Pedro Chagas Freitas escreve a Pedro Duarte: “A ordem sem escuta é só um silêncio imposto”, referiu.
Numa carta publicada no Facebook sobre os acontecimentos na Praça D. João I, o escritor pediu empatia e deixou uma pergunta ao presidente da Câmara do Porto: “Era possível ter terminado de outra maneira?”
Pedro Chagas Freitas dirigiu uma carta pública a Pedro Duarte na sequência da intervenção policial na Praça D. João I, no Porto. Sem se apresentar como testemunha dos acontecimentos nem pretender atribuir culpas, o escritor centrou a mensagem na responsabilidade de quem decide e na necessidade de compreender o desespero por detrás da contestação.
A publicação, partilhada no Facebook nesta quinta-feira, 15 de outubro, foi acompanhada por uma imagem da praça com o título “Carta ao presidente da Câmara do Porto”. Ao longo do texto, o autor defendeu o papel da polícia e a importância da lei, mas questionou uma aplicação das regras que não tenha em conta a dimensão humana de cada situação.
“Não estava lá, não sei tudo o que aconteceu”
Na abertura da carta, Pedro Chagas Freitas explicou que acompanhou as diferentes versões divulgadas sobre o sucedido.
“Caro Pedro Duarte, li as notícias sobre o que aconteceu na Praça D. João I. Li as palavras da PSP, li as suas palavras, li as palavras do movimento, li que havia pessoas no chão, pessoas feridas, um agente transportado ao hospital, uma manifestante também, tendas retiradas, acusações de resistência, acusações de força desproporcionada, vídeos, versões, horários, limites legais, provocações, justificações.”
O escritor esclareceu depois o propósito da intervenção: “Não lhe escrevo para dizer que a polícia não devia ter atuado.”
“Não estava lá, não sei tudo o que aconteceu. Não me interessa construir esta carta em torno de culpados. Sou pela lei, sou sempre pela lei”, acrescentou.
Antes de desenvolver a crítica, sublinhou ainda: “A lei é necessária, salva-nos muito, muito. Ninguém é mais fã da polícia e do seu papel do que eu.”
O espaço “entre a lei e o desespero”
A preocupação do autor surgiu na forma como o cumprimento da lei pode ser apresentado e justificado perante situações de sofrimento.
“Mas fico assustado, tanto, tanto, sempre que o cumprimento da lei começa a ser apresentado como uma espécie de mecanismo automático, robótico. A lei mede comportamentos; não consegue medir desespero”, escreveu.
É nesse ponto que Pedro Chagas Freitas colocou a responsabilidade política: “Eu acho que o decisor, e a política, começa no espaço exíguo, profundamente humano, entre a lei e o desespero.”
A carta passou depois da atuação das instituições para a maneira como a sociedade recebe as manifestações de tristeza e revolta.
“A tristeza tem muitas formas: uma delas é a revolta.”
“Nós gostamos mais da tristeza quando ela se comporta bem, quando fica em casa, quando chora baixinho, quando não interrompe o trânsito, ou não ocupa praças, ou não levanta a voz. É mais fácil lidar com a tristeza que não incomoda, não é?”, questionou.
Sem defender que o sofrimento justifica qualquer comportamento, o escritor acrescentou: “O problema é que há tristezas que ficam meses, anos, a fermentar dentro das pessoas. É aí que se fazem raiva, grito, corpo no chão, punho no ar. A tristeza não legitima tudo, mas torna-o humano.”
“Não lhe peço condescendência, nem cedência automática”
Voltando a dirigir-se diretamente a Pedro Duarte, o autor pediu que a firmeza fosse acompanhada de empatia e capacidade de escuta.
“Meu caro Pedro Duarte, não lhe peço condescendência, nem cedência automática. Peço-lhe que sinta. Todas as virtudes, quando levadas demasiado longe, acabam por se transformar no seu contrário. A firmeza sem empatia pode tornar-se inflexibilidade; a ordem sem escuta é só um silêncio imposto.”
A reflexão foi seguida de uma nova pergunta: “Todos sabemos que nome se dá a um silêncio imposto, não sabemos?”
Apesar do tom crítico, Pedro Chagas Freitas manteve a ressalva de que não conhecia em profundidade as circunstâncias da intervenção. O apelo foi dirigido à forma de prevenir novos episódios e à possibilidade de terem existido outras respostas.
A pergunta que encerrou a carta
No final da publicação, o escritor retomou os limites do seu conhecimento sobre os acontecimentos e deixou a Pedro Duarte uma questão concreta.
“Não conheço bem os detalhes operacionais daquela madrugada. Não quero sentenças. Quero só fazer-lhe uma pergunta: era possível ter terminado de outra maneira? Se tem alguma dúvida na resposta, tente evitar que algo assim se repita, por favor.”
Foi com esse pedido de reflexão que terminou a carta: avaliar se havia outro desfecho possível e agir para evitar a repetição de uma situação semelhante.
