Sexta-feira, Junho 25, 2021

André Amaro: “Quando nos oferecem uma música, é algo pessoal”

André Amaro: "Quando nos oferecem uma música, é algo pessoal"
Fotografia: Ângelo Sousa

André Amaro: “Quando nos oferecem uma música, é algo pessoal”, considera o músico, na entrevista que deu ao Infocul.pt

André Amaro lança, a 21 de Maio, o seu primeiro disco a solo. Intitulado ‘O Meu Lugar’, este disco marca uma viragem no percurso do cantor, após ter integrado o projecto ‘Sangre Ibérico’.

André Amaro concedeu uma entrevista ao Infocul, na qual abordou o seu primeiro trabalho a solo. Um disco gravado antes da pandemia provocada pela COVID-19 chegar a Portugal. Um ano de muitas dúvidas, incertezas, mas também de resiliência e esperança.

Natural de Aldeia do Bispo, Sabugal, André teve desde tenra idade a proximidade com as tradições ibéricas, destacando-se o Fado e o Flamenco.

Descobriu a arte de cantar quando frequentava o último ano do curso que o levaria a ser Engenheiro Agrónomo, destacando-se também aqui a sua ligação às raízes, à terra.

Contudo, após participar num programa de talentos, com o projecto Sangre Ibérico, a sua vida mudou. E agora, passados alguns anos, chega o primeiro disco a solo.

Um disco cuja mensagem começa logo no nome que lhe foi atribuído: ‘O Meu Lugar’.

O CAMINHO

André considera que a música é o seu lugar, “sem dúvida e por isso escolhi esse nome. Aliás, esse nome vem do primeiro single, que se chama “O teu lugar” e eu achei porque não este ser o meu lugar? E é o meu lugar. Na época, acho que não havia outro nome que eu pudesse dar a este disco, porque é aqui que eu me vejo e que neste momento faz sentido estar. Então este é o meu lugar, sem dúvida. Este disco é o meu primeiro lugar”.

Sobre o processo que o levou a gravar este disco, e a fazer carreira a solo, explicou-nos que “cheguei a um ponto em que precisei descobrir outras coisas, de trabalhar com outras pessoas, fazer outro tipo de música, explorar outras sonoridades, o que não era possível num outro projecto”.

Lembra que “o projecto tinha uma identidade muito própria e tirando isso ao projeto, iria descaracterizá-lo e eu precisava de outras coisas, de experimentar outras coisas, com outras pessoas. Então, foi por aí que começou este caminho. Foi essa necessidade que me levou a procurar pessoas como o Diogo [Piçarra], que tem uma linguagem completamente diferente da minha”.

Acrescentou que “achei que essa junção de prioridades, ele é um artista pop, com a minha identidade e as minhas influências de fado e flamenco pudessem trazer algo de diferente, em termos de sonoridade”.

E foi isso que eu procurei, foi isso que eu procurei também quando fui pedir aos autores das músicas. Foi isso que eu procurei! Outras coisas, outras maneiras de ver a música, de escrever…. Quis trazê-las para mim e torná-las minhas. Foi isso que me levou a este álbum”, revelou-nos.

“Eu sou um bocadinho desajeitado, confesso”

O mais recente single, ‘Desajeitado’, serviu para uma pequena provocação ao cantor, questionando-o se ele consegue rever-se no ‘Desajeitado’ que inspirou a escrita do tema.

Acho que todos nós conseguimos. Ninguém é perfeito o suficiente para que nunca na vida tenha sido desajeitado, em qualquer parte de nossa vida já fomos. Eu sou um bocadinho desajeitado, confesso. Todos nós já tivemos aquela sensação de não conseguir dizer o que queremos e baralhamo-nos e somos agitados e então consigo rever-me completamente, neste single, aliás consigo rever-me em todos estes meus singles e em todas as músicas que eu gravei neste álbum. Apesar de obviamente umas delas serem mais pessoais do que outras”, disse-nos.

Mas foi sobre outro single, ‘O Teu Lugar’, que André Amaro decidiu abrir o seu coração para recordar o seu avô.

