‘Falar de Nós’: Nuno Ribeiro destaca “é o disco em que não tive medo nenhum de falar de mim”

‘Falar de Nós’: Nuno Ribeiro destaca “é o disco em que não tive medo nenhum de falar de mim”, em entrevista ao Infocul.

Hoje, Nuno Ribeiro lança o tão aguardado álbum Falar de Nós, um trabalho que surge de um processo criativo muito pessoal e autêntico. “Isto foi todo um processo em que não há uma regra“, começa por explicar. Para Nuno, a criação das músicas não seguiu uma fórmula definida. “Houve músicas em que comecei pela melodia, há outras em que comecei pela letra. Mas maior parte das vezes… Este foi o álbum em que não tenho letras anotadas no telemóvel, nem em blocos de notas“, revela.

O seu método de composição foi diferente, permitindo que as emoções fluíssem livremente no estúdio, sem barreiras ou limitações. “Começávamos pelo instrumental e pela vibe que queríamos dar à música e as músicas foram feitas assim“, detalha Nuno, explicando como o processo foi levado à frente com muita espontaneidade.

Ou seja, com a música a surgir de forma orgânica, sem pressões externas. “Eu ia para dentro do estúdio, microfone à frente, lançava uma frase, por norma já vinha com letra, parava, ouvia, depois ia gravar mais duas ou três frases. Então, foi feito com sentimento real. Acho que é o disco mais real que gravei até hoje“, afirma, destacando como a sua própria vivência, com momentos de altos e baixos, influenciou diretamente a sua escrita.

“Eu quero que este disco mostre altos e baixos”

As músicas saíram facilmente porque foram escritas a partir do que vivi nos últimos tempos, com altos e baixos“, diz, sublinhando o carácter profundo e íntimo do álbum.

Em relação ao conceito do álbum, Nuno não hesita em afirmar o seu objetivo: “Eu quero que este disco mostre altos e baixos, altos e baixos, altos e baixos, na parte da letra, mas depois quero que haja o fio condutor em todo o disco“.

Assim, a dualidade presente nas músicas, entre momentos mais sombrios [na letra] e outros mais alegres [na melodia], é algo que Nuno procurou capturar.

Por isso, revelou que, tradicionalmente, as suas composições eram mais introspectivas e melancólicas, mas este disco vai além disso. “O mais simples para mim sempre foi compor letras mais introspectivas, melancólicas e depois a melodia acompanhava“, confessa.

Contudo, com o tempo, a necessidade de dar mais energia às suas performances ao vivo fez com que se arriscasse a criar algo mais animado. “Quisemos dar um ‘up’ nisso“, conta, lembrando que, para ele, o equilíbrio nas suas apresentações ao vivo é essencial. “Esta tour vai ser bastante mais animada que o normal“, garante.

Muitas pessoas que me acompanham ao vivo e eu também sentíamos que o concerto se tornava muito parado e nostálgico em muitas partes“, destacou.

“A minha atual namorada, é a minha inspiração para o disco, no bom e no mau, e ela sabe”

Quanto à sua abordagem emocional no álbum, Nuno não tem medo de falar sobre os seus sentimentos mais profundos. “Apesar de eu já ter falado de mim em algumas canções, no disco antigo, este é o disco em que não tive medo nenhum de falar de mim“, afirma, refletindo sobre a sua evolução como artista e ser humano.

Simultaneamente, Nuno fala com honestidade sobre momentos difíceis que viveu, como no caso da música Morrer por ti, na qual revela um período de desamor. “Foi uma fase em que estava mais em desamor e os meus pais me disseram ‘filho, não podes estar assim, és muito emocional, tens de ser mais racional’. E eu na música coloquei ‘hoje em dia eu sigo e respeito a opinião dos meus pais‘”, explica, deixando claro como este álbum representa uma reflexão sobre a sua vida e emoções.

O amor também surge como uma inspiração central para o álbum. “Posso dizer-te com todas as letras, que a Margarida [Antunes], a minha atual namorada, é a minha inspiração para o disco, no bom e no mau, e ela sabe“, revela Nuno.

No entanto, nem todas as canções são sobre experiências vividas de forma direta. Menina, por exemplo, é uma canção que “não se debruça sobre nada real“, mas sim sobre uma ideia imaginada de uma relação desigual. “Dei-te tudo aquilo que eu tinha, para acabar assim sem ti“, canta ele na música, expressando a dor de dar tudo a alguém sem receber nada em troca.

