Robbie Williams vestiu o MEO Kalorama de encarnado e rosa choque sob a lua cheia, num concerto inatacável na sua qualidade.
Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Rui Pereira
O britânico fechou a primeira noite do festival com uma sucessão de êxitos, humor e várias homenagens. Começou vestido integralmente de encarnado, acrescentou depois um espampanante casaco longo de pelos e regressou em rosa choque para conduzir o público até Angels.
Antes de Robbie Williams aparecer, já havia qualquer coisa a prender os olhos por cima do Palco MEO. A lua cheia, enorme e muito luminosa, surgia exatamente sobre a estrutura, 24 horas depois do eclipse lunar. Durante a espera, parecia apenas uma feliz coincidência. Quando o britânico entrou vestido de encarnado, passou a fazer parte do enquadramento.
Ainda não trazia o espampanante casaco longo de pelos. Esse apareceria mais tarde. Para a entrada bastaram o conjunto integralmente encarnado, a presença de quem sabe que milhares de pessoas esperaram até à 1h20 da madrugada para o ver e Let Me Entertain You.
Robbie Williams começou como se o primeiro dia do MEO Kalorama não levasse já várias horas. Ignorou o cansaço acumulado no Parque da Bela Vista e pediu uma resposta imediata, devolvida através de braços no ar, gritos e uma plateia que reconheceu a música aos primeiros acordes. A partir daí, o recinto ficou nas suas mãos.
Let Love Be Your Energy prolongou a entrada e deu-lhe espaço para começar a conversar. Robbie perguntou, provocou, brincou com o próprio ego e recuperou a imagem de conquistador que o acompanhou durante os anos 90. Afirmou ter reconhecido alguém com quem teria dormido nessa década, embora a barba agora dificultasse a identificação, e arrancou uma gargalhada geral. Não havia qualquer preocupação em parecer distante ou misterioso. Robbie queria o centro e assumia-o sem pudor.
Rock DJ confirmou que aquele não seria um concerto construído apenas à volta das canções. O tema fez o público dançar, enquanto Robbie percorreu o palco, puxou pelas primeiras filas e usou os ecrãs para recuperar imagens de Better Man, o filme inspirado na sua vida. O cantor perguntou quem já tinha assistido e, com a habitual falsa modéstia, classificou-o como o melhor filme alguma vez realizado.
A brincadeira serviu de entrada para uma conversa mais séria. Robbie falou da mulher, Ayda Field, e dos filhos, explicando que foi através da família que encontrou uma estabilidade que a fama nunca lhe tinha conseguido oferecer. Love My Life nasceu desse reconhecimento e foi dedicada às crianças, às suas e às que estavam entre o público.
“Eles salvaram-me. Não salvaram a popstar, salvaram o Robert Peter Williams.”
A frase revelou uma das linhas que atravessaria todo o concerto. Robbie Williams nunca abandonou a personagem exuberante, mas deixou que o homem aparecesse várias vezes por baixo dela. O humor continuou presente, assim como a necessidade de aprovação, mas já não servia para esconder tudo o resto.
Também não escondeu que a atuação estivera em risco. Contou que tinha passado mal durante a semana, sentia-se doente e poderia ter cancelado o concerto. Pediu então que o público o ajudasse a chegar ao fim.
“Podíamos ter cancelado o espetáculo. Esta semana estive mal, sentia-me doente. Não me sinto muito bem esta noite, mas vocês vão guiar-me, certo?”
A plateia aceitou. Sempre que a voz lhe falhou ligeiramente ou uma passagem surgiu menos segura, a resposta do outro lado cresceu. Robbie não apresentou uma atuação vocal irrepreensível, mas também nunca deixou que isso condicionasse o espetáculo. A forma como se movimentou, conduziu as transições e manteve o público dentro de cada momento tornou secundárias algumas oscilações.
Pretty Face representou Britpop, o álbum mais recente, antes de o alinhamento voltar a mergulhar nas canções que fizeram a carreira do britânico. Supreme encontrou milhares de vozes preparadas, Sexed Up e Candy foram ligadas numa mesma sequência e Relight My Fire trouxe consigo uma memória dos Take That.
Robbie recordou que, quando ainda integrava o grupo, quis assumir a voz principal do tema, mas não lhe permitiram fazê-lo. Décadas depois, cantava-o sozinho perante um Parque da Bela Vista cheio. Contou o episódio sem transformar a noite num acerto de contas, embora fosse impossível não reconhecer o sabor da desforra.
Something Beautiful voltou a aproximá-lo das primeiras filas. Millennium, recebida como uma daquelas canções que já não precisam de introdução, mostrou como o repertório de Robbie Williams continua a atravessar idades diferentes. Havia quem tivesse crescido com aqueles temas e quem os tivesse descoberto muito mais tarde, mas os refrões chegavam-lhe com a mesma força.
Foi durante esta primeira parte que apareceu o casaco longo de pelos. Encarnado, volumoso e assumidamente excessivo, acrescentou uma nova camada ao visual inicial. Noutro artista, poderia ter engolido a figura que o vestia. Em Robbie Williams, parecia apenas prolongá-la.
O casaco não foi usado desde a entrada, mas chegou no momento certo para elevar o guarda-roupa à dimensão do espetáculo. Robbie já tinha conquistado a atenção. Faltava-lhe apenas aumentar a imagem.

