Há um momento no Restaurante Nómada em que o atum deixa de ser apenas peixe e passa a ser o centro da refeição. O carpaccio de otoro, uma das partes mais nobres e gordas do atum, destaca-se numa experiência marcada por entradas com contrastes de sabor, dois combinados de sushi e um final com gunkan de salmão e vieira braseada.
A qualidade da comida convence. Mas há um problema que condiciona a experiência: o ruído dentro do restaurante, que torna a conversa à mesa menos confortável do que seria desejável.
Uma entrada que prepara o paladar
A refeição começou com um cone de tataki de atum e outro de salmão, ambos cobertos com sésamo e ervilha de wasabi, recheados com cebola confitada em vinho do Porto.

O primeiro impacto vem do contraste. A cebola confitada acrescenta um lado mais doce, enquanto o wasabi introduz o picante necessário para equilibrar o conjunto. O resultado funciona como entrada e abre caminho para os pratos seguintes sem se tornar excessivo.
É uma combinação simples na ideia, mas com sabores que se complementam.
O otoro assume o protagonismo
O prato que mais se destaca nesta primeira parte da refeição é o carpaccio de otoro com atum desidratado e ovas de salmão selvagem.
O otoro corresponde à zona mais gorda do atum, valorizada pela textura e pela gordura entremeada. À primeira vista, a aparência pode até lembrar um corte de wagyu. Na boca, essa riqueza traduz-se numa textura particularmente delicada.
O carpaccio chega acompanhado por molho ponzu, uma preparação japonesa que combina molho de soja com citrinos, além das ovas de salmão selvagem e do atum desidratado que rematam o prato.

Os diferentes elementos acrescentam camadas de sabor e textura, sem retirar protagonismo ao ingrediente principal. É aqui que a refeição encontra um dos seus momentos mais interessantes.
Dois combinados, uma base de qualidade
Depois do carpaccio, chegaram à mesa dois combinados de sushi: um tradicional e outro de fusão.
A qualidade voltou a estar presente, com peixe fresco e uma proposta que permitiu percorrer duas abordagens diferentes da cozinha japonesa. Um registo mais clássico, do outro lado uma composição de fusão.

Sem que seja necessário transformar cada peça num acontecimento, os combinados cumprem o que se espera deles e mantêm o nível da refeição.
Para terminar, a escolha recaiu sobre gunkan de salmão e vieira braseada. Uma combinação que fecha a sequência de sushi com duas propostas distintas, deixando uma última nota de sabor antes do fim da refeição.

O ruído estraga parte da experiência
Nem tudo funciona ao mesmo nível.
O restaurante é barulhento, e o volume sonoro torna-se um fator incómodo ao longo da refeição. Não é um pormenor irrelevante: quando se procura uma experiência gastronómica cuidada, a possibilidade de conversar sem esforço também conta.

A comida pode estar à altura das expectativas, mas o conforto da sala faz parte da experiência. Neste caso, o ruído acaba por retirar pontos a um conjunto que, do lado da cozinha, apresenta argumentos para convencer.

Casa Relvas Rabo de Ovelha: frescura para acompanhar o sushi
Ao longo da refeição, a escolha para acompanhar os pratos foi o Rabo de Ovelha, da Casa Relvas, um vinho branco alentejano produzido a partir da casta com o mesmo nome.

De acordo com as notas de prova do produtor, apresenta cor amarelo-citrino, aromas de frutos tropicais e flor de laranjeira, além de um perfil fresco, com boa acidez e carácter mineral. A referência técnica consultada indica ainda um estágio de quatro meses em barricas de 400 litros. .
É um perfil com argumentos para acompanhar peixe e marisco. A frescura e a acidez ajudam a equilibrar a gordura do otoro, enquanto a componente aromática pode acompanhar os restantes elementos do sushi sem exigir um vinho demasiado pesado.
A combinação faz sentido numa refeição em que o peixe assume o protagonismo e os molhos, as ovas e o wasabi acrescentam diferentes intensidades.

Veredicto
O Restaurante Nómada apresenta uma refeição com bons argumentos na qualidade do peixe, na combinação de sabores e no destaque dado ao otoro. O cone de tataki abre bem a experiência, o carpaccio assume o protagonismo e os combinados mantêm um nível consistente até ao final.
O ponto fraco está na sala, apesar de bem decorada, e de nos remeter para o Japão, o ruído condiciona o conforto e impede que a experiência gastronómica seja tão tranquila quanto poderia ser.
