Francisca Borges entre o “Altar”, a ironia e a coragem de assumir um sonho: “Escrever é a minha terapia há anos”

Francisca Borges entre o “Altar”, a ironia e a coragem de assumir um sonho: “Escrever é a minha terapia há anos”, disse ao infocul.pt/dev/.

Assim, Francisca Borges apresenta o videoclip de “Altar”, tema do EP “Monomania”, e fala ao Infocul sobre o primeiro concerto, escrita, pop rock, terapia, sonhos e futuro.

Francisca Borges lança “Altar” e abre mais uma porta no universo de “Monomania”

Francisca Borges está naquela fase rara em que tudo parece ainda começo, mas já há sinais claros de identidade. A cantora e compositora portuense apresenta o videoclip de “Altar”, tema que integra o EP de estreia, “Monomania”, editado pela Warner Music Portugal.

Depois de “Que Pena”, “Coitada” e “E Se Eu Contasse”, com participação especial das Más Influências, a artista volta a entrar no território onde melhor se move: o amor, o desamor, a ironia, a ferida e a vontade de transformar tudo isso em canções que se cantam alto.

Francisca Borges resume a intenção das músicas com uma frase que ajuda a compreender o fenómeno: “Escrevi estas músicas para serem quase amigas de quem as ouve: para podermos dançar, gritar e chorar juntos”.

E talvez seja mesmo aí que começa a força da Francisca. Não na ideia de ser apenas mais uma voz pop. Mas na forma como escreve para quem sente demais, pensa demais e, mesmo assim, quer dançar.

O videoclip de “Altar” chega com realização e direcção de fotografia de Pedro Bessa. A produção é de Miguel Pinto e Inês Bento. Tal como nos vídeos anteriores, o humor e o sarcasmo voltam a aparecer como parte da assinatura visual da artista.

Mas, antes do vídeo, houve palco. E houve um primeiro concerto. E já existiam outras canções lançadas.

“Ainda estou em choque”: o primeiro concerto como ponto de viragem

Francisca Borges actuou recentemente no palco principal do Enterro do Ano da Queima de Aveiro. Foi o primeiro concerto da artista e aconteceu com uma banda de formação rock clássica, exclusivamente feminina.

Quando questionada sobre quem é a Francisca Borges depois desse momento, a resposta saiu ainda com espanto.

“Uau, a Francisca Borges que acaba de dar o primeiro concerto… Eu acho que ainda estou em choque. Eu ainda estou no pós. Ainda estou a absorver tudo. Aquilo parece que foi um sonho. Eu não estava nada na minha realidade.”

O impacto foi imediato. Não apenas pela dimensão do palco, mas pela confirmação de que as canções já tinham vida fora das plataformas.

“Acho que tenho a certeza. Deu-me muita pica para escrever mais e mais e mais. Porque eu sei que, a seguir ao concerto… Eu já costumo escrever muito. Mas a seguir ao concerto foi uma coisa inacreditável. Eu ando a escrever mais. E estou muito entusiasmada para fazer os próximos.”

Há artistas que precisam de palco para se encontrarem. Francisca parece ter encontrado no palco uma espécie de autorização interior. Como se a resposta do público tivesse tornado mais real aquilo que ela já carregava.

E isso sente-se quando fala. Há entusiasmo, sim. Mas também há uma consciência muito clara do caminho que quer construir.

A ironia como alter ego

Uma das marcas mais evidentes da escrita de Francisca Borges é a ironia. Há sarcasmo, há humor, há aquela capacidade de transformar pequenas feridas emocionais em frases que ficam.

Mas fora das canções, a artista não se descreve exactamente da mesma forma.

“Acho que não. Acho que é mesmo a maneira como eu processo algumas emoções e raivinhas que eu tenho dentro de mim. Que eu no dia-a-dia não me deixo expressar, não é?”

Depois, explicou melhor esse lugar onde a escrita nasce.

“Através da minha escrita eu consigo ir ali e buscar umas coisinhas que eu pensei naquele momento. O que eu pude dizer e o que eu não disse. E portanto eu acho que a persona que eu tenho nas minhas músicas é um alter ego meu.”

Esta ideia é importante. Porque a Francisca que escreve não parece inventar uma personagem falsa. Parece, antes, libertar uma versão mais afiada de si própria.

