O caso Durán dominou as reações à vitória do Benfica sobre o Gil Vicente por 4-1, que garantiu o apuramento para a final four da Allianz Cup. Luís Pinto afirmou que o jogo começou fora de campo. Marco Silva defendeu a utilização do colombiano, enquanto Luciano Gonçalves reconheceu falta de clareza no relatório da expulsão nos Açores.
Jhon Durán pôde jogar e marcou na Luz depois de a abertura de um processo disciplinar suspender o castigo decorrente da expulsão frente ao Santa Clara. A decisão provocou críticas do treinador gilista, que exigiu tratamento semelhante para Espigares, expulso no encontro de quinta-feira, 29 de outubro.
Apesar da contestação, Luís Pinto reconheceu a superioridade do Benfica. Marco Silva, por sua vez, disse compreender a insatisfação do adversário, mas considerou que o clube tinha de reagir a uma expulsão que classificou como injusta.
Luís Pinto: “Ganhou quem tinha de ganhar, quem queriam que ganhasse”
Na entrevista à Sport TV, Luís Pinto apontou a defesa de Trubin, ainda com o resultado em branco, como um momento importante para o desfecho.
“Acaba por ser um golpe duro quando conseguimos estar tão bem no jogo, perto de fazer o 1-0, e depois sofremos o golo no lance seguinte com um ressalto, a bola sobra para a frente da área. Acredito que isso tenha encaminhado um pouco a decisão do jogo.”
O treinador passou depois para a crítica à utilização de Durán, sem retirar mérito à exibição encarnada.
“Foi um jogo que começou a ser jogado fora de campo. Ganhou quem tinha de ganhar, quem queriam que ganhasse. Com todo o mérito. Uma equipa muito bem trabalhada, com dinâmica ofensiva muito difícil de se contrariar.”
A expulsão de Espigares levou-o a lançar um desafio aos responsáveis disciplinares.
“Quero ver se para a semana dispensam o Espi para poder jogar contra o Vitória como fizeram hoje em cima da hora do jogo. Temos o futebol que queremos ter.”
Treinador gilista contesta expulsão de Espigares
Questionado sobre a presença de Durán, Luís Pinto afirmou que já esperava esse desfecho. Defendeu também que o lance envolvendo Espigares não justificava o cartão vermelho.
“Não fiquei surpreendido infelizmente. Só gostava era que agora acontecesse a mesma coisa com uma expulsão que não pode ser por ir isolado, porque o Espi está entre o Rafa e a baliza. Não houve cotovelo na cara. Mesmo que não sejam tão em ‘close up’ como devia ser para repor a verdade desportiva, não é motivo para expulsão.”
O técnico voltou a pedir igualdade de tratamento.
“Já que abriram o precedente de um castigo de um jogador que foi expulso de um jogo e não podia jogar o próximo, quero ver se terei o Espi para a semana para jogar contra o Vitória. Se acredito? Claro que não acredito nada.”
A crítica estendeu-se à composição da fase decisiva da competição.
“Temos o futebol que queremos ter. Temos a final four que querem ter, com três equipas grandes e um outsider, e parabéns ao Famalicão. O Benfica faz uma exibição muito boa, que não deixa dúvidas sobre quem devia ter sido o vencedor. Mas temos o que o futebol português quer ter.”
Luís Pinto explicou ainda como acompanhou a situação do avançado colombiano antes do encontro.
“Ontem disse aos jogadores que o Durán não podia jogar porque tinha sido expulso. No decorrer do dia, começámos a ter a certeza de que ele ia jogar. Porque onde há fumo há fogo e não vale a pena.”
Marco Silva defende reação do Benfica
Na sua entrevista à Sport TV, Marco Silva disse compreender o desagrado do treinador adversário. Contudo, rejeitou que o Benfica devesse aceitar a ausência de um jogador que, no seu entendimento, não tinha motivos para ser expulso.
“Não vou comentar o que ele disse. Ele falou do estado do futebol português. Todo este barulho foi criado porque o Jhon não devia ter sido expulso. Se o jogador não devia ter sido expulso, o Benfica não pode ficar calado.”