O Teu lugar” é uma música muito pessoal. As pessoas podem encarar isso como uma canção de amor. Mas, para mim é mais que isso. Na altura quando o Diogo mandou esta música ele mandou uma mensagem dizer ‘Olha acabei de fazer esta música, se quiseres é tua’. Eu acabei a música a chorar porque aquela música fez-me lembrar o meu avô, ele tinha partido há pouco tempo. Olhei para esta música como o Teu Lugar, neste caso do meu avô, que estará sempre presente e terá aquele lugar sempre guardado para ele”, disse-nos.

O músico destacou ainda que sente que as pessoas irão rever-se nos temas do disco, porque em algum momento aquilo reflectirá parte das suas vidas.

São músicas mais pessoais e mais do momento, coisas que estou a viver no momento, mas todas as letras, todas as músicas, de alguma forma, ontem ou hoje iremos passar com certeza”, garantiu.

A pandemia e um ano de dúvidas

Este disco acabou de ser gravado uma semana antes do primeiro confinamento, em Março de 2020.

Uma situação que deixou André Amaro cheio de dúvidas e com quase nenhuma certeza.

Um período que agora nos contou como o viveu e tudo o que lhe passou pela cabeça durante um (longo) ano.

Acabámos de gravar o último tema, uma semana antes da pandemia. O disco fica pronto e logo de seguida começa a pandemia. As minhas dúvidas foram: Quando é que isto vai começar? Quando é que isto vai voltar? Um mê? Dois? Um ano? Ninguém sabia, quando tudo isto começou. O que faço? Lanço o álbum? Guardo o álbum? Lanço um single? Tudo isto trouxe muitas incertezas. Será que fará sentido lançar o disco quando isto passar? Será que a forma como vi e cantei o álbum continuará a fazer sentido nessa altura?”, referiu.

Confidenciou-nos que “para além destas dez músicas que estão nesse álbum, eu tinha mais, ou seja, não me recordo quantas, teria umas seis ou sete a mais. Quando tive de escolher foi muito complicado. Quando alguém nos oferece alguma coisa e nós dizemos “Não, obrigado, não quero”. É muito complicado! Quando nos oferecem uma música, é algo pessoal. Eu, pelo menos, vejo assim”.

E todas estas situações levaram-nos a assumir que “neste caminho tive muitas dúvidas. Sobre o que ia fazer, mas com a certeza de que o que fizesse teria de ser melhor do que aquilo que fiz até hoje. Será que eu vou superar estas expectativas que as pessoas têm naquilo que eu já fiz até hoje? E todas essas perguntas estão na cabeça sempre”.

Expectativas do público

Para quem se habituou a ver André Amaro num determinado registo musical, este disco revelará novas facetas do cantor.

É um disco com várias influências e sonoridades e isso deixa André Amaro com expectativas relativamente à reação do público.

Mesmo quando tiver 20 anos de carreira, vou pensar sobre o que as pessoas vão achar do meu trabalho. Eu acho que é normal, até porque não fazemos música para nós. Fazemos música para as pessoas, a partir do momento em que lançamos algum trabalho. Essa música deixa de ser nossa e passa a ser de quem ouve e perdemos o controle completamente. Isso também é bom. Essa sensação acaba por ser agradável e desagradável, porque nós largamos o trabalho e a partir dali ele deixa de ser nosso. É o público que fará dele um sucesso ou um fracasso”, assume.

Assume que “vamos defendê-lo, a cantar, a explicar, mas deixa de ser nosso” e que por isso “tenho essa curiosidade de ver como as pessoas vão reagir. Até agora têm reagido bem áquilo que eu tenho vindo a lançar. Têm reagido muito bem, mas sinto que as pessoas estão com uma expectativa do que vem aí, mas não tem nada a ver com o que eu tenho vindo a fazer. E esse era o objectivo, fazer uma coisa completamente diferente”.

O desconfinamento trouxe, entre outras coisas, o regresso dos espectáculos ao vivo.

Nesse sentido, perguntámos a André Amaro de que forma este disco será apresentado e qual a concepção cénica e de alinhamento que levará a palco.

Sobre a parte cénica, disse que “o videoclipe do último single, ‘Desajeitado’, já traz um bocadinho daquilo que será o espectáculo ao vivo”.

