas, públicos e histórias. Rodrigo construiu ali uma parte importante da sua vida e ajudou a manter o fado ligado à noite, ao convívio e à proximidade com quem o escuta.
Em 2012, recebeu a Medalha Municipal de Mérito, Grau Ouro, da cidade de Lisboa. Uma distinção justa, embora nenhuma medalha consiga resumir a dimensão de uma carreira que já atravessou mais de seis décadas.
No Caixa Alfama, não foi preciso enumerar tudo isto. A obra falou através das canções.

José Gonçalez não deixou a homenagem cair na cerimónia
Levar Em Casa d’Amália para um palco daquela dimensão não é apenas aumentar o cenário e colocar mais cadeiras. O formato nasceu da ideia das tertúlias que Amália Rodrigues promovia em sua casa, na Rua de São Bento, onde a conversa, a música e as histórias conviviam sem uma estrutura rígida à vista.
No Palco Caixa, José Gonçalez conseguiu preservar esse ambiente sem deixar que o espetáculo perdesse ritmo.
Mostrou desenvoltura na condução, segurança perante os convidados e, acima de tudo, conhecimento daquilo que estava a tratar. Não se limitou a anunciar nomes e canções. Abriu espaço para Rodrigo falar, puxou pelas memórias certas e fez as passagens entre os diferentes momentos sem transformar a noite numa cerimónia enfadonha.
José sabe receber. Parece uma coisa simples, mas é uma das tarefas mais difíceis num espetáculo em que o apresentador tem de estar presente sem querer ser a figura central. Deu contexto, provocou conversa e soube afastar-se quando chegava a hora de ouvir cantar.
Também se percebeu o crescimento que tem tido enquanto rosto do projeto. Está mais solto, reage melhor ao que acontece e já não precisa de se agarrar a uma estrutura demasiado visível. O conhecimento do meio dá-lhe confiança. A relação com os artistas faz o resto.
A casa era de Amália, a noite era de Rodrigo e José Gonçalez soube manter a porta aberta.

Camané cantou Rodrigo sem tentar imitá-lo
Camané entrou em Esquina de Rua com aquela forma tão sua de apertar as palavras até lhes encontrar outra dor. Não imitou Rodrigo nem tentou aproximar artificialmente a interpretação da versão que o público pudesse ter na memória.
Fez melhor: respeitou o tema e cantou-o como Camané.
Mais tarde, voltou com O Velhinho Fado Alfacinha e Saudades Trago Comigo. Três interpretações nas quais mostrou por que razão continua a ser uma das referências maiores do fado português. Camané não precisa de levantar a voz para dominar um espaço. Trabalha por dentro, mexe no tempo das frases e deixa os versos ligeiramente suspensos antes de os fazer cair.

É um intérprete que nunca parece interessado em exibir o que sabe fazer. Canta. E, quando canta assim, obriga o público a aproximar-se dele.
Numa homenagem, esse respeito pelo próprio estilo é essencial. Rodrigo não precisava de cópias. Precisava de artistas capazes de entrar nas suas canções e encontrar nelas alguma coisa de verdadeiro. Camané encontrou.

Kátia Guerreiro deu voz a uma Lisboa ferida
Kátia Guerreiro interpretou À Janela do Meu Peito com a clareza, a segurança e o cuidado com a palavra que fazem parte da sua identidade. A voz encheu o Palco Caixa sem perder elegância, sustentada por uma artista que conhece bem os grandes espaços e sabe chegar a quem está mais longe.

Em Lisboa Perdeu a Voz, tema do seu próprio repertório, trouxe outra carga à noite. Cantar Lisboa em Alfama nunca é um gesto neutro. Ainda menos num festival que ocupa as ruas, as igrejas, as associações e outros espaços de um bairro tantas vezes transformado, vendido e descaracterizado diante dos olhos de quem ainda o habita.
Kátia não precisou de sublinhar cada emoção. A canção levou consigo o lamento e a intérprete soube dar-lhe firmeza. Há uma dicção exemplar na sua forma de cantar, mas existe também uma entrega que impede o rigor de se tornar frio.
Foi uma presença forte e segura, à altura do palco e da homenagem.

Ricardo Ribeiro cantou com o corpo inteiro
Prédio em Ruínas ganhou, na voz de Ricardo Ribeiro, uma dimensão quase física. Ricardo não passa simplesmente pelas palavras. Parece carregá-las durante algum tempo antes de as entregar ao público.
A sua interpretação tem peso, respiração e uma inquietação permanente. Mesmo parado, há qualquer coisa nele que está sempre a acontecer. O rosto, as mãos, a maneira como entra em cada verso e o silêncio que deixa depois de algumas frases fazem parte da mesma construção.

Com Mondadeiras, levou a noite para outro território. O tema abriu caminho ao Alentejo, à dureza do trabalho no campo e a uma musicalidade que Ricardo há muito aproxima do fado sem a tratar como elemento decorativo.
Na sua voz, Mondadeiras é quase uma reza. Não há postal rural nem uma visão embelezada da vida na terra. Há cansaço, memória e dignidade. Ricardo cantou-a com profundidade e mostrou, uma vez mais, que o fado não termina nas fronteiras de Lisboa.
Foi um dos grandes momentos do espetáculo.