Fui buscar os instrumentistas que mais adoro e acho que isso deu algo completamente diferente

A canção que dá título ao disco, Falar de Nós, sintetiza o espírito do álbum. “A música é simplesmente um resumo do disco todo, ‘se o teu coração falasse, o que é que ele diria?’“, questiona Nuno, refletindo sobre as complexidades das relações amorosas.

Para ele, ‘Essa Mulher é uma “reconstrução da música para 2025“, uma adaptação da tradição musical portuguesa aos tempos atuais, tendo em conta que esta canção parte da tradicional ‘Mulher Gorda’.

Na sua versão, “a música só fala de enaltecer a mulher, da mulher ser a coisa mais bonita e perfeita do mundo“, explica, falando sobre como procurou transmitir uma mensagem positiva e inspiradora.

Neste processo criativo, Nuno procurou enriquecer o som com influências diversas, procurando colaboração com artistas que melhor servissem as canções. “Fui buscar os instrumentistas que mais adoro e acho que isso deu algo completamente diferente“, explica, mencionando a contribuição de artistas como Manecas Costa e Miroca Paris, que trouxeram elementos latinos e africanos ao disco.

Porém, também destaca a importância da produção colaborativa, algo que se reflete na diversidade e riqueza sonora do álbum. “Estou numa fase de ir buscar cada vez mais influências“, conta Nuno, referindo-se ao seu desejo de explorar novas sonoridades e sair da zona de conforto da produção individual.

Eu costumava mais compor sozinho. Neste disco foi uma grande ajuda para o processo criativo“, admite.

A sua vulnerabilidade emocional também se reflete nas palavras, revelando um lado mais introspectivo e sensível. “Eu sou o tipo de homem que quando conhece alguém, vive aquilo com uma intensidade brutal“, diz ele, referindo-se à sua forma intensa de viver as relações.

Nuno Ribeiro: “O estar sozinho cria-me um sentimento de como se não tivesse ninguém”

No entanto, também reconhece que a sua natureza emocional pode ser um desafio em certos momentos. “Eu sempre fui muito apaparicado, muito mimado no bom sentido“, confessa, falando sobre a dificuldade em estar sozinho. “O estar sozinho cria-me um sentimento de como se não tivesse ninguém. Como se fosse uma pessoa solitária“, desabafa, revelando uma faceta de si que tem trabalhado para superar.

Por fim, Nuno faz uma reflexão sobre o seu percurso artístico e o legado que gostaria de deixar. “Não estou aqui para provar nada a ninguém. Já estive!“, declara com convicção, sublinhando que a sua missão não é agradar a todos, mas sim ser fiel a si próprio.

O que quero que fique é ‘um ser humano como outro qualquer, a quem foi dado uma grande dádiva que é conseguir escrever, compor e transmitir aquilo que quero às pessoas’“, conclui, reafirmando a sua autenticidade e o desejo de que a sua música fale por si mesma, independentemente das expectativas alheias.

Neste novo álbum, Falar de Nós, Nuno Ribeiro não só partilha as suas experiências e emoções mais profundas, mas também desafia as convenções e explora novas sonoridades.

Ou seja, criando uma obra genuína e cheia de alma. Através de um processo de colaboração e de uma sinceridade brutal, Nuno entrega ao público um disco que é, acima de tudo, um reflexo de quem ele é, tanto como artista como ser humano.

O coração dele está do lado certo, basta que o público o queira descobrir e aceitar, nas luzes e sombras pelas quais todos passamos. Dia após dia. No fim, só o amor (e a arte) nos salva.

‘Falar de Nós’ de Nuno Ribeiro:

Imagina
Amor Limbo (com Bluay)
Essa Mulher
Menina
Morrer por Ti
Desculpa
Vai dar certo
Rosa (com Conan Osíris)
Maria Joana (com Calema e Mariza)
Falar de Nós

Curiosidades sobre algumas das canções

O ‘Imagina’ surgiu numa tarde, num bangalô, no campo, que é no estúdio do Diogo Guerra. Foi numa fase instável. E acho que a música mostra isso. Uma fase em que pensava “eu gostava muito de ficar com aquela pessoa, mas já vi que isto foi um tiro ao lado. Mas imagina que noutra vida eu conseguia ficar com essa pessoa. E a música surgiu daí”. O instrumental quisemos que fosse uma viagem à volta disso“, contou.

E tu falas do instrumental, mas acho que não é só o instrumental que dá esse imput. É também a mistura. Demorámos quase um mês nessa mistura. A ponto de mandarmos vozes só para a esquerda, vozes só para a direita. A ponto de tu ou pessoas que não percebam da parte mais técnica, não vão saber o que está a acontecer, mas vão sentir e perceber “isto está aqui uma coisa diferente”. Depois outra coisa, isso quis fazer no disco todo. Esta música é mais latina, mais afro, então fomos buscar o Manecas Costa, que é uma referência na guitarra e veio gravar guitarras para a música“, referiu.

