Bad Bunny emocionou a Luz com “A Minha Casinha” numa noite em que Lisboa também foi Porto Rico, no segundo concerto do artista.
Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora
𝗕𝗮𝗱 𝗕𝘂𝗻𝗻𝘆 𝘃𝗼𝗹𝘁𝗼𝘂 𝗮 𝗳𝗮𝘇𝗲𝗿 𝗱𝗮 𝗟𝘂𝘇 𝘂𝗺𝗮 𝗶𝗹𝗵𝗮
Na segunda noite de Bad Bunny em Lisboa, esta quarta-feira, 27 de maio, o Estádio da Luz voltou a deixar de ser apenas estádio. Foi pista de dança, praça de festa, ponto de encontro entre culturas e, durante alguns minutos, uma casa comum.
Bad Bunny trouxe Porto Rico para dentro da Luz. Lisboa respondeu com a sua voz. E, entre reggaeton, trap, salsa, música tradicional porto-riquenha e memória popular portuguesa, houve um momento que atravessou a noite com outro peso: “A Minha Casinha”, na versão dos Xutos & Pontapés.

José Eduardo Santana, músico que integra a banda do artista porto-riquenho, surpreendeu o público ao tocar o clássico. Depois de já ter havido uma homenagem à cidade com “Lisboa, Menina e Moça” na noite anterior, a escolha de “A Minha Casinha” abriu uma porta emocional diferente.
Não foi apenas um apontamento simpático. Foi um gesto de escuta.
Assim que os primeiros acordes começaram a soar, milhares de pessoas cantaram em uníssono. E, nesse instante, a Luz pareceu transformar-se numa dessas casas antigas onde todos conhecem a letra, mesmo quando ninguém combinou cantar.

𝗔 𝗺𝗶𝗻𝗵𝗮 𝗰𝗮𝘀𝗶𝗻𝗵𝗮, 𝗮 𝘁𝘂𝗮 𝗰𝗮𝘀𝗶𝘁𝗮, 𝗮 𝗻𝗼𝘀𝘀𝗮 𝗟𝘂𝘇
A digressão de Bad Bunny, construída em torno de “Debí Tirar Más Fotos”, tem uma ideia muito clara: levar a sua cultura consigo. Não como ornamento. Não como postal turístico. Mas como identidade.
No Estádio da Luz, essa identidade encontrou uma resposta portuguesa.
A “casita”, estrutura montada no relvado e pensada como centro de convívio dentro do espectáculo, já transportava esse lado doméstico, comunitário e afectivo. Mas quando “A Minha Casinha” entrou na noite, a palavra casa ganhou outro sentido.

A canção pertence à memória portuguesa. A versão dos Xutos & Pontapés tornou-a ainda mais transversal. Ao ser tocada num concerto de Bad Bunny, perante uma multidão que vinha para dançar música latina, tornou-se ponte.
E as pontes, quando são bem lançadas, não precisam de tradução.
Foi isso que aconteceu. Porto Rico estava em palco. Portugal estava nas bancadas. E, por breves minutos, ninguém precisou de escolher entre um e outro.

𝗢 𝗶𝗻𝘁𝗲𝗿𝗰â𝗺𝗯𝗶𝗼 𝗰𝘂𝗹𝘁𝘂𝗿𝗮𝗹 𝗳𝗼𝗶 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗱𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝘂𝗺 𝗱𝗲𝘁𝗮𝗹𝗵𝗲
A passagem de Bad Bunny por Lisboa teve precisamente essa força: a capacidade de fazer do concerto uma festa de intercâmbio cultural.
O artista porto-riquenho não se limitou a apresentar um alinhamento de sucessos. Trouxe instrumentos, referências, ritmos e símbolos da sua ilha. Houve música tradicional, houve reggaeton puro, houve trap, houve salsa, houve momentos de euforia e houve espaço para emoção.
Em “Pitorro de Coco”, soou o quatro porto-riquenho, instrumento tradicional do país caribenho. Para muitos presentes, terá sido talvez a primeira vez que o viram ou ouviram ao vivo. Ainda assim, a resposta do estádio mostrou que a novidade não afastou ninguém.
Pelo contrário, aproximou.