“Percebo o que o Luís disse, não está satisfeito com utilização do Jhon. Compreendo. Ele não foi sabendo, eu também não fui sabendo. Se não fosse o Jhon, ia começar o Pavlidis, que tem feito os golos que vocês sabem.”
O técnico explicou que Durán acompanhou a preparação do encontro enquanto o clube aguardava uma decisão.
“Já aconteceu. Hoje soube da recente história. Não é virgem no futebol português. Mesmo na época passada aconteceram situações de recurso. A gestão foi simples. Os castigos normalmente vêm à quinta-feira, sabíamos que iria acontecer a reunião e sabíamos que o jogador não tinha feito nada.”
Marco Silva sustentou a posição do clube no relato do jogador, nas imagens e no relatório do árbitro.
“Não andamos aqui a brincar. A partir do momento em que sabemos que não fez absolutamente nada, temos a palavra dele, depois as imagens e o relatório que só comprovou isso também, trouxemo-lo connosco para estar o dia todo.”
“Para prepararmos o jogo com ele, Pavlidis ou Anísio. Quando chegou a comunicação para nós e Santa Clara, o jogador deles também vai jogar, ele acabou por jogar, ainda bem que pôde porque o Pavlidis tem sido muito sacrificado em termos de minutos. Fez golo que é importante.”
Luciano Gonçalves admite que relatório podia ser mais claro
A origem da polémica está na expulsão de Durán após o apito final do Santa Clara-Benfica. O colombiano envolveu-se numa confusão com adversários, depois de uma provocação de Fernando, tendo o relatório referido “palavras impercetíveis”.
Em entrevista à RTP Notícias, na quinta-feira, Luciano Gonçalves explicou a interpretação da equipa de arbitragem liderada por Cláudio Pereira.
“O que o árbitro efetivamente entendeu fazer foi condenar uma atitude, no entender da equipa da arbitragem. Estando ele longe, não conseguia ter a perceção das palavras que foram ditas pelo jogador, mas percebeu-se, no entender da equipa de arbitragem, que a ação do jogador provocou toda aquela ira dos jogadores adversários, por isso é que se gerou aquela confusão.”
O presidente do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol admitiu que poderão ser pedidos esclarecimentos adicionais.
“Mas o Conselho de Disciplina irá ter oportunidade de chamar novamente o árbitro, questioná-lo e pedir explicações.”
Confrontado com a incredulidade provocada pela justificação, Luciano Gonçalves reconheceu problemas na redação do relatório.
“Percebo, principalmente pela forma como foi escrito, pela justificação que é dada. No meu ponto vista podia-se ter explicado melhor. Iria ter o mesmo fim, até porque a ação podia ter sido um amarelo para um dos jogadores, o jogador do Benfica acabaria por ser expulso na mesma porque já tinha amarelo.”
“Como está distante, quis condenar a atitude, provocou toda aquela ira, mas a forma como escreveu certamente não foi a mais clara para percebermos.”
Marco Silva destaca vitória e resposta após golo do Gil Vicente
Antes de desenvolver o caso disciplinar, Marco Silva fez questão de analisar o encontro e o apuramento.
“Podíamos começar pelo jogo e depois íamos a essa situação. O mais importante é começar pelo jogo e vou começar aí. Percebo tudo o que se passou em relação à completamente injusta expulsão de um jogador do Benfica no último jogo. Mas tenho de falar do jogo primeiro.”
Sobre a exibição, destacou a evolução da equipa perante um adversário que criou dificuldades na fase inicial.
“Bom jogo da nossa equipa. Vitória totalmente justa da melhor equipa em campo. Jogo começou equilibrado contra uma equipa bem organizada. Tem feito um bom campeonato, tem uma ideia clara do que pretende meter no jogo. Começámos a dominar, mas o Gil foi conseguindo sempre reagir bem.”