Há ali verdade. Mas uma verdade trabalhada com teatralidade, humor e pop rock.

Quando lhe é sugerido que escrever talvez seja enfrentar demónios, a resposta vem sem hesitação.

“Eu diria 100% que sim. Eu acho que para mim até nem vale a pena escrever música se não for sobre alguma coisa que eu esteja a procurar dentro de mim.”

E continua: “Se for o que eu já estou habituada a pensar e a lidar cá fora, eu sinto que a música, pelo menos para mim, não é muito especial. Eu gosto muito de vasculhar e pegar nas coisas que eu tenho vergonha de sentir. Vergonha de dizer e estas coisas todas.”

É aqui que Francisca Borges se torna interessante. Não porque canta apenas sobre desamor. Mas porque percebe que a canção pode ser um sítio onde se diz o que, cá fora, muitas vezes fica engolido.

Pop internacional com letra portuguesa

Francisca Borges tem sido comparada a nomes internacionais da pop actual, quiçá numa aproximação ao universo de Olivia Rodrigo ou Sabrina Carpenter.

A própria Francisca não foge a essa ligação.

“Eu acho que internacionalmente, muitos até dos nomes que têm surgido quando falam na minha música, são as meninas do pop do momento, que eu adoro, que é a Tate McRae, a Olivia Rodrigo, a Sabrina Carpenter.”

No entanto, o objectivo não é copiar um modelo. É trazer uma linguagem global para português.

“Eu queria muito trazer um bocadinho desse som internacional com letra portuguesa, que era uma coisa que eu, enquanto consumidora, gostava de consumir cá em Portugal.”

A frase explica muito. Francisca não está a tentar parecer estrangeira. Está a tentar fazer em português uma música que não soe pequena, nem fechada no mercado nacional.

E isso é uma diferença importante.

Porque durante demasiado tempo o pop português pareceu pedir licença para existir. Francisca não pede. Entra com guitarras, refrões, sarcasmo, vídeo, imagem e vontade de construir universo.

O rock que veio do pai e a herança pop rock

Além da pop, há rock na música de Francisca Borges. Não é um detalhe estético. Vem de casa.

“100% o meu pai é, tipo, um dos maiores fãs de rock de sempre e ele fazia mixtapes, que nós ouvíamos constantemente no carro.”

A artista recorda que passava muito tempo com o pai em criança. E essas viagens deixaram marcas.

“Eu sou grande fã de Fleetwood Mac, Dire Straits.”

Depois, junta outra fase da formação musical.

“Cresci constantemente a ouvir estas coisas. E depois, aquela fase da Disney e pop rock também me influenciou imenso a crescer.”

A mistura é reveladora. De um lado, as bandas que o pai lhe apresentou. Do outro, o pop rock adolescente, mais cinematográfico, mais directo e mais emocional.

“Eu tinha o meu pai e depois, quando eu via aquelas músicas da Disney, eu também gostava imenso e aderia sempre imenso ao pop rock. Então acho que foi uma mistura.”

E essa mistura nota-se. As canções querem ser cantadas. Mas também querem ter corpo. Querem guitarras, bateria, baixo e energia de palco.

Preparar o palco, visualizar e aceitar o que vem

O primeiro concerto não foi encarado de forma leve. Francisca preparou-se com disciplina.

“Eu acho que eu preparei-me o melhor possível, eu acho que não era possível ter-me preparado mais.”

Depois, contou como treinou.

“Quando eu soube que ia ter um concerto, só os fins de semana é que não treinava.”

A preparação não foi apenas vocal ou performativa. Houve também visualização.

“O que eu tentava fazer era muito uma técnica de visualização, porque como isto é uma coisa tão importante para mim, eu estava muito nervosa.”

A razão era simples: aquele palco carregava anos de trabalho e expectativa.

“Eu estou a trabalhar neste projeto há imenso tempo e mesmo quando eu assinei com a Warner é uma coisa para mim que ainda hoje é super especial. Este projeto é mesmo muito especial para mim.”

Francisca sabia que podia ficar mais vulnerável ao ver o público diante dela.

“Trazê-lo pela primeira vez às pessoas, para mim era uma coisa tão importante que eu treinei, treinei, treinei e visualizei, porque sabia que ia ficar um bocadinho mais frágil.”

