Alexandra Lencastre reflete sobre carreira, anonimato entre jovens e o peso de antigas imagens públicas, em entrevista.
Alexandra Lencastre concedeu uma entrevista aprofundada ao Observador, onde fez um balanço honesto do seu percurso artístico e da forma como a perceção pública nem sempre acompanhou quem realmente é. A atriz falou de liberdade, estigmas e da forma como lida hoje com o olhar dos outros.
“Hoje há quem já não me conheça”
Desde logo, Alexandra Lencastre abordou um fenómeno que encara com naturalidade: o facto de passar despercebida entre os mais novos.
“Às vezes acontece-me estar com miúdos que já não me conhecem, não sabem o meu nome e nunca viram nada meu”, confessou.
Longe de ver isso como um problema, a atriz admite até algum humor na situação.
“Ouvir isto não me custa, até acho graça”, acrescentou.
Uma liberdade que antes não existia
Segundo explicou, este afastamento geracional trouxe-lhe algo inesperado: liberdade artística. Para Alexandra, trabalhar com pessoas sem referências prévias evita preconceitos e rótulos.
“Pensei: que bom, que liberdade”, afirmou, explicando que assim já não é olhada apenas pelas personagens ou imagens mais mediáticas do passado.
A atriz recordou como durante anos foi associada a papéis e escolhas específicas.
“Não vão dizer: ai, ela fez a ‘Ana e os Sete’ (…) ou porque já apareceu com decotes muito grandes”, exemplificou, sublinhando como essas leituras simplistas condicionaram a forma como foi vista.
O peso persistente do “Na Cama Com”
Apesar desta nova fase, Alexandra Lencastre admite que continua frequentemente ligada ao programa Na Cama Com, emitido no início dos anos 90. A atriz fez um exercício de autocrítica sobre o formato.
“De facto, eu não sabia entrevistar pessoas, e fiz muito mal aquele trabalho”, assumiu.
Ainda assim, defendeu o conteúdo humano e cultural do programa, recordando a qualidade dos convidados.
“Tive o José Cardoso Pires, o Raul Solnado, o Sérgio Godinho, o Diogo Infante, a Rita Blanco”, enumerou, sublinhando que o programa ia muito além da imagem provocatória que ficou na memória coletiva.
“As pessoas pensam que era um programa maroto (…) e não era”, reforçou.
Julgamento continua, reconhecimento também
Questionada sobre se ainda sente o peso da crítica, Alexandra foi clara. O julgamento não desapareceu, mas convive hoje com reconhecimento vindo de diferentes públicos.
“Sou julgada, sim, às vezes levo ainda pancada”, admitiu.
Por outro lado, também recebe elogios que a surpreendem.
“Outras vezes tenho elogios que até fico sem palavras”, contou.
A atriz destacou ainda a diversidade do público que a acompanha.
“Tanto tenho a caixa do supermercado a falar-me de uma novela como tenho alguém na Gulbenkian a vir falar comigo”, afirmou.
Um percurso transversal assumido
Aos 60 anos, Alexandra Lencastre diz sentir-se confortável com o caminho que construiu e com a pluralidade da sua carreira.
“Acho que consegui isso. Sou um bocadinho transversal”, concluiu, assumindo com orgulho um percurso feito de riscos, erros, sucessos e liberdade artística.

