Eclipse solar de 12 de agosto: quando até Leão fica sem luz, sendo ele o signo regido pelo Sol.
Sou Leão. Talvez isso explique a curiosidade especial com que olho para o eclipse solar de 12 de agosto. Ou talvez seja apenas uma boa desculpa para escrever sobre um fenómeno astronómico que, desta vez, será interpretado através da astrologia e da sua dimensão esotérica.
O eclipse será total numa faixa que atravessa, entre outros territórios, a Gronelândia, a Islândia e Espanha. A sombra chegará ainda a uma pequena zona do extremo nordeste de Portugal. No restante território nacional, será visível um eclipse parcial muito expressivo, já ao final do dia.
Depois há a astrologia.
O fenómeno acontece em Leão, signo regido precisamente pelo Sol.
É difícil encontrar uma imagem mais provocadora: o signo associado à luz, à expressão e à necessidade de ocupar espaço vê o seu próprio regente desaparecer durante alguns instantes.
Não é preciso acreditar que os astros decidem a nossa vida para reconhecer a força do símbolo.
Até o Sol pode ficar tapado.
O que sobra quando ninguém está a olhar?
Leão tem fama de gostar de palco. Muitas vezes, essa leitura é reduzida à vaidade, como se todos os leoninos acordassem diariamente à procura de um aplauso.
Há mais do que isso.
Leão representa criação, coragem, identidade e vontade de viver sem pedir desculpa pela própria presença. Na sua melhor expressão, ilumina sem precisar de apagar ninguém. Na pior, confunde atenção com amor e reconhecimento com valor.
Talvez seja aí que este eclipse nos toque.
Vivemos numa época em que quase tudo precisa de ser mostrado. Uma viagem só parece completa depois da fotografia. Uma relação precisa de publicações para ser reconhecida. Uma conquista ganha importância quando chegam os comentários.
Até a tristeza passou a ter enquadramento, música e legenda.
Não estamos apenas a viver. Estamos frequentemente a assistir à nossa própria vida, preocupados com a forma como será vista por quem está do outro lado.
O eclipse em Leão pode ser lido como uma interrupção nessa representação.
Durante alguns minutos, a luz deixa de estar disponível. A imagem perde nitidez. O palco escurece.
E ficamos nós.
Sem filtros. Sem aplausos. Sem a confirmação imediata de que alguém reparou.
Talvez a pergunta mais importante não seja aquilo que queremos atrair durante este eclipse. Talvez seja perceber quem somos quando ninguém está a validar o que fazemos.
Nem tudo o que termina é uma tragédia
Os eclipses carregam uma reputação pesada no esoterismo. Fala-se de ruturas, revelações, finais e acontecimentos capazes de mudar o rumo de uma vida.
Não gosto dessa forma alarmista de tratar o tema.
Um eclipse não vai terminar uma relação saudável apenas porque acontece em determinado signo. Também não nos vai entregar uma carreira, dinheiro ou um novo amor por termos acendido uma vela da cor certa.
A vida não funciona assim.
Contudo, estes momentos podem ser usados como marcos. Há datas que nos obrigam a parar e a olhar para assuntos que já estavam diante de nós, embora continuássemos a adiá-los.
Em Leão, o assunto parece ser a identidade.
A personagem que criámos ainda nos representa? Continuamos a procurar a aprovação de pessoas que já não fazem parte da nossa vida? Fazemos determinadas coisas porque nos dão prazer ou porque gostamos da imagem que constroem sobre nós?
Há versões antigas que sobrevivem apenas porque foram muito aplaudidas.
Continuamos a ser o amigo que resolve tudo, mesmo quando já não temos forças. Mantemos uma aparência de sucesso porque admitir cansaço parece uma derrota. Defendemos relações vazias para evitar que os outros percebam que falharam.
Por vezes, não estamos presos a uma pessoa ou a um lugar. Estamos presos à ideia que queremos que os outros tenham de nós.
Talvez o eclipse venha apenas colocar essa imagem às escuras.