Contudo, a sua relação com a ideia de manifestação mudou.

“Eu gosto de não pedir nada ao universo, porque ao longo da minha curtinha vida, eu acho que percebi que os planos do universo são maiores do que os meus planos.”

E talvez essa seja uma das frases mais maduras da entrevista.

“Hoje em dia estou mais de braços abertos para o que vem.”

“Altar”: Friends, ciúmes e uma tragédia com humor

O novo videoclip é de “Altar”, mas Francisca avisa que o tema não nasceu de uma experiência literal.

“Não, não fui, por acaso não.”

A inspiração veio de outro sítio: da série Friends.

“Acho que fui inspirada muito na série Friends, quando o Ross diz o nome da Rachel quando vai casar com a Emily, que eu adoro essa série.”

A ideia da canção nasceu desse exagero emocional. O pior cenário possível. O momento em que o ciúme se transforma em imagem dramática.

“Quando estava a escrever essa música, eu pensei tipo, isto é o cúmulo dos cúmulos. Quando temos aquela emoção de ciúmes e tudo mais, o cúmulo dos cúmulos é a pessoa com quem vamos casar dizer o nome daquela pessoa que nós temos medo que ele diga.”

E conclui: “Eu achei que isso era engraçadíssimo para dizer numa música.”

É precisamente essa capacidade que a distingue. Francisca pega numa emoção comum e empurra-a para o absurdo pop.

A dor existe. Mas a abordagem não é carpideira. É teatral, irónica e visual.

Histórias de emoções, não apenas autobiografia

As músicas de Francisca Borges parecem confessionais. No entanto, a artista recusa uma leitura demasiado literal.

“Sabem que as minhas músicas são um bocado dramáticas também.”

Depois, assume uma característica que atravessa toda a entrevista.

“Eu acho que eu sou uma típica overthinker, sabes?”

E explica a forma como trabalha as emoções.

“Tudo o que eu escrevo nas minhas músicas é tão analisado na minha cabeça. Eu sei exatamente tudo o que eu estou a dizer.”

Mas há uma nuance importante.

“Eu acho que eu também sou um bocado autobiográfica, mas também não sou exatamente autobiográfica.”

Francisca prefere falar de emoções a fazer um diário factual.

“Eu foco-me mais em contar histórias das minhas emoções do que histórias que me aconteceram. E eu acho que isto tem mais a minha verdade.”

Esta frase talvez seja uma chave para ouvir “Monomania”. Não interessa procurar quem é quem. Interessa perceber o que ficou dentro dela.

Terapia, escrita e falar para fora

A gestão emocional é uma das camadas mais bonitas da conversa. Francisca fala dela sem pose e sem esconder fragilidade.

“Eu ando na terapia. Faço terapia. Que eu gosto muito. Escrevo muito.”

Depois, especifica: “Psicoterapia. E eu escrevo muito. Escrever é a minha terapia há anos.”

A escrita acompanha-a desde cedo.

“Comecei a escrever mesmo muito novinha. 8, 9, 10 anos eu já escrevia diários.”

Mas a escrita não é a única forma de organizar o mundo.

“Eu falo muito. Penso muito para fora. Eu falo muito. Falo com a minha mãe. Eu falo com as minhas amigas. Eu falo com os meus amigos. Exteriorizo muito as coisas que eu penso. E canto hoje também.”

É uma resposta simples, mas revela uma artista em construção. Alguém que percebe que criar não é apenas produzir conteúdo. É aprender a sobreviver ao que se sente.

Quando lhe pedem a frase mais profunda que já escreveu, começa por recordar uma canção não publicada.

“Eu lembro-me que eu escrevi uma frase… Mas esta não foi publicada. Sobre as dores do crescimento. E dizia: se eu me sinto assim aos 20, como é que se sente a minha mãe?”

Depois, encontra uma frase já lançada que a toca de forma especial.

“Há uma frase na minha música, ‘01:05’, que eu acho que é mesmo profunda, que é: tu não tiveste nada para dizer, e eu só queria alguém com quem falar. E isto, para mim, toca-me mesmo no íntimo.”

A necessidade de vida do outro lado

Francisca gosta de comunicar. Gosta de resposta. Que a contradigam. Gosta de sentir que há vida do outro lado.

