José Geadas no NOS Alive: a voz segura de quem já conquistou o seu lugar no fado

José Geadas no NOS Alive: a voz segura de quem já conquistou o seu lugar no fado, deixou de ser promessa e é uma certeza.

José Geadas subiu ao Palco Fado do NOS Alive sem ruído desnecessário e com a serenidade de quem sabe ao que vem. A primeira passagem pelo festival mereceu-lhe poucas palavras, ditas de forma direta e com a simplicidade que também transporta para a música.

“Prazer estar pela primeira vez a tocar neste maravilhoso festival. O meu nome é José Geadas, mais conhecido como Geadas. Irei apresentar-vos um espetáculo de fados e espero que desfrutem do concerto.”

Foi isso que aconteceu. Sem grandes artifícios, Geadas entregou um concerto curto, bem construído e muito seguro, onde a voz encontrou a medida certa para cada poema.

Como enquadramento, explicar que Geadas fez duas atuações, como habitualmente acontece neste palco, sendo este texto baseado na segunda.

- Publicidade -

O fadista alentejano carrega a tradição com naturalidade. Não a usa como uma bandeira pesada, nem procura afastar-se dela para provar modernidade. Canta o que sente, respeita aquilo que recebeu e encontra dentro do fado espaço para mostrar quem é.

Esse equilíbrio voltou a ser uma das forças da atuação no NOS Alive.

Uma voz que sabe que o poema vem primeiro

José Geadas tem uma voz segura, mas a sua principal qualidade talvez esteja na forma como a coloca ao serviço das palavras.

Não existe a tentação constante de mostrar voz pela voz, nem uma procura obsessiva pelo momento de aplauso. Cada poema é dito com intenção e cada verso recebe espaço para chegar ao público.

Isso sentiu-se desde a passagem pelo Fado Súplica e pelo Fado Alberto, num início onde Geadas mostrou logo a consistência interpretativa que tem vindo a construir ao longo dos últimos anos.

Mais adiante, o Fado Cravo trouxe novamente a tradição para o centro do concerto, evocando um universo ligado a nomes fundamentais como Alfredo Marceneiro e João Ferreira Rosa.

Geadas conhece bem esse chão.

Contudo, conhece-o sem reverência excessiva, o que é bastante diferente de falta de respeito. Há segurança suficiente para entrar nos fados tradicionais sem os tratar como peças intocáveis.

O resultado é uma interpretação viva, feita para o presente, mas sempre consciente da história que a antecede.

O acompanhamento deu espaço à voz sem perder personalidade

José Geadas apresentou-se acompanhado por três músicos de grande qualidade: Ângelo Freire na guitarra portuguesa, Bernardo Saldanha na viola de fado e Rodrigo Correia no contrabaixo.

A formação encontrou rapidamente um equilíbrio onde ninguém precisou de disputar atenção.

Ângelo Freire confirmou, mais uma vez, a qualidade e sensibilidade que fazem dele um dos nomes mais reconhecidos da guitarra portuguesa atual. O seu toque acompanhou a voz de Geadas com inteligência, sabendo abrir espaço quando necessário e assumir presença quando a música o permitia.

Bernardo Saldanha garantiu a base com segurança e atenção permanente à respiração dos temas, enquanto Rodrigo Correia acrescentou profundidade ao conjunto.

Num concerto de duração reduzida, essa coesão foi particularmente importante.

Não havia tempo para grandes desvios ou longas construções. Era necessário entrar rapidamente dentro de cada fado, encontrar a sua identidade e seguir para o seguinte sem perder unidade.

Foi precisamente isso que o quarteto conseguiu.

“Amor à Solta” mostrou Geadas como intérprete atento

Entre os vários momentos do alinhamento, “Amor à Solta”, com letra de Tiago Correia na música do Fado Corrido, mostrou novamente a atenção que Geadas dedica ao texto.

O Fado Corrido, como tantas outras estruturas, vive também das muitas palavras que encontra ao longo do tempo. O desafio está sempre na escolha, na interpretação e na capacidade de fazer um poema soar verdadeiro na voz de quem o canta.

Geadas conseguiu-o sem exagero.

Há nele uma forma de interpretar que evita empurrar artificialmente a emoção. O poema é trabalhado através da intenção, da clareza e da colocação da palavra, deixando que a força apareça sem ser forçada.

