Coração de Shawn Mendes bateu em uníssono com o MEO Arena

Coração de Shawn Mendes bateu em uníssono com o MEO Arena, num espetáculo que trouxe o cantor canadiano lusodescendente de volta ao país do seu pai, ontem, dia 28 de agosto de 2025. 

“On the Road Again”, como diria Willie Nelson

O nome da digressão, “On the Road Again” é homónima do tema intemporal e icónico da estrela de música country Willie Nelson. E foi exatamente o que sentimos nesta rentrée cultural que se está a tornar tão especial para amantes das várias áreas. 

E viva a rentrée! Para quem tirou período de férias neste morno verão, bem-vindos de volta à estrada! Para quem não desdenhou nem de cultura nem de desporto, que continuemos o caminho a aproveitar as lendas, estrelas internacionais e novos talentos mesmo da Lusitânia, que temos e teremos o privilégio de visitar pela primeira vez ou revisitar.

A plateia estava toda sentada e, para surpresa, os fãs mais acérrimos tinham algo preparado para Shawn. Andaram valorosamente a distribuir pedaços de plástico transparente vermelho para a “primeira e última música do Shawn”, como tão simpaticamente disseram. 

Demonstraram iniciativa, investimento e capacidade de levar milhares de pessoas a cumprir algo que atribui mais significado e envolvência. 

Lubiana foi o primeiro número de abertura de Shawn Mendes

Com tons africanos, voz lírica e letras melancólicas, o público foi logo transportado para a viagem no tempo e espaço que o bilhete prometia, com Lubiana. A cantora deixou algumas palavras a Shawn Mendes, de agradecimento pela participação nesta colossal e reconhecida sala perto do fantástico rio Tejo.

“Como o meu avô disse, para saberes para onde vais tens de saber de onde vens. Escrevi isto para o meu avô, para quando o Diabo o for procurar, eu estar lá a carregar ele e a sua voz. Que nos lembremos sempre”, sentiu a cantora.

“Obrigada. Vou cantar uma canção de amor, de oração, na língua do meu pai” – e assim continuou, com expressão de sincera saudade. Fez-nos regressar ao “Ciclo da Vida” da banda sonora de “O Rei Leão”, nestes tons da profunda, seca e bonita savana do Serengeti.

“Obrigado, Lisboa. Por favor, iluminem esta sala. Por uma mãe. Por uma irmã”, pediu Lubiana, antes do último tema. 

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MARO fez as delícias do MEO Arena

De seguida, ficámos com Maro, recebida com uma ovação idêntica à de Shawn Mendes.

Com uma guitarra de jazz e uma vocalidade única, voltou a levar-nos por uma viagem pelo tempo e espaço, que vai das nossas raízes ao futuro.


“Lisboa, muito obrigada. Passei as primeiras músicas a tentar não chorar. E obrigado ao Shawn”, desabafou MARO. Primeiro foram temas de um álbum que ainda não saiu e depois passou para as performances dos seus temas mais conhecidos. 

“Este próximo tema foi escrito pelo meu avô e quero dedicar a todos os avós” E o público motivou-se e emocionou-se com cada nota.


Com a sua guitarra de jazz, embalou as imensas paredes do MEO Arena e até o rio fez leves ondas a acompanhar uma profundidade que pouco se vê no panorama musical nacional. Leves ondas com espuma, a espuma dos dias. Mas com um sabor diferente e uma cor mais corada, na voz e guitarra de MARO. 

Terminou a atuação com um clássico seu, cujas notas parecem as nossas memórias a cintilar por dentro. E, antes de sair de palco, tirou uma selfie com o imenso público, com luzes do público bem altas a bater praticamente no céu lisboeta.

Shawn foi espetáculo musical e também Mendes no país do seu pai

Imediatamente antes da entrada de Shawn, começou mesmo o tema “On the Road Again” para preparar o público. Levou esse tema a um público mais jovem, que já sabia que era a apresentação para todo o espetáculo seguinte.


Na continuação, vemos uma apresentação retro a preto e branco. Com uma receção de fazer inveja aos decibéis das descolagens da NASA, especialmente quando se aperceberam que tocaria um dos seus hinos, “There’s Nothing Holdin’ Me Back”, sobre vencer tudo, ou lutar com toda a gana porque não há nada a perder.

Shawn Mendes subiu ao palco do MEO Arena como quem entra na sala de estar de milhares de fãs — com som da guitarra ao peito e um sorriso que mistura timidez e confiança.

A música que invadiu o MEO Arena

“Lisboa, como estamos?”, perguntou Shawn Mendes. E com “Treat You Better” o público substituiu colunas e microfone com o seu cantar em uníssono, com um grande e grato “Oh Yeah” do cantor.

O volume português é real! Sabíamos que ia ser competição com Espanha. Aprovado e obrigado por terem vindo!”, foram as palavras sentidas de Shawn Mendes.

“Monster” foi o tema a seguir. Somos monstros, talvez, mas também caímos, e isso mostra que não o somos. Falhamos, voltamos a levantar. É a humanidade. Já James Gunn Tinah escrito num filme este ano, que este detalhe humano é “o novo punk rock”. Não, não somos monstros porque também ficamos quando o coração assim o diz. Um pensamento envolto em notas de rock de guitarra elétrica.

E entre músicas mais pop e disco, a dança e a alegria reinaram.

“Sempre que venho aqui sinto que pertenço”, e de que maneira Shawn Mendes o demonstrou! “Isn’t That Enough?”