Quando a conversa chega à importância de ser ouvida ou de ter alguém que fale, responde com cuidado.

“Porque se alguém estiver sempre a falar e não nos ouvir, nós sentimos um bocado sozinhos, não é? Mas ao mesmo tempo, se nós só tivermos alguém que nos ouça, falta-nos vida do outro lado.”

Esta ideia atravessa também a relação com o público.

“Eu também me relaciono muito com artistas e com letras e com músicas que eu noto que são muito íntimas. E noto que são verdadeiras. Ou seja, que não têm grandes barreiras.”

Francisca procura essa abertura.

“Eu gosto de coisas novas, constantemente. E eu gosto que me mudem de opinião, e eu gosto que me contradigam. E portanto, para mim é importante sentir essa vida do outro lado.”

Depois, deixa uma frase que podia ser quase lema geracional.

“Eu acho que no dia em que nós pararmos de mudar, acabou.”

Referências portuguesas e a nova vaga pop

Quando fala de referências nacionais, Francisca recua à infância.

“Quando era pequenina, eu gostei muito de ouvir Rui Veloso, Jorge Palma, GNR, Xutos. Eu gosto muito dessa onda. Rádio Macau também.”

Depois, aproxima-se do presente.

“Hoje em dia, eu gosto muito das miúdas da pop. Eu acho que é uma coisa que está a crescer já há alguns anos em Portugal. E eu gosto muito. Eu estou ali, eu sou fã.”

Sobre Pedro Abrunhosa, também portuense, não esconde admiração.

“Sim, eu gosto imenso. Mas é uma lenda. Ou seja, acho que é impossível alguém não gostar de Pedro Abrunhosa.”

Há aqui uma linha interessante. Francisca ouve tradição, mas move-se no presente. Respeita nomes maiores, mas quer fazer parte de uma geração que cria linguagem própria.

Mais música a caminho

Sobre novidades discográficas, Francisca prefere não revelar demais.

“Eu não posso dizer muita coisa, mas eu consigo dizer que muita música está a ser preparada, e espero que saia muito em breve.”

Para já, há “Altar”.

“Sim, entretanto temos um ‘Altar’.”

Quanto ao futuro, a artista espera que haja mais singles este ano.

“Eu espero que sim. Eu espero tudo que sim. Quanto mais música, para mim, melhor.”

E quando se fala num primeiro trabalho maior, com várias canções, aponta para o próximo ano.

“Eu espero que no próximo ano.”

Depois, perante a hipótese de 2027, responde: “Eu espero que sim.”

Não há datas fechadas no que diz. Há desejo, trabalho e vontade de continuar a lançar música.

A coragem de assumir o sonho

A música nem sempre foi assumida como destino. Francisca precisou de tempo para dizer em voz alta que queria ser cantora e compositora.

“Eu precisei de muita coragem para aos 19 dizer…”

Depois, explicou esse processo.

“Aos 19 eu decidi lançar e assumir que eu tinha esta vertente de querer ser música, querer ser cantora, compositora.”

Mas a decisão familiar e prática chegou depois.

“Foi aos 20, 21 que eu disse à minha mãe e aos meus pais, quando acabei a faculdade, para ter um ano em que eu me tentasse dedicar a esta carreira da música.”

Antes disso, havia uma espécie de caminho ao lado.

“Quando nós não temos coragem de admitir os nossos sonhos, nós vamos à volta. Eu digo assim, ah, eu não quero ser cantora, mas quero trabalhar em música. Quero trabalhar em som.”

Francisca estudou som e imagem. Mas a verdade estava mais à frente.

E teve apoio em casa.

“Eu sou tão agradecida aos meus pais. A minha mãe e o meu pai são os meus melhores amigos.”

O pai, ligado à música, foi incentivo e ajuda.

“O meu pai não só me incentivou, como me ajudou.”

Sobre a mãe, a ternura aparece sem defesa.

“A minha mãe é a minha maior fã, eu adoro.”

E conclui: “Se eles não tivessem dado este apoio, eu não conseguiria estar aqui hoje.”

O público que se sente ouvido

Francisca tem recebido mensagens de ouvintes que se identificam com as músicas. Muitas vêm de adolescentes, mas não só.

A artista gosta desse contacto porque dá rosto a quem a escuta.