Não para nos castigar. Para percebermos se ainda existe alguma coisa verdadeira por baixo dela.
A luz também pode cansar
Há uma romantização excessiva em torno da ideia de brilhar.
Dizem-nos para ocupar espaço, mostrar valor e nunca permitir que diminuam a nossa luz. Tudo isso pode ser importante. Porém, ninguém nos explica o cansaço de estar sempre aceso.
Também precisamos de desaparecer por algum tempo.
Não das responsabilidades nem da vida. Apenas do olhar permanente dos outros.
Há um descanso que só acontece quando deixamos de representar. Quando não temos de parecer fortes, felizes, resolvidos ou espiritualmente evoluídos.
O eclipse em Leão não me sugere uma luz nova a nascer. Sugere uma pausa na obrigação de iluminar tudo.
Nem todas as fases de recolhimento são fracassos. Nem todos os silêncios significam abandono. Há momentos em que ficar na sombra é a única maneira de perceber onde termina a expectativa dos outros e começa a nossa vontade.
Um Sol tapado não é um Sol morto.
Continua lá, mesmo quando não o vemos.
Talvez nós também continuemos inteiros nos dias em que não produzimos, não conquistamos e não temos nada de extraordinário para mostrar.
Não precisamos de anunciar outro renascimento
As redes sociais vão encher-se de rituais, previsões e frases sobre encerramentos definitivos. Haverá quem garanta que o eclipse abre um portal e quem aproveite a ocasião para vender a respetiva chave.
Cada pessoa viverá o momento como entender.
Eu dispensaria os anúncios grandiosos.
Quem decide verdadeiramente mudar raramente precisa de publicar um comunicado sobre a nova versão de si próprio. Há transformações que começam em silêncio e só são percebidas muito tempo depois.
Podemos usar o dia para escrever, descansar ou reconhecer aquilo que já não queremos alimentar.
Não é necessário cortar todas as pessoas, abandonar o emprego e mudar de país antes do pôr do sol.
Por vezes, libertar significa apenas deixar de insistir.
Deixar de pedir atenção a quem só aparece quando precisa. Parar de explicar uma decisão a pessoas que nunca quiseram compreendê-la. Aceitar que algumas portas não se fecharam contra nós. Apenas deixaram de conduzir ao lugar certo.
A astrologia pode servir como espelho, desde que não seja usada como sentença.
Não somos obrigados a terminar nada no dia 12 de agosto. Também não temos de sentir uma transformação imediata.
Podemos simplesmente observar.
O céu trata do espetáculo. Nós tratamos da honestidade.
Quando a sombra passar
O momento mais bonito de um eclipse talvez não seja o desaparecimento do Sol. É o seu regresso.
A luz reaparece devagar, embora saibamos que nunca chegou verdadeiramente a ir embora. Apenas ficou escondida pela passagem da Lua.
Acontece o mesmo connosco.
Há fases em que perdemos visibilidade, confiança ou direção. Deixamos de reconhecer a pessoa que éramos e ainda não sabemos quem estamos a tornar-nos.
Chamamos escuridão ao intervalo entre duas versões.
O eclipse de 12 de agosto pode recordar-nos que nem tudo o que fica invisível deixou de existir. O valor não desaparece quando os aplausos terminam. A identidade não depende de uma sala cheia.
Sou Leão. Gosto de pessoas com presença, de quem entra num lugar sem pedir desculpa e de quem não esconde a própria luz para tornar os outros mais confortáveis.
Mas também sei que brilhar não é obrigar toda a gente a olhar.
Talvez a verdadeira força esteja em permanecer inteiro quando ninguém está a ver.
No dia 12 de agosto, até o Sol ficará temporariamente sem palco.
Depois regressará, sem discursos, sem anúncios e sem precisar de explicar onde esteve.
Talvez tenhamos alguma coisa a aprender com isso.
E, porque a espiritualidade não substitui o bom senso, o eclipse deve ser observado apenas com proteção solar certificada. A alma pode gostar de símbolos. Os olhos continuam a precisar de cuidados.