Esse foi um dos méritos da noite. Bad Bunny conseguiu apresentar a sua cultura sem a transformar numa aula. Fez dela festa. Fez dela corpo. Fez dela batida. Fez dela pertença.
E Lisboa aceitou o convite.
𝗟𝗶𝘀𝗯𝗼𝗮 𝗲 𝗣𝗼𝗿𝘁𝗼 𝗥𝗶𝗰𝗼 𝗻𝗼 𝗺𝗲𝘀𝗺𝗼 𝗺𝗮𝗽𝗮
Vejamos, na noite anterior em “Lisboa, Menina e Moça” já tinha desenhado esse mapa sentimental. A cidade, cantada tantas vezes como mulher, rua, colina e fado, entrou no espectáculo como sinal de respeito.
Depois, na noite seguinte, “A Minha Casinha” levou esse gesto mais longe.
Porque Lisboa pode ser menina e moça, mas também pode ser casinha. Pode ser saudade e pode ser festa. Pode ser Carlos do Carmo e pode ser Xutos & Pontapés. Pode ser guitarra portuguesa e pode ser estádio inteiro a cantar com luzes no ar.

A grandeza deste momento esteve na simplicidade. Não houve necessidade de explicar a canção. Bastou tocá-la. O público fez o resto.
Há momentos que não se medem pela duração. Medem-se pela forma como ficam.
𝗧𝗮𝗺𝗯é𝗺 𝘀𝗲 𝗰𝗵𝗼𝗿𝗮 𝗻𝘂𝗺 𝗰𝗼𝗻𝗰𝗲𝗿𝘁𝗼 𝗱𝗲 𝗿𝗲𝗴𝗴𝗮𝗲𝘁𝗼𝗻
Bad Bunny é, para muitos, festa, dança, suor, perreo e refrões gritados com o corpo inteiro. Mas seria curto reduzi-lo a isso.
No Estádio da Luz, houve também silêncio. Houve pausa. Houve proximidade. Houve uma forma quase inesperada de ternura dentro de um espectáculo gigantesco.

Benito António recebeu uma multidão pronta para dançar, mas também disponível para escutar. Recebeu vozes em espanhol, em português e nesse idioma estranho que os grandes concertos criam, onde a emoção resolve aquilo que a gramática não consegue.
Por isso, a noite teve uma dimensão curiosa. Foi latina, mas também portuguesa. Foi de festa, mas também de comunhão. Foi de estádio, mas várias vezes pareceu sala pequena.
𝗢 𝗵𝘂𝗺𝗼𝗿 𝘁𝗮𝗺𝗯é𝗺 𝗲𝗻𝘁𝗿𝗼𝘂 𝗻𝗮 𝗻𝗼𝗶𝘁𝗲
Bad Bunny também sabe rir com o lugar onde chega. E Lisboa entrou no espectáculo não apenas pela música, mas também pelo humor.
A gastronomia portuguesa também entrou na brincadeira. Entre bacalhau, pastel de Belém, pastel de nata, rissol, bifana e até francesinha, o humor serviu como mais um gesto de aproximação.

𝗗𝗮 𝗳𝗲𝘀𝘁𝗮 𝗮𝗼 𝗰𝗼𝗿𝗽𝗼: 𝗼 𝗿𝗲𝗴𝗴𝗮𝗲𝘁𝗼𝗻 𝗻ã𝗼 𝗽𝗲𝗱𝗶𝘂 𝗹𝗶𝗰𝗲𝗻ç𝗮
Depois das homenagens, das pausas e das pontes culturais, houve aquilo que muitos procuravam: o chão a tremer com reggaeton.
A “casita” abriu espaço a um segmento mais directo, físico e dançável. “Tití Me Preguntó”, “Neverita”, “Si Veo a Tu Mamá”, “Me Porto Bonito” e “Yo Perreo Sola” trouxeram diferentes formas de festa para dentro do estádio.
Bad Bunny lançou o desafio: 𝗤𝘂𝗲𝗿𝗼 𝘃𝗲𝗿 𝘁𝗼𝗱𝗮 𝗮 𝗴𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗮 𝗽𝗲𝗿𝗿𝗲𝗮𝗿!
E a Luz obedeceu.