“Eu gosto muito de receber mensagens, porque é aí que eu sinto que ganham uma cara, não é?”

O conteúdo repete-se muitas vezes.

“A maior parte delas são a dizer que se sentem ouvidas, que para mim é maravilhoso.”

Esse é, talvez, o maior objectivo da sua música.

“O meu maior objetivo quando eu crio música… Porque eu sou uma pessoa que eu adoro música. O que eu faço com as músicas que eu ouço é: eu torno-as minhas.”

E acrescenta: “Elas fazem mais parte de mim, mais do que até do cantor ou da banda que está a cantá-las. É isso que eu espero fazer com as pessoas.”

Francisca sabe, no entanto, que não pode responder a tudo. Até porque também trabalha como gestora de redes sociais.

“No meu tempo livre, gosto-me de me afastar muito das redes sociais. Apesar de que é lá que eu comunico.”

Ainda assim, gosta de perceber o que lhe dizem.

“Mais do que curiosidade, eu gosto de saber o que é que as pessoas me querem dizer.”

Mas evita assumir um lugar de conselheira.

“Eu sou só uma pessoa. Eu estou no mesmo nível que eles em relação à sabedoria da vida.”

E essa lucidez é rara. Francisca agradece, mas não se coloca acima.

“Eu tento manter-me na minha posição, que é agradecer imenso o amor todo que me dão e a possibilidade de estar a fazer esta carreira.”

Incerteza, crenças e a vida que obriga a olhar

A incerteza também faz parte do percurso.

“Tudo faz parte do meu dia-a-dia.”

Francisca olha para trás e reconhece uma mudança recente.

“Tudo o que era uma certeza absoluta para mim, passou a ser uma incerteza.”

Antes, tentava não sentir algumas emoções. Hoje, tenta acolhê-las.

“Hoje em dia eu sinto-as todas.”

Quando se fala de crenças limitantes, assume sem resistência.

“100%. Espero continuar a ir eliminando-as. Porque ainda devo ter muitas.”

E explica que essa consciência veio com o crescimento.

“Foi uma coisa que me apareceu muito com a idade, com as dores da idade e tudo mais.”

A vida, diz ela, tem forma de nos obrigar a olhar para aquilo de que fugimos.

“Há muitas alturas da vida em que a vida quase nos põe um espelho à frente. E quanto mais nós fugimos, mais nós somos obrigados a confrontá-las.”

Mesmo a trabalhar no sonho, foi confrontada com questões pessoais.

“Mesmo trabalhando agora no meu sonho, eu fui confrontada com muitas questões pessoais em relação a esse sonho.”

Ainda assim, a gratidão domina.

“Estou mesmo muito grata pela forma como a vida se tem revelado para mim. Sinto-me super sortuda.”

Lisboa, Porto e uma casa entre duas cidades

Natural do Porto, Francisca vive agora entre o Norte e Lisboa. Mudou-se para a capital há cerca de um ano e meio.

A adaptação não foi imediata.

“Lisboa, vou admitir que quando eu vim para cá a primeira vez eu estava um bocadinho pé atrás.”

Mas a cidade acabou por ganhar outro lugar.

“Lisboa revelou-se para mim um sítio tão especial que eu já sinto que isto também é uma parte de mim.”

Foi em Lisboa que saiu de casa e criou o seu mundo.

“É aqui que eu pela primeira vez saio de casa e crio o meu mundinho e vivo com duas amigas, o que é espetacular.”

E essa autonomia tem valor.

“Tudo o que eu tenho aqui é uma conquista para mim.”

Sobre Lisboa, não usa a palavra abraço. Prefere outra imagem.

“Eu diria que é um sorriso. Mas é bom, eu gosto mesmo bastante de Lisboa.”

As letras, o som e o universo cinematográfico

Quando lhe é pedido que explique o que a distingue, Francisca começa pelas letras.

“Eu diria que se calhar eu começaria pelas minhas letras.”

O processo foi racional e consciente.

“Eu antes escrevia um género de letras e eu tive de parar à frente da minha cadeira e dizer quais é que eram as letras que eu teria realmente interesse de ouvir e vontade de cantar.”

Mas não bastava cantar. Era preciso querer berrar.

“Eu pensei quais é que eram as letras que eu quero berrar.”

Para isso, teve de calar inseguranças.