“Tentámos bloquear alguns dos espaços que queriam criar. Fomos crescendo no jogo. Houve muitas alterações. A equipa foi crescendo, tivemos oportunidades. Depois o Gil tem uma boa oportunidade, há um excelente momento do Trubin e depois de desbloquearmos com o 1-0, o jogo foi totalmente nosso.”
A resposta ao golo dos visitantes também mereceu elogios.
“Fizemos bons golos, entrámos outra vez bem na segunda parte. Acabámos por fazer o 3-0, tirámos praticamente todas as esperanças do Gil, mas um grandíssimo golo do Gil deu-lhes algumas esperanças novamente. Mas a nossa superioridade veio ao de cima novamente e ganhámos com números expressivos. O objetivo era estar na final four, uma competição importante para nós e lá estaremos.”
Luís Pinto, por seu lado, valorizou a tentativa de discutir a eliminatória, mesmo com o risco de sofrer mais golos.
“Em parte satisfeito. Competimos muito bem nos primeiros 35 minutos. Mesmo com uma segunda parte com o alargar do resultado, tivemos capacidade de entrar no jogo outra vez. Quase fizemos o 3-2 e tentámos ir buscar mais alguma coisa.”
“Sabíamos que nos íamos estar a expor e era um risco muito grande. Entre perder por 3 ou 4 e ir atrás do segundo golo e entrar na disputa da eliminatória, preferimos tomar essa decisão. Os jogadores tentaram tudo desde o primeiro minuto. Estou orgulhoso. Não satisfeito, mas orgulhoso.”
Lukebakio elogiado pelos golos e pela ligação aos colegas
Marco Silva destacou individualmente Lukebakio, autor de dois golos, apontando progressos na integração ofensiva.
“Excelente jogo do Lukebakio. Em alguns momentos da primeira parte teve arrancadas e momentos individuais muito bons. Está a crescer na ligação com os colegas. No aspeto individual é forte e continua a crescer no momento que tem de compreender a ideia ofensiva, as ligações, explorar triângulos.”
O treinador salientou a capacidade do jogador para aproveitar espaços.
“Hoje vimos isso. Boas combinações e depois com espaço, com campo aberto, é um jogador muito forte, com capacidade muito grande de aceleração. É o momento mais forte do jogo dele, quando o jogo não está tão fechado e ele pode explorar melhor as suas qualidades individuais.”
Além da finalização, valorizou as decisões tomadas no último passe.
“Marcar para qualquer jogador é muito importante. Acabou por marcar golos, teve boas assistências no final da segunda parte, como no Omonia com o Prestianni. Fez com o Rafa, com o Anísio. É importante perceber os momentos certos para definir. Já lhe dei os parabéns pelos dois golos e o excelente jogo que fez.”
Sudakov e Trubin também recebem destaque
Sobre Sudakov, Marco Silva explicou as diferenças entre o posicionamento com bola e as responsabilidades defensivas.
“Com bola é uma posição igual. Os jogadores interiores do meio-campo jogam mais ou menos igual. Sudakov sendo mais um médio do que Prestianni ou Rafa quando jogam lá, as características à esquerda ou direita vão ser iguais.”
“Há diferenças na organização defensiva porque se junta ao jogador 6 para defendermos em 4x4x2. Após ganhar a bola permite estar de frente para o jogo. É a grande diferença. Tem de ganhar dinâmicas do que são coberturas.”
O golo e a disponibilidade para trabalhar sem bola completaram a avaliação positiva.
“É importante termos tempo para trabalhar com ele, mas gostei. É importante ter feito golo, um excelente golo. Muito importante poder fazê-lo. É um jogador solidário, trabalha para a equipa sem bola. Satisfeito por ele, mas permita-me realçar o Trubin.”
A dupla defesa do guarda-redes, antes do primeiro golo encarnado, foi o último destaque do treinador.
“Já tínhamos tido as nossas oportunidades. O momento mantém a baliza a zero com uma defesa dupla, um grande momento, que nos permitiu ficar com a baliza zero. Com os golos tranquilizou a equipa e arrancámos para uma excelente exibição e uma boa vitória.”