Nuno Ribeiro: ‘Morrer por Ti’

Em ‘Morrer por ti’, a canção começa por “Não queiras gostar de mim”, de ‘Nem às paredes confesso, eternizado por Amália Rodrigues.

Nesse sentido, questionámos sobre a ligação ao Fado: “Acima de Fado, eu gosto mesmo muito de música portuguesa e do que já se fez. E, provavelmente, os jovens da minha idade são capazes de não conhecer essa música [Nem às paredes confesso]”, afirmou.

Nuno Ribeiro: Essa Mulher

O ‘Essa mulher’ [que parte da tradicional ‘Mulher Gorda’] são capazes de conhecer o refrão, mas o resto nem tanto. Então a ideia é, num registo que à partida eles vão ouvir, vão notar alguns pormenores de músicas que são emblemáticas que se fizeram em Portugal e de artistas que marcaram a cultura. É isso que tento fazer um bocadinho nas minhas músicas”, destacou, fazendo ligação a outro tema.

Acaba por ser uma reconstrução da música para 2025. Dos tempos que vivemos actualmente. A música só fala de enaltecer a mulher, da mulher ser a coisa mais bonita e perfeita do mundo. Eu sempre quis fazer uma música com um refrão tradicional mais antiga, e por isso fui a essa música buscar o refrão, o resto fiz tudo original”, destacou.

E na bridge [secção da música que liga duas partes distintas, geralmente o verso e o refrão] estava com alguns problemas em sacar uma letra e uma música. Então decidi “vou escrever um poema e vou dizê-lo”. Só que a minha voz foi feita para cantar e não para declamar poemas. Então rapidamente percebemos que era bonito colocarmos aqui uma voz bonita e que carregue história e alma profunda. Eu e muita malta aqui da Warner [Music] rapidamente nos lembrámos do José Raposo, ele ouviu o tema, graças a Deus adorou e no dia seguinte estava cá a gravar. E faz parte do videoclipe também“, acrescentou.

Regressando ao ‘Morrer por ti’, confessou: “E, às vezes, essas frases ajudam-me a desbloquear por completo o resto da canção. Eu não tinha letra nenhuma, a canção começa com essa frase, os acordes pareciam que me estavam a levar para essa música e pensei “vamos só fazer referência a essa frase e a partir daí partimos para a música”.

Tal como no “Menina” temos o “Sodade” [de Cesária Évora], tudo coisas que fui sentido. Nenhuma das minhas músicas se baseia, nem sequer em 50% de uma música que já exista, mas gosto de ir buscar alguns motes”, assinalou ainda sobre outra canção.

Maria Joana: Nuno Ribeiro, Calema e Mariza

Um verdadeiro fenómeno de visualizações, no qual mesclou Fado, Folclore, afro e pop.

Houve receio em misturar, por exemplo, o Folclore e a Pop? “Receio não. Quando fizemos isso, acreditámos muito no que estávamos a fazer. Mas sabíamos “isto não tem meio termo, ou a malta odeia ou a malta ama”. E felizmente a malta amou, agarrou a música e foi das músicas mais ouvidas desse ano. Aquilo que tenho procurado é fazer algo original, diferente. Estávamos a falar em off e digo-te, se eu fosse fazer um álbum mais pop – não é que não fosse correr bem – acho que é mais arriscado aquilo que estou a fazer, este disco é um pouco à imagem do ‘Rosa’ e do ‘Maria Joana’, em que penso, “se não correr bem, não corre. Mas se correr bem, pode dar um brilho diferente à minha carreira”. E é isso que estamos a tentar e a acreditar“.

Nuno Ribeiro: O Caminho para o Sucesso

Eu acredito, e pelo menos educaram-me assim, que quando tu trabalhas, esforças-te, não ultrapassas por cima de ninguém, são aqueles clichés, mas que são muito importantes ao fim do dia. Quando és um bom ser humano, quando crias um bom ambiente à tua volta, o lema que temos é “pode demorar mais, demorar menos, mas não tem como não acontecer”. Obviamente que, no passado, se calhar por eu ser tímido, não ligar tanto a redes sociais, isso pode não me ter ajudado tanto a esse crescimento. Porém, acho que o crescimento que fui tendo até agora é sólido e verdadeiro. Nunca impingimos nada a ninguém. As pessoas ouvem, gostam, o público vai crescendo e, se Deus quiser, há de continuar a ser assim“.

Texto e Entrevista: Rui Lavrador
Fotografia: Diogo Nora

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