“Precisei de batalhar aqui com um bocadinho de pensamentos, tipo o que é que vão pensar de mim, e o que é que vão dizer sobre isto, e o que é que vão achar sobre aquilo.”

A escrita tornou-se um lugar quase sagrado.

“Quando eu estava a escrever, aquilo era um lugar sagrado, não havia pensamento nenhum, havia só escrita.”

Depois, vem o som.

“Eu sempre fui muito ligada ao rock, e fico mesmo feliz de ter uma equipa que está a apostar nesta sonoridade mais internacional.”

Mas essa sonoridade tem instrumentos, corpo e vida.

“Há ambiente live, há músicos a serem gravados ao vivo, há músicas que vivem muito o instrumental, há solos de guitarra, bateria, baixo, essas coisas todas que para mim dão muita vida à música.”

E há ainda o lado visual.

“Uma coisa que eu tenho tentado fazer, e que a minha equipa tem-me ajudado imenso, é criar um universo meio cinematográfico à volta de todo este projeto.”

Francisca quer que músicas, concertos e vídeos façam parte de uma mesma experiência.

“Gostava que tanto os concertos, como as músicas, como os vídeos, fizessem todos parte de alguma coisa que fosse também puro entretenimento.”

Depois, deixa uma imagem bonita.

“Eu acho que é bom e importante esses momentos em que a nossa alma meio que dança, sozinha.”

“Altar” é o vídeo mais forte até agora

Sobre o videoclip de “Altar”, Francisca não esconde entusiasmo.

“Eu acho que é o melhor vídeo até agora que nós já fizemos.”

A artista sente que os vídeos têm vindo a afunilar uma linguagem própria.

“Nós fomos afunilando esse universo mais irónico e funny, meio nonsense, dos vídeos, que eu gosto muito.”

Esse território também lhe permite explorar outra faceta.

“É super fixe para mim, porque eu consigo explorar aqui um bocadinho a minha veia acting, que eu nunca explorei muito.”

Em “Altar”, esse lado foi levado mais longe.

“Fomos mesmo profundamente ver esse universo mais nonsense e mais engraçado, o que é giro, porque batalha com a dramatização que é a letra.”

E deixa a promessa.

“Posso dizer que eu acho que é um videoclip tão brutal, e acho que vai fazer muitas pessoas rir.”

A letra não é exactamente leve. Mas Francisca gosta dessa contradição.

“Apesar da letra não ser propriamente risória, eu acho que a dor tem essa vertente meio tão comum a toda a gente, tem uma parte que é mais leve, que é mais engraçada.”

Cantar tristeza com som alegre

Francisca reconhece que há tristeza nas canções. Mas recusa uma abordagem pesada.

Quando lhe é sugerido que canta a tristeza através de uma sonoridade alegre, responde sem hesitar.

“Sim.”

E desenvolve a ideia.

“Eu comparo-me com alguns autores que exploram mais a dor, e eu penso: estas pessoas devem estar muito mais confortáveis com a dor do que eu.”

No caso dela, há sempre uma tentativa de encontrar um lado luminoso, ou pelo menos irónico.

“Eu, ao passar a minha vida toda um bocadinho menos confortável com esta profundidade da dor, tenho tendência a arranjar alguma parte positiva nela.”

Não se trata de dizer que a dor é boa.

“Não que a minha dor seja positiva, que não é. Simplesmente, eu acho que há alguma parte engraçada na dor.”

E talvez seja esta a síntese de Francisca Borges: sofrer, sim, mas com uma guitarra, uma frase ácida e um videoclip capaz de fazer rir.

O Coliseu do Porto como sonho

Entre as salas que um dia gostaria de pisar, o Coliseu do Porto aparece quase inevitavelmente.

Francisca assume que sempre teve essa tendência para se imaginar em palcos grandes.

“Eu tenho o otimismo, desde que sou pequena, de me imaginar nos palcos assim que eu vejo.”

Mas a imaginação não elimina o medo.

“Depois na prática eu morreria mesmo se estivesse naquele palco, mas é exatamente isso que nós queremos, não é?”

A frase seguinte diz muito sobre a forma como olha para os objectivos.

“O medo só mostra quão as coisas são importantes para nós.”

E conclui: “Eu acho que era uma conquista incrível se um dia eu conseguisse atuar num palco daqueles.”

