Europa coloca fertilidade no centro da agenda: cimeira em Lisboa define medidas urgentes para a aumentar.
Especialistas e decisores defendem resposta coordenada à queda da natalidade
Lisboa recebeu uma cimeira europeia dedicada a um dos temas mais sensíveis da atualidade: a fertilidade. O encontro “Tackling Infertility” reuniu representantes de vários países e deixou um alerta claro sobre o futuro demográfico.
Desde logo, a principal conclusão aponta para uma mudança de paradigma.
“Europa chamada a tratar a fertilidade como prioridade pública, social e económica, com medidas coordenadas entre países: educação reprodutiva nas escolas, licença parental universal, apoio às famílias e acesso a tratamentos de fertilidade entre as prioridades definidas em Lisboa.”
Assim, o tema deixa de ser visto como secundário e passa a integrar o debate político e social de forma estruturada.
Vontade de ter filhos esbarra em obstáculos reais
Ao mesmo tempo, dados apresentados durante o encontro mostram uma realidade complexa. A maioria das pessoas continua a querer ter filhos, mas enfrenta dificuldades.
“Inquérito em 14 países revela que a maioria das pessoas quer ter filhos, mas enfrenta barreiras económicas, laborais e de acesso à saúde.”
De facto, os custos de vida, a habitação e a instabilidade profissional surgem como fatores decisivos. Além disso, o acesso limitado a cuidados de saúde também pesa na decisão.
Medidas comuns definidas entre países
Entretanto, os participantes identificaram três áreas prioritárias: literacia, trabalho e acesso. O objetivo passa por criar condições mais favoráveis à parentalidade.
No campo da educação, destaca-se a necessidade de informar mais cedo.
“Na área da literacia, as principais recomendações passam por reforçar a educação sobre fertilidade e saúde reprodutiva nas escolas e plataformas digitais, garantir programas gratuitos de rastreio da fertilidade e aumentar a vontade política para colocar a fertilidade e as políticas familiares no centro da agenda pública.”
Por outro lado, no plano laboral e social, as propostas incluem mudanças estruturais.
“No eixo laboral e do acesso, os países defenderam medidas estruturais nas empresas para compatibilizar carreira e parentalidade, licenças licença parental universal e totalmente remuneradas para ambos os progenitores, cobertura dos tratamentos de fertilidade pelos seguros de saúde em condições idênticas a outras patologias e criação de incentivos financeiros que reconheçam o impacto económico das decisões familiares.”
Europa precisa de estratégia comum
Durante o debate principal, especialistas sublinharam a necessidade de maior articulação entre países.
Luca Gianaroli descreveu o cenário europeu como desigual.
“um mosaico”
Além disso, deixou um aviso direto sobre o papel da ciência.
“sem investigação, não há evolução”
Já Mónica Ferro trouxe dados relevantes sobre o comportamento das famílias.
“a pergunta certa não é quantos filhos a sociedade precisa, mas quantos filhos as pessoas querem ter e o que as impede de o concretizar”
Por sua vez, Marta Temido destacou o papel da União Europeia na resposta ao problema.
“deve ser entendida como parte do acesso universal e equitativo aos cuidados de saúde”
Portugal prepara mudanças no sistema de saúde
No plano nacional, o encontro serviu também para antecipar novas medidas em Portugal.
“Portugal prepara Programa Nacional para a Saúde Sexual e Reprodutiva e renova, 50 anos depois, o modelo de planeamento familiar com uma nova consulta integrada de saúde sexual e reprodutiva.”
Segundo Rita Sá Machado, a informação é um elemento central na tomada de decisões.
“as pessoas precisam de informação credível para decidir em liberdade”
Além disso, o sistema de saúde deverá apostar mais na prevenção e no diagnóstico precoce.
Alerta para o adiamento da parentalidade
Outro dos temas em destaque foi o impacto do adiamento da parentalidade. Luís Ferreira Vicente chamou a atenção para a falta de conhecimento sobre fertilidade.
“temos de falar mais cedo sobre fertilidade e não apenas quando surgem dificuldades”
O especialista defendeu ainda maior visibilidade para a infertilidade masculina, frequentemente esquecida no debate público.
Tecnologia pode acelerar respostas
Por fim, a transformação digital foi apontada como uma ferramenta essencial para melhorar o acesso aos cuidados.
Luís Goes Pinheiro destacou a importância da integração de dados no sistema de saúde.
“melhor informação permite melhores decisões e respostas mais rápidas”
Um desafio que exige respostas consistentes
Em conclusão, a cimeira deixou uma mensagem clara: a crise da fertilidade não se resolve com medidas isoladas.
Ao contrário, exige políticas contínuas, acesso facilitado a cuidados de saúde e condições reais para que as pessoas possam concretizar projetos familiares sem obstáculos sociais ou económicos.

