MARO, Interpol e Grace Jones mostraram três formas de ocupar o palco no MEO Kalorama no primeiro dia do festival.
Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Rui Pereira
A primeira noite do MEO Kalorama não viveu apenas do concerto de Robbie Williams. Antes da atuação do britânico, o Parque da Bela Vista recebeu três propostas muito diferentes, protagonizadas por MARO, Interpol e Grace Jones.
MARO procurou transportar a intimidade da sua música para o Palco MEO. Mais tarde, os Interpol apresentaram um concerto escuro, rigoroso e pouco dado a conversas. Já Grace Jones entrou no Palco Sagres depois da meia-noite e transformou cada canção numa extensão da imagem que construiu ao longo da carreira.
Foram três maneiras distintas de lidar com um festival e com o público que circulava entre os dois principais palcos do recinto.
A proximidade de MARO encontrou limites no palco principal
MARO subiu ao Palco MEO às 21h00 para a estreia no festival. A cantora portuguesa abriu o concerto com So Much Has Changed, tema que dá nome ao trabalho editado este ano e que ocupou uma parte importante do alinhamento.

A artista apresentou-se sorridente e agradecida pelo regresso aos palcos nacionais. A relação com o público foi construída através da simpatia e da delicadeza que caracterizam as suas atuações, embora nem sempre tenha recebido a resposta que procurava.

A noite estava fresca e a plateia acompanhou grande parte do concerto de forma tranquila. Houve aplausos, algumas lanternas acesas e pessoas a balançarem ao ritmo das músicas, mas faltou maior participação nos momentos em que MARO convidou o público a cantar.

Esse ambiente não retirou qualidade à atuação. Canções como can you see me?, KISS ME e Love’s Not to Beg confirmaram a capacidade da artista para trabalhar diferentes camadas vocais e sonoras sem abandonar a proximidade que tem marcado o seu percurso.

O desafio esteve sobretudo na dimensão do palco. A música de MARO cresce muitas vezes através do silêncio, dos pormenores e da atenção dada a cada palavra. Transportar esse ambiente para o principal palco de um festival exige uma resposta do público que, em alguns momentos, não chegou com a intensidade esperada.

Ainda assim, a cantora não tentou contrariar a própria identidade para procurar uma reação mais imediata. Manteve o concerto dentro do registo que a distingue e mostrou o mais recente capítulo de uma carreira com crescente projeção internacional.

Com os Interpol, a distância faz parte da identidade
Pouco depois das 23h10, uma iluminação encarnada e quatro figuras quase imóveis anunciaram a chegada dos Interpol ao Palco MEO. Paul Banks apresentou-se de fato preto e óculos escuros, mantendo a postura reservada que acompanha a banda nova-iorquina desde os primeiros discos.

O concerto começou com This Mirror Weighs a Ton, canção que dá nome ao oitavo álbum de estúdio do grupo. O trabalho foi lançado precisamente na sexta-feira, 28 de agosto, tornando a passagem por Lisboa numa das primeiras oportunidades para ouvir o novo material ao vivo.

Não houve grandes discursos ou tentativas de criar uma proximidade que não pertence à linguagem dos Interpol. Paul Banks falou pouco, os agradecimentos foram breves e a banda concentrou-se na música. A distância em relação à plateia não surgiu como desinteresse, mas como parte de uma identidade construída através da contenção, das guitarras sombrias e da voz grave do vocalista.

All the Rage Back Home trouxe o primeiro aumento de intensidade. C’mere foi recebida com atenção pelas primeiras filas, enquanto Evil conseguiu provocar uma reação mais evidente e aproximar o concerto dos discos que marcaram o início do século.

A atuação alternou entre o novo álbum e temas de diferentes fases da discografia. See Out Loud e Iron City representaram This Mirror Weighs a Ton, enquanto Untitled, NYC, The New e PDA recuperaram o álbum de estreia, Turn on the Bright Lights, editado em 2002.

Foi precisamente quando os Interpol regressaram aos primeiros trabalhos que o público respondeu com mais entusiasmo. Obstacle 1 encontrou um dos coros mais fortes do concerto e Slow Hands encerrou a atuação com maior energia do que aquela que tinha marcado os primeiros minutos.

A contenção resultou num espetáculo musicalmente sólido, mas nem sempre conseguiu preencher toda a dimensão do Palco MEO. Banda e público mantiveram alguma distância durante cerca de 50 minutos, interrompida principalmente pelos temas mais conhecidos.

Os Interpol permaneceram, contudo, fiéis àquilo que são. Não correram pelo palco, não multiplicaram gestos e não procuraram animar artificialmente a plateia. Num festival marcado por propostas visualmente exuberantes, optaram pelo fato preto, pela iluminação reduzida e pelas canções.

Grace Jones chegou atrasada e dominou o Palco Sagres
O concerto de Grace Jones estava marcado para as 00h15, mas começou cerca de 20 minutos depois. A espera não afastou o público que se reuniu diante do Palco Sagres para assistir ao regresso da artista jamaicana a Portugal.

Grace Jones entrou com uma máscara dourada e abriu a atuação com Nightclubbing, numa versão marcada pelo reggae. Aos 78 anos, apresentou um concerto em que a música nunca esteve separada da moda, da imagem e da performance.

This Is e Private Life deram continuidade ao alinhamento, antes de Demolition Man, My Jamaican Guy e I’ve Seen That Face Before, também conhecida pela ligação a Libertango. A voz grave de Grace Jones manteve-se no centro, acompanhada por uma construção sonora onde a eletrónica e o reggae continuam a ocupar um espaço determinante.

A artista pediu um banco para se sentar e brincou com o atraso, atribuindo-o à subida até ao palco. Isso não a impediu de manter uma presença constante. Grace Jones tocou pratos de bateria com baquetas, dirigiu os músicos e encontrou diferentes formas de prender a atenção, mesmo quando permanecia sentada.
O concerto passou também por Williams’ Blood, Amazing Grace e The Key. Seguiram-se Love Is the Drug, tema originalmente editado pelos Roxy Music, e Pull Up to the Bumper, um dos maiores êxitos de Nightclubbing.

A relação de Grace Jones com as versões voltou a ficar evidente. Ao longo da carreira, a artista apropriou-se de músicas de outros intérpretes e levou-as para um território próprio, tornando difícil separar o original da leitura criada pela jamaicana.
Slave to the Rhythm ficou reservada para o final, numa versão prolongada que reuniu voz, ritmo e performance. O atraso condicionou o horário, mas não diminuiu a receção de um público disposto a acompanhar uma artista cuja influência ultrapassa há muito a música.

Grace Jones não apresentou um concerto assente apenas na nostalgia. Recuperou temas de diferentes fases da carreira, mas manteve a dimensão visual e performativa que a transformou numa figura singular da cultura pop.
Entre a delicadeza de MARO, a sobriedade dos Interpol e a presença de Grace Jones, o primeiro dia do MEO Kalorama mostrou como um mesmo festival pode acolher maneiras muito diferentes de comunicar com uma plateia.
A quinta edição prossegue este sábado, 29 de agosto, com atuações de Ms. Lauryn Hill, Vince Staples, Unknown Mortal Orchestra e Sam The Kid com Orquestra e Orelha Negra. No domingo, 30, o encerramento ficará marcado por nomes como Deftones, Turnstile, Clipse e Peaches.