Francisca numa palavra: curiosa

No fim, quando lhe é pedido que se defina numa só palavra, Francisca demora. Natural. Quem escreve, fala e pensa tanto dificilmente cabe numa palavra.

Mas escolhe uma.

“Curiosa.”

E explica.

“Eu sou uma pessoa muito curiosa. Por emoções, por realidades, por escritas, por projetos.”

A curiosidade atravessa a carreira.

“Eu acho que toda a minha carreira eu consigo afunilar muito na minha curiosidade. Essa curiosidade de experimentar, de dizer coisas novas e fazer caras, coisas um bocado novas para mim.”

É uma definição honesta. Francisca Borges parece mesmo alguém que ainda não quer fechar nenhuma porta.

Torradas, margaritas e uma frase de engate impossível

Na parte mais leve da conversa, Francisca também não tentou parecer mais sofisticada do que é.

Quando lhe perguntei o prato favorito, respondeu sem criar personagem.

“Sinceramente é torradas com manteiga. É que eu não consigo mentir.”

E insistiu.

“Eu consigo pensar em pratos que eu adoro, mas não há nada que me saiba melhor do que torradas com manteiga. Não me canso. Eu como todos os dias.”

Entre vinho e cerveja, hesitou.

“Vinho. Não. Não, cerveja. Cerveja.”

Depois explicou: “Cerveja. Super Bock.”

Sobre bebidas para sair à noite, apontou margaritas.

“Eu adoro margaritas. Adoro, acho que é por causa do sal, com aquilo entretenho-me. Eu fico, tipo, a roubar o copinho por causa do sal.”

E ainda houve espaço para a melhor frase de engate que ouviu.

“Uma vez, eu estava a passar uma bomba de gasolina. E estava lá um senhor que é drogado. Eu passei e ele disse: por ti eu deixava a droga. E eu achei incrível. Fiquei a sentir-me incrível.”

Francisca ri-se de si. E isso é parte do encanto. Não se leva demasiado a sério, mesmo quando leva o projecto muito a sério.

Daqui a cinco anos: música, casa e coisas semeadas

Quando olha para os próximos cinco anos, Francisca não fecha o futuro.

“Daqui a cinco anos eu vou ter 30.”

Depois, abre as possibilidades.

“Eu não sei. Eu vou deixar as possibilidades todas abertas. Mas posso dizer que eu quero continuar sempre com a música.”

A música, essa, não parece estar em causa.

“Acho que a música vai fazer sempre parte de mim. Desde que nasci até ao dia em que…”

Também fala de família, casa e vida.

“Gostava, se calhar, aos 30, de já ter uma familiazinha. Gostava.”

Depois, ri-se da distância aparente dos 30.

“As pessoas dizem aos 25 que achamos que os 30 estão a mil quilómetros de distância, não é? Daqui a bocadinho eles já estão aqui.”

No essencial, espera que o presente tenha consequência.

“Espero que as coisas que eu estou a semear hoje tenham outra vida. Que eu consiga olhar para trás e dizer: ah, eu fiz aquilo.”

Uma artista a construir o próprio altar

Francisca Borges chega a “Altar” sem se colocar num pedestal. Pelo contrário, parece desconfiar dos pedestais.

Prefere a escrita. A verdade emocional. O humor que desmonta a tragédia. Prefere a pop com guitarras. O vídeo com sarcasmo. Prefere que a dor também tenha uma parte ridícula, porque a vida, tantas vezes, é mesmo assim.

O que se percebe nesta entrevista é que Francisca não quer apenas lançar canções. Quer construir um universo. Um lugar onde a vulnerabilidade possa berrar, onde a ironia seja defesa e linguagem, e onde o público se sinta menos sozinho.

“Eu acho que no dia em que nós pararmos de mudar, acabou.”

Nesse sentido, talvez esteja aí o ponto. Francisca Borges ainda está a mudar. Ainda está a descobrir. Ainda está a testar limites.

Mas já há uma coisa muito clara: a sua música não quer ser paisagem.

Ou seja, quer ser companhia. Catarse. Confissão. Quer ser entretenimento. Quer ser, como ela própria escreveu, uma amiga para dançar, gritar e chorar junto.

Por isso, para uma artista em início de caminho, já é muito.

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