Joana Marques e Ricardo Araújo Pereira no FÓLIO: “O advento da internet fez com que a estupidez não tenha limites”, foi referido.
Humor e liberdade em debate no Festival Literário de Óbidos
O FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos foi palco, no sábado à noite, de uma conversa marcada pela ironia e reflexão entre Joana Marques e Ricardo Araújo Pereira.
O tema da sessão foi “Liberdade”, mas rapidamente se transformou num retrato mordaz da atualidade, da cultura digital e dos limites do humor.
A humorista da Rádio Renascença confessou que nunca lhe faltam temas para a sua rubrica “Extremamente Desagradável”:
“O advento da internet fez com que a estupidez não tenha limites, e isso agrada-me muito. O drama é ver e ouvir tudo até de manhã.”
“As pessoas querem comprar um pack celebridade”
Durante a conversa, Joana Marques comentou a crescente obsessão pelas redes sociais e pela imagem pública.
“As pessoas têm uma obsessão grande com a marca pessoal. Querem fazer a diferença, e isso para mim é ótimo”, afirmou, sublinhando que muitos desejam apenas os benefícios da fama, sem críticas ou contradições.
Ricardo Araújo Pereira acrescentou que “as pessoas querem ser tratadas no espaço público como se fossem uma criança de 4 anos, a quem os pais dizem: o teu desenho está lindo, parece um Picasso”.
“Durante muito tempo, vimos gente aplaudir cancelamentos”
Joana Marques alertou para as novas ameaças à liberdade de expressão nas redes sociais.
“Durante muito tempo, vimos gente a aplaudir por haver pessoas a serem canceladas. Uma fatia generosa da população foi festejando isso, em relação a um negacionista, ou a qualquer outra coisa com que não concordassem.”
A humorista classificou esta tendência como perigosa:
“É preferível dizerem o que quiserem, até porque ficam apresentados.”
Ricardo Araújo Pereira partilhou da mesma preocupação, reforçando que as maiores ameaças à liberdade vêm hoje do poder económico:
“Se eu disser mal da Cofina, o Correio da Manhã, a Sábado, a CMTV, o NOW ficam fechados para mim.”
“A liberdade está sob ameaça”
Um dos momentos mais comentados foi a referência ao processo movido pelos Anjos contra Joana Marques, por um vídeo em que a humorista ironizava uma atuação do duo.
“A liberdade está sob ameaça. A prova está aqui: a Joana esteve quatro dias em tribunal. Não se pode punir uma pessoa por dizer que não gostou da forma como cantaram”, recordou Ricardo Araújo Pereira.
Joana Marques acrescentou:
“Um dos irmãos disse-me que não podia admitir que alguém pusesse em causa a sua performance, como se estivessem acima da crítica. Nunca imaginei que aquele vídeo desse chatice. É a piada menos ofensiva que fiz em muitos anos.”
Com o habitual humor, ironizou:
“Se calhar, as piadas que dizemos ao domingo, no ‘Isto é gozar com quem trabalha’, davam dez anos de cadeia em Caxias.”
E garantiu:
“Fazer uma piada ainda não é delito de opinião.”
“O discurso humorístico tem uma latitude maior”
O diálogo entre os dois humoristas terminou com uma reflexão sobre os limites do humor.
Joana Marques frisou que “os limites estão estabelecidos na lei” e que o humor “não é uma exceção”.
Ricardo Araújo Pereira recordou ainda uma das críticas dos irmãos Rosado, que não aceitaram a ironia usada:
“As metáforas dão-se no 6.º ano”, ironizou o comediante, destacando que o humor deve exagerar para expor comportamentos.
O criador de “Isto é gozar com quem trabalha” concluiu com um tom sério:
“Do ponto de vista judicial, percebe-se que não há vontade de condenar ninguém. Mas quando o primeiro-ministro ou o presidente da República é que são os palhaços, o nosso trabalho fica bizarro.”
Joana Marques rematou com lucidez:
“Quando essa seriedade já não existe, dificulta muito o nosso trabalho.”
Foto: C.M. Óbidos
