Primeiro disco dos Descendentes marca posição: “Somos uma banda alentejana, mas não somos uma banda de cante”

O primeiro disco dos Descendentes chega esta sexta-feira, 6 de novembro, com uma vontade clara de afirmar a identidade de Jorge Cruz, Mike e Miguel Costa. Em entrevista ao Infocul.pt, o trio apresenta «Viagem Sem Regresso», explica por que não quer ficar limitado ao cante e antecipa os concertos da próxima digressão.

São 12 canções, oito delas inéditas, que dão sequência a um percurso iniciado discograficamente no verão de 2025, com «Carta de Despedida». Pelo caminho, chegaram «Madrugada Louca», «Carolina» e «Jasmim», enquanto os palcos se multiplicavam e a música dos três amigos encontrava cada vez mais público.

O álbum foi apresentado a fãs e imprensa a 4 de novembro, no Coliseu Club, em Lisboa. Agora, depois de um ano de preparação, chega o momento de perceber como estas novas canções serão recebidas.

“Eu acho que acima de tudo tem sido muita aprendizagem, estarmos sempre a reinventar e também sempre a tentarmos retransmitir a nossa verdade, seja em que género musical ele for”, explicam ao Infocul.pt.

A dedicação ao projeto é uma das certezas que levam para este lançamento: “Foi um ano que preparámos este álbum com muita dedicação e agora está nas mãos do público também.”

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As raízes no cante e a liberdade de fazer outra música

A ligação ao Alentejo é incontornável, mas os Descendentes fazem questão de distinguir a origem da banda do género musical que pretendem desenvolver. O cante esteve no início, continua a fazer parte da sua história e não impede a exploração de outros caminhos.

“Nós somos uma banda alentejana, mas não somos uma banda de cante”, afirmam, numa ideia que regressa várias vezes durante a conversa.

Quando começaram a cantar juntos, há cerca de dois ou três anos, ainda não tinham originais e eram as modas que levavam aos primeiros concertos. Contudo, garantem que já existia uma intenção definida para o futuro.

“Nós cantávamos modas, mas eu acho que nós tivemos sempre muito bem vincados e tivemos sempre muita ideia fixa do que é que queríamos fazer e qual é que seria a identidade que um projeto nosso teria.”

É essa diferença que procuram tornar mais evidente com «Viagem Sem Regresso». “Inevitavelmente, o cante foi onde começámos, mas este projeto não é cante. Nós somos uma banda alentejana, mas não somos uma banda de cante.”

Questionados sobre o que o público vai encontrar no álbum, apontam para a diversidade das canções: “Acho que é uma fusão de muitos géneros, de pop, pop rock, temos uma balada de 80’s, temos coisas funk, temos folk, é uma mistura de muitos géneros musicais.”

Um disco extraordinário com «Olha Lá» em destaque

Na nossa escuta, «Viagem Sem Regresso» é um disco extraordinário de três jovens talentosos. «Jasmim», «Carta de Despedida» e «Carolina» merecem destaque, mas é «Olha Lá», a colaboração com os Bandidos do Cante, que colocamos acima de todas.

A preferência por esse encontro não apaga o interesse do restante alinhamento. O álbum permite conhecer os Descendentes para além dos singles e perceber a diversidade de que falam na entrevista, agora reunida num primeiro trabalho de longa duração.

Essa apresentação estende-se à imagem: as oito canções inéditas têm visualizers realizados por André Tentugal, concebidos com uma linguagem visual comum. Música e imagem acompanham, assim, esta fase de afirmação do trio.

“A única coisa que mudou foi mais responsabilidade”

O crescimento trouxe reconhecimento, mais concertos e uma rotina diferente. Na primeira digressão, em 2026, os Descendentes ultrapassaram os 50 espetáculos, enquanto os temas lançados foram acumulando ouvintes.

«Carta de Despedida» recebeu a distinção de Single de Platina em Portugal e ultrapassou os quatro milhões de reproduções nas plataformas de streaming. «Madrugada Louca» e «Carolina» também passaram a marca de um milhão cada.

Perante essa evolução, perguntámos o que mudou na relação entre os três amigos e na forma como encaram o projeto. A resposta começa pela necessidade de recordar o motivo que os juntou.

“Acima de tudo nós temos que perguntar-nos sempre porquê que começámos e temos de ter sempre os pés bem assentes porque nós fazemos isto acima de tudo porque gostamos.”

A vontade de continuar mantém-se ligada a esse prazer, com a preocupação de preservar a forma de estar que tinham antes de serem conhecidos.

“A nossa verdade vai ser sempre esta e nós vamos sempre continuar a fazer música, sempre com a mesma humildade, até termos gosto. A verdade é essa, por isso eu sinto que não mudou absolutamente nada.”

Ainda assim, reconhecem uma consequência concreta: “A única coisa que mudou foi mais responsabilidade.” E, entre as alterações à rotina, acrescentam outra com humor: “Mais viagens a Lisboa também.”

A vida pessoal também entrou na conversa

A entrevista teve espaço para perceber como conciliam a exposição pública com a juventude e a vida fora dos palcos. A pergunta sobre excessos provocou uma resposta imediata: “Eu fiz os meus excessos todos antes de ser artista.”

Entre brincadeiras, o trio descreve o momento atual como uma fase de maior consciência sobre as prioridades.

“Eu acho que nós estamos na nossa fase consciente como se já tivéssemos 20 anos de carreira. Portanto, uma espécie de celibato”, comentam.

A explicação surge logo depois: “Nós aproveitámos tanto e fazíamos tanta coisa antes da música ser o nosso principal foco que agora nós estamos na nossa fase consciente e não temos excessos.”

Já a pergunta sobre «Carolina» teve uma confirmação real. Depois de levarem o nome da canção ao público, haveria alguma Carolina na vida de um dos elementos? Os colegas apontaram para Miguel Costa, que confirmou: “Estou com uma Carolina, sim.”

Nova digressão com outro concerto e novos arranjos

A edição de «Viagem Sem Regresso» também terá consequências nos espetáculos. Para 2027, os Descendentes estão a preparar um concerto renovado, com mudanças na estrutura e nos arranjos.

“Temos um concerto novo, temos uma estrutura nova, temos arranjos novos”, antecipam ao Infocul.pt.

A intenção é envolver o público ao longo de todo o espetáculo, mantendo a proximidade que procuram construir com quem os acompanha.

“Temos um concerto divertido, a malta vai estar sempre a bater palmas, vai estar sempre a cantar as nossas canções e acho que pelo menos vai ser uma hora e meia em que as pessoas vão estar lá felizes e vai ser sempre esse o nosso objetivo.”

No final, pedimos uma palavra a cada um para definir este primeiro disco. As respostas foram “versátil”, “fusão” e “magia”. Três escolhas para um álbum com o qual querem mostrar, de forma mais clara, quem são os Descendentes.

As 12 canções de «Viagem Sem Regresso»

  1. Viagem Sem Regresso
  2. Carolina
  3. Passos Falsos
  4. Jasmim
  5. Duas Vidas
  6. Vinte Noites
  7. Sei Que Sonhas
  8. Carta de Despedida
  9. Poema A Esmo
  10. Madrugada Louca
  11. Olha Lá — com Bandidos do Cante
  12. Sorte É Viver
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