Essa característica acompanha boa parte do seu repertório e ajuda a explicar a consistência que tem mostrado.

“Outros Amores” trouxe outra dimensão, com letra de Tiago Torres da Silva e música do próprio José Geadas.

Aqui encontrou-se também o criador, alguém que começa a deixar marca própria no repertório que apresenta, sem abandonar o diálogo permanente com a tradição.

O público foi chegando e decidiu ficar

O Palco Fado foi ganhando gente à medida que o concerto avançava.

Num festival com vários estímulos em simultâneo e muita gente a circular entre espaços, essa aproximação progressiva tem sempre significado. Alguns festivaleiros chegaram por curiosidade, outros já sabiam ao que vinham, mas a verdade é que o espaço foi ficando cada vez mais composto.

Entre público sentado e muitas pessoas de pé, formou-se uma assistência atenta e interessada.

Geadas não precisou de grandes discursos para conquistar quem chegava.

Aliás, tratando-se de um concerto mais curto, a interação foi naturalmente mais reduzida. Quem conhece José Geadas sabe que é um bom falante e que tem facilidade para criar proximidade fora das canções, mas naquele palco havia pouco tempo e muito fado para mostrar.

A escolha foi eficaz.

Falou quando era necessário, apresentou-se a quem ainda não o conhecia e deixou que o repertório explicasse o resto.

Num concerto desta natureza, isso bastava.

“Trigueirinha” soltou o ambiente e encontrou resposta no público

A passagem por “Trigueirinha” trouxe uma energia diferente ao concerto e animou particularmente alguns dos fadistas que estavam entre o público.

Foi um momento de maior descontração, com uma resposta imediata de quem conhecia o tema e percebeu a mudança de ambiente.

Geadas soube acompanhar essa reação sem alterar a natureza do espetáculo.

A sobriedade continuou presente, mas nunca confundida com rigidez. O fadista tem uma forma discreta de estar em palco, embora seja capaz de mudar a pulsação de uma atuação quando o repertório o pede.

Essa capacidade também faz parte da sua maturidade.

Nem tudo precisa de ser cantado com a mesma densidade e nem todas as emoções devem chegar pela mesma porta.

O concerto ganhou, assim, diferentes tonalidades, mesmo dentro do tempo limitado disponível.

José Geadas já não é promessa. É certeza

Talvez seja tempo de deixar de falar de José Geadas como promessa.

A palavra serve durante algum tempo, mas chega um momento em que começa a ser injusta. Geadas já demonstrou suficientemente aquilo que vale enquanto intérprete, a segurança que tem em palco e o conhecimento profundo da matéria que canta.

O concerto no NOS Alive voltou a confirmá-lo.

Há nele uma relação natural com o fado, uma voz que conhece os seus limites e as suas possibilidades, e uma inteligência interpretativa que não procura atalhos.

O reconhecimento público ainda não acompanha totalmente a dimensão do seu talento, mas isso não diminui aquilo que já é evidente.

Nascido no Alentejo, José Geadas começa há muito a ultrapassar fronteiras regionais e a conquistar espaço num género onde a segurança não se constrói apenas com técnica.

É preciso verdade. É preciso saber dizer. Também é preciso perceber que o poema não é um adereço para a voz.

No Palco Fado do NOS Alive, Geadas voltou a mostrar tudo isso com uma atuação sóbria, segura e muito bem acompanhada.

O resto será uma questão de tempo. Porque talento não lhe falta. E promessa, sinceramente, já deixou de ser há bastante.

Fotografia: Fábio Teixeira – Facebook de José Geadas

- Publicidade -

Destaques

Nick Cave no NOS Alive: uma missa selvagem entre a fé, a perda e o amor

Nick Cave no NOS Alive: uma missa selvagem entre...

Scorpions na MEO Arena: 60 anos depois, ainda há quem saiba fazer música para ficar

Scorpions na MEO Arena: 60 anos depois, ainda há...

Do underground português para os circuitos internacionais

Entrei na indústria da música muito cedo e comecei...

Iron Maiden voltam a provar porque continuam a ser uma referência do heavy metal

Iron Maiden voltam a provar porque continuam a ser...

O país arde e nós fazemos scroll

O país arde e nós fazemos scroll, dia-a-dia, hora-a-hora,...
- Publicidade -

Reportagens

- Publicidade -

Artigos relacionados