Lote 19 estreia no Teatro Variedades e põe a felicidade, a habitação e a solidão a caber num metro quadrado

Lote 19 estreia no Teatro Variedades e põe a felicidade, a habitação e a solidão a caber num metro quadrado, destacou o comunicado de imprensa.

Um terreno vazio, um velho que lança sementes à terra e um edifício prometido como “espaço para a felicidade”. É deste contraste que nasce Lote 19 – Felicidade por Metro Quadrado, espetáculo que chega ao Teatro Variedades, em Lisboa, a 2 de setembro, levando para palco uma comunidade empurrada para as margens da cidade e para vidas onde habitação, solidão e esperança se cruzam.

Produzida pela Companhia da Esquina, a peça parte do romance Quando as Girafas Baixam o Pescoço, de Sandro William Junqueira, e tem adaptação e encenação de Jorge Gomes Ribeiro. O espetáculo permanecerá em cena até 13 de setembro.

Mais do que transformar a crise da habitação num tema abstrato, Lote 19 olha para quem vive dentro dela. A Companhia da Esquina explica, em comunicado, que a adaptação se concentra nas pessoas e nas relações criadas entre personagens construídas a partir de diferentes arquétipos sociais.

São o Velho, o Homem Desempregado, a Mulher Gorda, a Rapariga Magra, o Jovem Musculado ou o Homem Exemplarmente Vestido. Nomes sem identidade individual explícita, mas suficientemente reconhecíveis para transportarem para o palco diferentes lugares de uma mesma realidade social.

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Jorge Gomes Ribeiro descreve-as como pessoas que “foram de algum modo obrigadas a parar as suas vidas neste ciclo de capitalismo selvagem”, sem que isso lhes retire capacidade de escolha. Apesar das circunstâncias, acrescenta o encenador, mantêm um “comportamento de livre-arbítrio face às agruras da vida e do quotidiano dos bairros”.

Um velho semeia antes de chegar o empreiteiro

No centro da história existe um espaço ainda por ocupar. É ali que deverá nascer o Lote 19, mas antes de máquinas, cimento e novos moradores há um gesto aparentemente insignificante: um velho coloca sementes na terra.

É a partir desse momento que várias gerações começam a cruzar-se numa narrativa feita de encontros, desencontros, afetos e pequenas resistências. A construção do prédio avança, mas o espetáculo interessa-se sobretudo por aquilo que acontece à volta dele e por quem tenta encontrar algum sentido num bairro marcado pelo desenraizamento.

O próprio subtítulo, Felicidade por Metro Quadrado, joga com uma das tensões centrais da peça. O direito à habitação surge enquanto condição básica da vida, mas também através da ironia de uma determinada ideia contemporânea de conforto.

O projeto imobiliário promete um “espaço para a felicidade”, equipado com ginásio e piscina no rooftop. A imagem de abundância colide, porém, com outra realidade descrita pela produção: divisões e janelas cada vez mais pequenas, onde as personagens quase não conseguem caber.

A felicidade acaba, literalmente, contabilizada ao metro quadrado.

Paula Neves: «Uma fatia da vida como ela é»

Paula Neves integra o elenco no papel da Rapariga Magra, personagem que a atriz descreve como uma “rapariga complicada em termos de cabeça e do seu dia a dia”.

Para a atriz, aquilo que chega ao palco não pretende afastar-se do quotidiano para construir uma realidade distante.

“Uma fatia da vida como ela é, da realidade, uma fatia do que se passa num prédio, num bairro”, afirma Paula Neves sobre Lote 19.

A declaração ajuda também a enquadrar o caminho seguido pela Companhia da Esquina, que tem procurado trabalhar questões sociais e políticas através das vidas concretas das personagens. Neste caso, a habitação está inevitavelmente presente, mas não funciona como único assunto da peça.

Solidão, pertença, afetos, envelhecimento, exclusão e a capacidade de continuar a imaginar outra vida atravessam igualmente uma comunidade onde o espaço físico disponível parece diminuir à medida que cresce a necessidade de encontrar lugar para existir.

Onze atores dão vida à comunidade de Lote 19

Além de Paula Neves, o elenco reúne André Nunes, Ângelo Torres, Carla Chambel, Ana Lúcia Palminha, Beatriz Nabais, José Mateus, Madalena Perdigão, Pedro Pernas, Rita Fernandes e Tiago Costa.

A adaptação e encenação pertencem a Jorge Gomes Ribeiro, a partir da obra de Sandro William Junqueira, numa produção da Companhia da Esquina.

Lote 19 – Felicidade por Metro Quadrado estreia a 2 de setembro no Teatro Variedades e fica em cena até 13 de setembro. As sessões realizam-se de quarta-feira a sábado, às 21h, e aos domingos, às 16h.

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