Um videoclipe gravado antes do tempo previsto, porque “este single saiu na novela, ou seja, foi apresentado na novela antes de estar disponível ao público, porque a novela gostou do tema. Disseram “Queremos começar a passar já”. E nós não tínhamos nada preparado, ainda iríamos prepará-lo, iríamos lançá-lo, mas não com tanta rapidez”.

Então as pessoas começaram a perguntar se aquele tema que estava na novela era meu, porque reconheciam a minha voz. Então, nós tivemos de fazer um videoclipe para lançar aquela música, para fazer sentido. E eu pensei ‘Porque não fazer aquilo que tenho imaginado para fazer num concerto?’”, questionou.

Assim, em termos de banda e de cenografia, o espectáculo estará muito próximo do que surge nesse videoclipe.

Já em termos musicais, “podem esperar um bocadinho de tudo, porque eu acho que este disco é uma mistura várias coisas”, explicando que o espectáculo terá temas que irão da pop à música mais tradicional, junto das suas raízes, que explicámos no início do texto.

Fotografia: Ângelo Sousa

Diogo Piçarra: O produtor!

Diogo Piçarra assina a produção do disco e André Amaro começa por destacá-lo como “um profissional incrível

Conheceram-se no futebol, porque jogam ambos com um grupo de amigos em comum e foi a partir daí que “começámos a criar uma amizade”.

Explica que “é completamente diferente ver uma pessoa em palco e criar uma imagem dela e depois conhecer ao vivo e poder trabalhar com ela”.

Elogia a “forma dele trabalhar, é incrível. Ele consegue ter tudo na cabeça, tudo certinho, não falha nada. Está tudo ali. Eu muitas vezes sabia o que queria fazer, mas não conseguia explicar a capacidade que ele teve de ouvir e fazer foi incrível. Era fácil ele chegar lá e fazer, mas ele teve uma capacidade incrível de me ouvir, de perceber onde eu queria chegar, que sonoridade pretendia, o que queria transmitir. E isso deu-me uma segurança e um à-vontade, deixando de lado algum receio que eu tinha no início”.

O amigo e manager José Gonçalez

Na bula do disco, André Amaro faz uma série de agradecimentos e decidimos destacar o agradecimento ao seu manager, José Gonçalez.

José Gonçalez é músico, produtor, apresentador, radialista, compositor e letrista (penso não ter esquecido nenhuma função do multidisciplinar criador) e assina neste disco o tema ‘Desajeitado’ (uma das melhores canções do disco, a par de ‘O Teu lugar’).

Sobre a relação de ambos e a crença inabalável do manager no talento do seu artista e amigo, André disse que “acho que é a chave que nos faz também acreditar em nós”.

Poder ter alguém que acredita tanto, ou mais em nós do que nós próprios, e quando temos alguém assim parece tudo fácil. Porque pensas: Se aquela pessoa acredita em mim daquela maneira e luta por mim daquela maneira, então eu tenho de acreditar muito mais em mim”, acrescentou.

Lembrou que desde a altura do projecto Sangre Ibérico, José Gonçalez foi sempre uma das chaves do sucesso.

“Acho que muitas vezes se as pessoas tivessem alguém assim ao lado, a trabalhar, era muito mais fácil para toda a gente. E sem dúvida que o Zé tem sido uma peça incrível neste meu caminho”, finaliza.

O disco sai a 21 de Maio, com selo Sony Music Portugal, mas deixamos já aqui o alinhamento:

-O Teu Lugar (letra e música: Diogo Piçarra)
-Explicar (letra e música: André Amaro)
-Hoje (letra: Jorge Fernando, música: Diogo Piçarra)
-Deixa o Amor Vencer (letra e música: Boss AC)
-Anjo da Guarda (letra e música: André Amaro)
-Tentei (letra e música: Luiz Caracol)
-Se Chover na Minha Terra (letra e música: Paulo de Carvalho)
-Desajeitado (letra: José Gonçalez, música: André Amaro)
-Amar Depois (letra: José Gonçalez, música: Rogério Charraz)
-O Mundo Inteiro (letra: José Gonçalez, música: Tiago Machado)

Rui Lavradorhttp://www.infocul.pt
Jornalista e Director Infocul.pt

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