Ao som de uma harmónica pura e fria mas vibrante, uma acolhedora lareira nos ecrãs e a frase “Friends and Family Only” projetada no pano enorme no fundo de palco, apareceu com t-shirt da Seleção Nacional de Portugal, com os músicos a tocar guitarra clássica, pandeireta e violino ao estilo de um grupo folk ou country.

“Estava a olhar para a água fria. Tive este sentimento pela primeira vez que aqui vim. É como voltar a casa. Sempre tive dificuldades em sentir que pertenço. Mas sempre que venho aqui sinto que pertenço”, emocionou-se o artista canadiano. 

Em modo mais acústico, levou-nos numa viagem por uma infância lá bem atrás, com “Isn’t That Enough” porque ainda estamos a mudar, e a nossa mãe ainda liga a saber novidades, se estamos bem ou não. Há faíscas da infância que permanecem a queimar. E, talvez, mesmo dissabores com essas figuras maternais especiais, talvez seja o suficiente. Num mundo distante onde fechamos as lágrimas, já não pássaros quase, mas tivemos algures uma “casa cheia de amor/ espaço para os teus medos”. 

“O meu coração ainda se parte em dois
Ainda estou a mudar
Os meus amigos mantêm-se pacientes
A minha mãe ainda telefona para saber novidades

Não é isso suficiente?

Não é isso suficiente?”

Shawn Mendes e um “Heart of Gold”

E ainda pediu ao público para aproveitar o próximo tema, da seguinte forma: “Têm a oportunidade de dizer olá a uma multidão. E se conhecem alguém que se perdeu há muito tempo, é a oportunidade de cantarem para eles e celebrar com eles. Ponham a mão no coração e cantem a canção comigo.”


Foi a introdução para “Heart of Gold”, um tema pesado, mas tocador de almas, partilhando o nome com outro que Johnny Cash também interpretou (diferente, mas semelhante no significado e cadência), escrito por Neil Young. Um tema diferente, porque às vezes só nos apetece fazer o que prometíamos fazer na infância e adolescência, que era “atirar para as estrelas e ver-te lá”. Porque quem lá estava, e está, tinha um “Heart of Gold” e partiu demasiado cedo.

“Quando éramos jovens
Não nos importávamos
Apontávamos às estrelas
Eu vejo-te lá em cima

Tu tinhas um coração de ouro
Partiste cedo demais, não estava sob o teu controlo
Por baixo da tua pele e osso
Tu tinhas um coração de ouro”

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Camila Cabello presente em espírito no MEO Arena

Como não podia deixar de ser, tocou o tema que tem com Camila Cabello, “Señorita”, bem ao ritmo latino, veranesco e apaixonado.

A cerca de meio concerto, o público não resistiu na plateia sentada e acabou por ir a correr para mais próximo do palco, movido a lágrimas. E Shawn Mendes saltou para junto do público, trocando afetos e levando uma bandeira portuguesa para palco. Que ergueu enquanto esvoaçava com os gritos do público e colocou no piano.

As luzes baixaram do topo do MEO Arena e incidiram logo atrás do cantor. Tudo pronto para o emblemático “Mercy” e lá começa a descolagem com decibéis ao estilo NASA, com fogo de artifício dentro da arena.

“E sinto-me tão orgulhoso em ser português”, revela-nos Shawn Mendes

“Como músicos viajamos pelo mundo e vemos pessoas diferentes e culturas diferentes. E vemos como somos semelhantes. Tenho este sentimento lindo quando viajo e olho para o público no último ano e meio, e sinto que vejo a próxima geração linda. Grandes pessoas, que amam e têm esperança ainda”, afirmou.


“Sinto que o futuro está em boas mãos quando olho em volta, nestes espetáculos. Tenho orgulho em pertencer a esta geração. E sinto-me tão orgulhoso em ser português.”

Shawn ficou em lágrimas a escorrer-lhe pela cara. E todos gritaram “Shawn! Shawn! Shawn!” para lhe dar força, antes de “Youth”. Porque “Não podes tirar a minha juventude”!

MEO Arena teve direito a “Stitches” como não podia deixar de ser

E falando em hino, “Stitches”, um dos seus primeiros êxitos e rampa de lançamento. Após uma descarga emocional capaz de derrubar o chão, tal não eram os saltos aos milhares, seguiu-se para “It’ll be okay”, com chuva de fogo de artifício. Porque às vezes não está tudo “okay”, mas vai ficar tudo bem. Só temos de deixar ir. 

“If I Can’t Have You” levou o público novamente ao rubro, com chuva de luzes desta vez em strobes de fazer arrebitar qualquer um. Na mesma medida, o “Why why why” também foi um tema desta linha de arrebatar almas e sentimentos menos felizes.

Uma Casa Portuguesa que nesta noite se chamou MEO Arena

O final, com “In My Blood”, foi recebido de pé também, numa explosão final que resumiu a intensidade do concerto: uma noite de música pop vibrante, mas também de emoção e proximidade. Um tema sobre desistir ou, melhor, não desistir. Pois isso não está no nosso sangue.

Shawn Mendes mostrou no MEO Arena porque continua a ser um nome incontornável da música global. Mais do que um concerto, foi um reencontro de cumplicidade entre artista e público, que deixou Lisboa a pedir o regresso do canadiano.

E no fim, para honrar o público e suas origens, eis que ficámos com “Uma Casa Portuguesa”, que foi sendo cantada à saída e, realisticamente, no regresso a casa de todos. Tal com “Stitches”, “In My Blood”, “Wonder” e todas as outras. 

O MEO Arena foi realmente uma (grande) casa portuguesa nesta noite de 28 de agosto de 2025. Com um Mendes que também é Shawn.

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