Dez cêntimos por garrafa, lixo nas ruas e pessoas a sobreviver: Rita Ferro Rodrigues e Joana Latino expõem o lado mais duro do sistema Volta, nas redes sociais.
O novo sistema de devolução de embalagens nasceu com uma intenção ambiental, mas trouxe para as ruas uma realidade difícil de ignorar. Garrafas retiradas dos contentores, lixo espalhado e pessoas à procura de dez cêntimos para conseguirem sobreviver.
Rita Ferro Rodrigues expôs o problema nas redes sociais, depois de encontrar um adulto e uma criança a vasculharem resíduos. Mais tarde, no “Passadeira Vermelha”, Joana Latino juntou-se à reflexão e criticou duramente a eficácia da medida.
Entre a reciclagem e a pobreza, as duas comunicadoras colocaram no centro do debate uma pergunta desconfortável: quem olha para o lixo e quem consegue ver as pessoas que dependem dele?
Rita Ferro Rodrigues começou pelo lixo, mas encontrou a pobreza
A reflexão de Rita Ferro Rodrigues partiu do estado das ruas na zona onde vive. Nas últimas semanas, a jornalista reparou que os contentores surgiam mais desorganizados e os resíduos se acumulavam fora dos locais adequados.
Contudo, rapidamente percebeu que a explicação não se limitava à falta de civismo ou às falhas na recolha urbana.
“Ninguém quer postar lixo no feed e até eu, que acho que sei das coisas, me apercebi, nas últimas semanas, que o lixo na minha rua estava revolvido e descontrolado, fora da norma (que já é terrível) do lixo que não é recolhido a tempo e horas, dos trabalhadores do lixo que são poucos e mal pagos, do horror de lixo que cada uma das nossas famílias produz sem qualquer consciência ambiental”, escreveu.
O sistema público de depósito de embalagens permite receber dez cêntimos por cada garrafa de plástico ou lata entregue nos pontos destinados à recolha. Em teoria, a medida pretende incentivar a reciclagem.
Foi na aplicação prática, porém, que Rita Ferro Rodrigues encontrou uma realidade muito mais dura.
Um adulto e uma criança procuravam dez cêntimos no lixo
Ao observar o que acontecia na sua rua, a comunicadora viu duas pessoas a remexerem num contentor. Não procuravam apenas embalagens abandonadas. Procuravam algum dinheiro para acrescentar ao orçamento familiar.
“Depois veio esta ideia do governo – aparentemente boa (…) E depois apercebes-te, porque vês com os teus próprios olhos, vês na tua rua, um adulto e uma criança a vasculhar no lixo, no teu lixo, sujeitos sabe-se lá a que doenças, a que destino, à procura de mais dez cêntimos para o orçamento mensal”, relatou.
A imagem levou Rita Ferro Rodrigues a afastar o debate das questões de limpeza. Para a jornalista, o essencial está nas razões que obrigam alguém a procurar sustento dentro de um contentor.
Rita responde a discursos sobre imigração
No mesmo desabafo, Rita Ferro Rodrigues rejeitou também a associação automática entre pobreza, marginalidade e imigração.
A apresentadora revelou que as pessoas que viu eram portuguesas, embora tenha sublinhado que a nacionalidade não deveria alterar a gravidade da situação.
“E não, senhores Cheganos, não eram ‘estrangeiros’ (e se fossem? Mas esta interrogação só interessa a alguns). Eram pessoas, nesta rua, choquem-se, ‘portugueses de gema’ no limiar da pobreza, e a partir daí, fosse qual fosse o BI, o que interessa o lixo espalhado, quando ninguém quer saber de quem o espalha, e porque o espalha? Que desespero é este?”, questionou.
A comunicadora colocou, assim, a desigualdade no centro da discussão. O lixo espalhado pode ser a parte visível, mas a necessidade de procurar dez cêntimos em cada garrafa revela um problema muito maior.
“Há os que se preocupam com quem só tem no lixo uma oportunidade”
Rita Ferro Rodrigues mostrou-se cansada com uma sociedade que discute a limpeza das ruas sem procurar compreender quem está por detrás daquela desordem.