O relvado onde habitualmente se joga futebol tornou-se uma pista imensa. As bancadas, mesmo presas aos seus lugares, dançaram como puderam. Houve luzes, labaredas, batidas intensas e essa sensação de que a música latina tem uma capacidade muito própria de transformar multidão em corpo colectivo.
Não era apenas assistir. Era participar.
𝗢 𝘁𝗿𝗮𝗽, 𝗮 𝘀𝗮𝗹𝘀𝗮 𝗲 𝗼 𝗹𝗮𝗱𝗼 𝗴𝗹𝗼𝗯𝗮𝗹 𝗱𝗲 𝗕𝗮𝗱 𝗕𝘂𝗻𝗻𝘆
A noite mostrou também a razão pela qual Bad Bunny não cabe numa etiqueta simples. Há reggaeton, sim. Mas há muito mais dentro dele.
Há trap em “Diles” e “Mónaco”. Há clubbing em momentos de registo mais electrónico. Há salsa, bachata e flamenco a atravessar temas como “Baile Inolvidable” e “Nuevayol”. Há música tradicional de Porto Rico em diálogo com a pop global.
E há, sobretudo, uma noção clara de espectáculo.

Bad Bunny sabe que está no topo do mundo. Mas, em Lisboa, não usou essa posição apenas para se afirmar. Usou-a também para partilhar. Para mostrar de onde vem. Para fazer do palco uma extensão da ilha.
Com Los Pleneros de la Cresta, em “CAFÉ CON RON”, o concerto ganhou outra respiração. O momento teve qualquer coisa de convívio de rua, de roda de amigos, de celebração sem pose. Quase uma desgarrada caribenha, se quisermos encontrar uma imagem portuguesa para uma energia que não era nossa, mas que entendemos depressa.
Foi aí que se ouviu uma das frases da noite: 𝗣𝗼𝗿 𝘂𝗺𝗮 𝗻𝗼𝗶𝘁𝗲 𝘀𝗼𝗺𝗼𝘀 𝘁𝗼𝗱𝗼𝘀 𝗽𝗼𝗿𝘁𝗼-𝗿𝗶𝗾𝘂𝗲𝗻𝗵𝗼𝘀.
E talvez tenhamos sido mesmo.

𝗢 𝗺𝗼𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗲𝗺 𝗾𝘂𝗲 𝗮 𝗳𝗲𝘀𝘁𝗮 𝗽𝗮𝗿𝗼𝘂 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗼𝘂𝘃𝗶𝗿
A recta final teve uma carga emocional mais forte. “Ojitos Lindos”, “La Canción”, “El Apagón” e “DTMF” abriram uma zona mais nostálgica dentro do concerto.
Em “DTMF”, surgiram imagens de grupos de amigos antes do espectáculo. A música, já por si ligada à memória, ganhou assim uma camada adicional. Não se tratava apenas de lembrar o que passou. Tratava-se de perceber o presente enquanto ainda acontece.
Num concerto de reggaeton, também se pode chorar. Não por contradição. Mas porque a festa, quando é verdadeira, também toca onde a tristeza mora.
𝗨𝗺𝗮 𝗻𝗼𝗶𝘁𝗲 𝗲𝗺 𝗾𝘂𝗲 𝗟𝗶𝘀𝗯𝗼𝗮 𝗻ã𝗼 𝗳𝗼𝗶 𝗮𝗽𝗲𝗻𝗮𝘀 𝗽ú𝗯𝗹𝗶𝗰𝗼
O segundo concerto de Bad Bunny no Estádio da Luz teve, por isso, uma força especial.
Não foi apenas mais uma data de uma digressão internacional. Foi uma noite em que Lisboa não esteve apenas a receber. Esteve a responder.
Respondeu a Porto Rico com palmas, dança e coro. Respondeu ao quatro porto-riquenho com curiosidade. Respondeu ao reggaeton com corpo. Respondeu ao humor com cumplicidade. E respondeu “A Minha Casinha” com uma voz colectiva que tornou esse momento um dos mais marcantes da passagem do artista pela capital.
Talvez seja essa a imagem que fica: milhares de pessoas a cantar uma canção portuguesa dentro de um espectáculo porto-riquenho. Não como interrupção. Não como desvio. Mas como parte natural da festa.
Bad Bunny trouxe a sua ilha. Lisboa abriu-lhe a porta.
E, por duas noites, no Estádio da Luz, a casa foi de todos.

