Fischer-Z celebraram 50 anos no Coliseu de Lisboa: a memória ainda tem pulso

Fischer-Z celebraram 50 anos no Coliseu de Lisboa: a memória ainda tem pulso, na noite desta sexta-feira.

Fotografias: João de Sousa

O passado chegou ao Coliseu dos Recreios na noite desta sexta-feira, 4 de setembro, mas não entrou sozinho. No dia em que lançaram X-Ray Serenade, os Fischer-Z celebraram 50 anos de carreira perante uma sala esgotada e com John Watts ainda no centro de tudo.

O concerto começou às 21h15 e prolongou-se durante cerca de uma hora e cinquenta minutos. Pelo meio, atravessou diferentes períodos da banda britânica, regressou às primeiras canções e mostrou que recordar não obriga ninguém a ficar parado no mesmo lugar.

Lisboa recebeu-os assim: com a casa cheia e uma história comum que começou muito antes desta celebração.

- Publicidade -

Primeiro, o regresso a 1979

Uma introdução construída a partir de X-Ray Serenade abriu caminho para Pretty Paracetamol. Logo depois chegaram Wax Dolls, Remember Russia e The Worker.

As primeiras quatro canções devolveram o concerto a Word Salad, álbum de estreia editado em 1979. Não houve aquecimento progressivo nem tentativa de esconder a idade do repertório. Os Fischer-Z começaram precisamente no lugar onde tudo ganhou forma.

A sequência também afastou rapidamente a ideia de uma noite feita apenas para alimentar saudades. A escrita de John Watts sempre encontrou matéria nas tensões sociais, no trabalho, na política e na forma como o mundo se organiza contra quem nele tenta sobreviver.

Por isso, Remember Russia e The Worker não soaram como objetos guardados numa vitrina. Quase cinco décadas depois, continuam a fazer perguntas que o presente ainda não conseguiu arrumar.

Referência da new wave e do rock alternativo desde o final dos anos 1970, a banda construiu o seu percurso com melodias reconhecíveis e uma inquietação política que nunca foi um simples acessório, como recordava a própria apresentação oficial do Coliseu dos Recreios.

John Watts nunca escreveu apenas para o seu tempo

A noite avançou com Angel of Gardenia, Marguerite e Well Meaning Ghost, antes de So Long devolver ao alinhamento um dos temas incontornáveis dos Fischer-Z.

A partir daí, The Perfect Day, Tightrope e Choose mostraram a amplitude de um repertório que não se esgota nos primeiros discos. John Watts foi ligando épocas sem transformar o concerto numa aula cronológica sobre a própria carreira.

É essa a vantagem de uma obra com mais de quatro décadas de gravações: as canções podem envelhecer sem ficarem obrigadas a pedir licença para regressar. Algumas mudam de significado. Outras descobrem que o mundo, afinal, mudou bastante menos do que prometia.

Em palco, a voz tão particular de John Watts continuou a carregar a assinatura do projeto. Não precisa de procurar uma juventude impossível, porque a identidade nunca esteve na perfeição formal. Esteve sempre na tensão, na urgência das palavras e naquela forma quase cortante de passar de observador a personagem.

Ao seu lado, a formação atual prolongou o trabalho que sustenta esta nova etapa. Dave Purdye e Marian Menge juntaram-se a Olly Newton e Chloe Leigh no ciclo que acompanha o 50.º aniversário e o novo disco, segundo a Cherry Red Records.

Um disco novo no próprio dia do concerto

Perfect levou diretamente ao presente dos Fischer-Z. A canção integra X-Ray Serenade, editado precisamente no dia do concerto de Lisboa.

O álbum reúne sete temas novos e quatro novas leituras de canções antigas. Segundo a editora, John Watts mantém como matéria-prima as histórias humanas e o estado atual do mundo, observados através do seu habitual humor negro.

Ainda assim, o espetáculo do Coliseu não se transformou numa apresentação convencional do novo trabalho. O disco esteve presente, mas não tomou conta da noite. A celebração precisava de espaço para olhar para trás, sem deixar de mostrar que a banda continua a produzir música em 2026.

Essa convivência tornou-se clara quando Red Skies Over Paradise e Cruise Missiles voltaram a colocar o peso político no centro do concerto. Seguiram-se Further From Love e Berlin, antes de Damascus Disco, When Love Goes Wrong e One Voice conduzirem a atuação até ao encore.

O alinhamento entregue antes do espetáculo não funcionou como uma sentença. Algumas posições mudaram e outras hipóteses ficaram pelo caminho. Num concerto, felizmente, a folha continua a não mandar mais do que o palco.

Marliese fechou uma viagem de cinquenta anos

O regresso para o encore trouxe Marliese, escolhida para fechar a noite. A canção pertence a Red Skies Over Paradise, de 1981, o disco que ocupa um lugar central na história dos Fischer-Z.

Foi também nesse período que a ligação a Lisboa começou a ganhar outra dimensão. A própria banda recordou recentemente a passagem pelo Coliseu dos Recreios a 18 de novembro de 1980, recuperando a memória daquele concerto antes deste regresso, 46 anos depois. O reencontro de 2026 foi anunciado como esgotado.

Há salas onde um aniversário ganha um peso diferente. O Coliseu não foi apenas uma paragem portuguesa da digressão europeia. Foi um lugar onde duas versões da mesma banda, separadas por quase meio século, voltaram a encontrar-se.

Às 23h05, quando o concerto terminou, os Fischer-Z tinham passado por 20 canções.

Depois, a banda deixou uma mensagem curta nas redes sociais: “Thank you Lisbon!! We had a blast! Looking forward to Porto tomorrow”.

Celebrar 50 anos pode ser apenas contar o tempo que passou. Os Fischer-Z escolheram outra coisa. Foram buscar as canções antigas, colocaram-nas ao lado do presente e deixaram que Lisboa percebesse o resto.

A memória esteve no Coliseu. Ainda bem. Mas, enquanto John Watts continuar a escrever e a subir ao palco com algo para dizer, não será ela a mandar sozinha.

- Publicidade -

Destaques

Quando o século XVIII voltou a entrar no Campo Pequeno

Quando o século XVIII voltou a entrar no Campo...

Aparatosa queda de João Moura Caetano assusta Campo Pequeno durante a lide

Aparatosa queda de João Moura Caetano assusta Campo Pequeno...

João Moura Caetano no Campo Pequeno: “Foi uma lide redonda e completa”

João Moura Caetano no Campo Pequeno: "Foi uma lide...

Pedro Maria Gomes despede-se da chefia dos Amadores de Lisboa: “Amizade, resiliência e grandeza”

Pedro Maria Gomes despede-se da chefia dos Amadores de...

Miguel Moura depois de “mandar” no Campo Pequeno: “Quando faço o toureio que quero, o público responde”

Miguel Moura depois de "mandar" no Campo Pequeno: “Quando...
- Publicidade -

Reportagens

- Publicidade -

Artigos relacionados