“Pessoas a vasculhar no lixo por mais 10 cêntimos num país que faz disto apenas uma questão de limpeza, e não uma questão básica de desigualdade, de quem não tem como comer, como viver. Estou cansada porra. Há os que se preocupam com o lixo nas ruas, e depois há os que se preocupam com quem só tem no lixo uma oportunidade”, acusou.
No final da publicação, deixou um apelo direto à empatia dos seguidores.
“De que lado estás? Consegues ver a tua família, ali, a lutar pelo lixo para sobreviver? Consegues ou não?”, rematou.
Joana Latino critica “segundo mercado” criado pelas garrafas
A publicação foi depois analisada no “Passadeira Vermelha”. Joana Latino concordou com as preocupações sociais de Rita Ferro Rodrigues, mas acrescentou uma crítica à própria eficácia ambiental do sistema.
Segundo a jornalista, a devolução das embalagens deu origem a uma espécie de mercado paralelo. Há cada vez mais pessoas a percorrer as ruas e os contentores à procura das garrafas que permitem recuperar o depósito.
“Agora tens uma espécie de segundo mercado da caça às garrafas-Volta (…). O que é que fizemos? Andámos para trás. E o que é que o senhor Presidente da Câmara de Lisboa [Carlos Moedas], que vem para aí defender estas coisas, fez? Mais uma enormíssima burrada, para não utilizar uma palavra mais forte”, declarou.
Joana Latino lembrou que sistemas semelhantes existem há várias décadas noutros países europeus. Na sua opinião, os problemas associados à procura das embalagens não são novos e deveriam ter sido antecipados.
Garrafas rejeitadas acabam espalhadas pelas ruas
A comentadora explicou que muitas embalagens deixam de ser aceites quando estão danificadas, sem tampa ou com o rótulo rasgado. Depois de retiradas dos contentores, acabam frequentemente abandonadas na via pública.
“Eu vejo muito mais plástico espalhado pelo chão, porque depois quando se vai à procura da garrafa que tem volta, se ela está machucada, se ela não tem volta, se já perdeu a tampa, se por acaso a embalagem está rasgada, aquilo fica tudo espalhado pelo chão”, denunciou.
Para Joana Latino, a medida poderá estar a produzir um efeito contrário ao objetivo anunciado. Em vez de reduzir os resíduos, a procura seletiva pelas embalagens com valor estará a deixar outros plásticos espalhados.
“Fico destruída” ao ver vizinhos à procura de comida
A realidade descrita por Rita Ferro Rodrigues não foi estranha para Joana Latino. A jornalista revelou que também observa pessoas a remexerem nos contentores perto dos restaurantes da zona onde vive.
Além das pessoas em situação de sem-abrigo, há famílias com habitação que já não conseguem assegurar as necessidades mais básicas.
“E não são só (…) os sem-abrigo, são muitas outras pessoas hoje em dia, já há bastante tempo. (…) Eu fico destruída de pensar que há pessoas que moram no prédio ao lado do meu e que vão ali à caça ao lixo”, confessou.
O debate acabou, assim, por ultrapassar a eficácia do sistema de recolha. No centro da conversa ficaram pessoas que procuram garrafas para receber alguns cêntimos e outras que vasculham os resíduos dos restaurantes à procura de comida.
Joana Latino considera sistema “areia para os nossos olhos”
A comentadora terminou com uma avaliação particularmente negativa da medida. Para Joana Latino, o sistema está a representar um desperdício financeiro e poderá estar a prejudicar a própria reciclagem.
“Isto [o sistema Volta] é só areia para os nossos olhos. Estamos só a perder dinheiro. A perder em ambiente, porque a reciclagem com certeza sofreu com isso”, concluiu.
A intenção ambiental permanece no centro da medida, mas o debate levantado por Rita Ferro Rodrigues e Joana Latino mostrou outro lado. Por detrás de algumas garrafas recolhidas estão pessoas para quem dez cêntimos já não são um incentivo ecológico. São uma forma de tentar chegar ao fim do mês.
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