Fábio Ourique obrigou Lisboa a ouvi-lo
Depois há a destacar Fábio Ourique.
Para boa parte do público, seria o nome menos reconhecível daquele alinhamento. Bastou-lhe Velho Marinheiro para deixar de o ser.
Natural de São Mateus da Calheta, na ilha Terceira, Fábio cresceu numa família ligada às tradições açorianas, entre o Carnaval, as cantorias e o gosto pelo fado. É também cantador e repentista, habituado ao confronto direto com a palavra, à resposta no momento e a uma relação com o público que não permite esconder inseguranças.
Chegou ao Palco Caixa sem o estatuto nacional dos artistas que o rodeavam, mas não entrou diminuído por isso. Abriu a voz e ocupou o espaço.
Velho Marinheiro, com letra de Mário Rainho e música de Fontes Rocha, assentou-lhe de forma impressionante. Talvez por trazer o Atlântico dentro dela. Talvez porque Fábio conhece a distância, o mar e aquilo que significa cantar a partir de uma ilha. Ou talvez simplesmente porque estamos perante uma voz de enorme qualidade.
Houve força, segurança e uma maneira muito honesta de enfrentar o tema. Não procurou impressionar através do excesso, embora tivesse voz para isso. Cantou com firmeza, deu sentido ao poema e cresceu à medida que a interpretação avançava.

Foi a grande surpresa da noite. Sem favor e sem condescendência regional.
Fábio Ourique não foi “o fadista dos Açores” convidado para acrescentar diversidade ao elenco. Foi um fadista açoriano que se apresentou em Lisboa e esteve à altura de todos os nomes daquele palco.
Há muito talento longe do centro e demasiada gente no continente convencida de que só existe aquilo que aqui chega. Fábio mostrou o contrário. A ilha Terceira já o conhece. As comunidades açorianas no Canadá e nos Estados Unidos também. Agora foi a vez de Lisboa perceber que esta voz não pode continuar circunscrita ao Atlântico.
Quando terminou Velho Marinheiro, já ninguém precisava de perguntar por que motivo estava ali.
A pergunta era outra: onde esteve Lisboa enquanto Fábio Ourique cantava assim? Excelente aposta de José Gonçalez.

Rodrigo não assistiu à própria homenagem. Fez parte dela
Tiago Correia interpretou Isto de Ser Poeta, tema do repertório de Rodrigo, e cantou ainda Rosa da Madragoa, completando o elenco desta edição especial de Em Casa d’Amália.
Mas Rodrigo não passou a noite sentado a ouvir os outros falarem da sua carreira. Cantou Tinha o Nome de Saudade e voltou a mostrar que há coisas que não envelhecem com a voz.
A idade deixa marcas. Seria absurdo fingir o contrário. Contudo, também acrescenta qualquer coisa que nenhum cantor mais novo consegue reproduzir: uma vida inteira por detrás das palavras. Rodrigo já não canta a saudade como uma ideia. Canta-a depois de ter visto partir pessoas, lugares e tempos que não regressam.
Há intenção, malícia e conhecimento em cada frase. Sabe onde respirar, como contar a história e quando deve deixar o público completar aquilo que a voz apenas começou.
Não se estava a ouvir uma reprodução do Rodrigo de há 40 anos. Estava-se a ouvir Rodrigo aos 85, com tudo o que viveu desde então. E isso, por si só, tinha um valor imenso.
Nota muito importante para José Manuel Neto e Carlos Manuel Proença, que estiveram soberbos no acompanhamento instrumental.
É tão bom ser pequenino depois de uma vida tão grande
É Tão Bom Ser Pequenino encerrou a homenagem com Rodrigo novamente no centro do palco.
O poema de Linhares Barbosa fala da infância, dos pais, dos avós e daquele tempo em que ainda acreditamos que haverá sempre alguém a proteger-nos. Na voz de um homem de 85 anos, depois da história sobre o pai polícia que não queria um filho fadista, o tema deixou de ser apenas uma recordação terna.
Ali estava o rapaz que contrariou o pai.
O rapaz cresceu, cantou, gravou dezenas de discos, teve casas de fado, atravessou mudanças de regime, modas, gerações e diferentes maneiras de olhar para a música portuguesa. Viu o fado sair de alguns lugares, entrar noutros e ser finalmente reconhecido como património da humanidade. E continuou cá.
A homenagem fez justiça a essa caminhada. Camané entrou no repertório com inteligência e personalidade. Kátia Guerreiro deu classe e firmeza à noite. Ricardo Ribeiro levou a interpretação para um lugar mais fundo. Fábio Ourique foi uma revelação poderosa para quem ainda não conhecia a força daquela voz açoriana. José Gonçalez conduziu tudo com uma desenvoltura que manteve o espetáculo vivo e impediu que a emoção se afundasse em solenidade.
No fim, Rodrigo cantou que é tão bom ser pequenino. Talvez seja. Mas a obra que deixou no fado português já não cabe em nada pequeno.