O rosa choque trouxe Sinatra e Dolly Parton
A mudança mais evidente da noite aconteceu quando Robbie Williams abandonou o encarnado e regressou com um blazer e umas calças em rosa choque, conjugados com uma camisola preta. O impacto visual permaneceu, mas a postura alterou-se. O provocador que dançara Rock DJ aproximou-se da figura do crooner que sempre admirou.
New York, New York levou-o para o universo de Frank Sinatra e permitiu-lhe trabalhar outro registo. Robbie segurou o tema com elegância, sem tentar apagar o lado excessivo que o tinha acompanhado até ali. O rosa choque garantia que continuava a ser ele, mesmo quando visitava músicas associadas a outros intérpretes.
A apresentação da banda surgiu depois integrada num longo medley. Em vez de interromper o concerto para uma sequência de nomes e aplausos, Robbie deu espaço aos músicos através de fragmentos de temas imediatamente reconhecíveis. Personal Jesus, We Will Rock You, YMCA, Just Can’t Get Enough e Hey Jude passaram pelo Palco MEO, criando um inesperado percurso por diferentes décadas da música popular.

A plateia não precisou de muito para entrar em cada canção. Bastavam alguns acordes e o coro aparecia. Já passava das duas da manhã quando YMCA colocou milhares de braços a repetir a coreografia. Robbie Williams não tentou esconder o lado popular do espetáculo nem procurou transformar a atuação numa demonstração de bom gosto. Se uma música fazia o público dançar, tinha lugar naquela noite.
Pelo meio, 9 to 5 e Jolene abriram espaço para a homenagem a Dolly Parton, que tinha morrido três dias antes, aos 80 anos. Robbie apontou para o céu, declarou o carinho pela cantora norte-americana e deixou que a plateia respondesse com uma prolongada salva de palmas.
A homenagem não precisou de interromper o concerto. Entrou dentro dele, através de duas das canções mais conhecidas de Dolly Parton, da sua imagem nos ecrãs e de algumas palavras de Robbie. Durante aqueles minutos, a festa perdeu velocidade sem perder intensidade.
Kids devolveu depois a noite ao repertório do britânico. O dueto que gravou com Kylie Minogue foi adaptado à atuação e conduziu Robbie novamente até junto das primeiras filas. Foi aí que encontrou Isabel, uma fã do Porto que celebrava o aniversário.
O cantor fez questão de lhe dar os parabéns e, pouco depois, transformou-a na destinatária de She’s the One. Robbie olhou na sua direção durante a interpretação e criou um momento de proximidade dentro de um concerto para milhares de pessoas. Isabel passou a ter uma canção naquela noite, enquanto o restante público acompanhava a dedicatória.
A capacidade para reduzir um recinto daquela dimensão a uma conversa com uma única pessoa continua a ser uma das grandes qualidades de Robbie Williams. Descer até às grades não chegaria. Era necessário encontrar uma história e saber o que fazer com ela. O cantor percebeu imediatamente o potencial daquele aniversário e não o desperdiçou.
Depois da festa, da roupa, das piadas e da proximidade com Isabel, chegou o momento mais pessoal da atuação. Robbie falou sobre o pai, que enfrenta a doença de Parkinson, e explicou que foi através dele que conheceu My Way, tema imortalizado por Frank Sinatra.
Recordou o orgulho com que o pai continua a acompanhar a sua carreira e não resistiu a terminar a declaração com uma piada sobre si próprio.
“Tem orgulho em mim, diz que sou o melhor. Ele está certo.”
As fotografias da família começaram a surgir nos ecrãs quando Robbie iniciou My Way. O rosa choque continuava a dominar a imagem e a banda mantinha a grandeza necessária para acompanhar o tema, mas o centro daquele momento estava longe do guarda-roupa ou da personagem.

Robbie cantava para o pai. A interpretação não apagou os episódios difíceis da relação entre ambos, mas reconheceu a influência de um homem que lhe apresentou a música e o espetáculo. Depois de passar grande parte da madrugada a fazer rir, o britânico permitiu que o silêncio entre algumas frases tivesse outro peso.

My Way terminou com uma carga emocional que parecia anunciar o fim. Robbie Williams saiu do palco e as luzes apagaram-se. Durante alguns instantes, houve quem acreditasse que a despedida estava consumada, embora ainda faltassem as duas canções que muitos esperavam desde o início.
Angels encontrou milhares de luzes acesas
Robbie Williams regressou ao palco com Feel. Os primeiros acordes foram imediatamente reconhecidos e a voz do público voltou a preencher o Parque da Bela Vista. O cantor já não precisava de explicar o que queria. Bastava baixar o microfone ou apontá-lo na direção da plateia.
Ainda faltava Angels. O pedido tinha sido ouvido várias vezes ao longo do concerto e Robbie guardou-o para o lugar onde o tema continua a ter mais força.
Antes de começar, pediu que fossem acesas as lanternas dos telemóveis. Em poucos segundos, milhares de pequenos focos brancos apareceram diante do Palco MEO. Foi então que a beleza daquela noite se mostrou por inteiro.

Por cima da estrutura permanecia a lua cheia, 24 horas depois do eclipse lunar. Em baixo, as lanternas revelavam a dimensão do público. Robbie Williams ficou entre as duas imagens enquanto os primeiros versos de Angels começaram a ouvir-se.
A plateia tomou conta do refrão e o cantor deixou-a avançar. Durante alguns momentos, permaneceu a escutar uma música lançada em 1997 regressar-lhe através de milhares de vozes. Havia pessoas abraçadas, telemóveis levantados e rostos iluminados pelos pequenos focos de luz.
A imagem de Dolly Parton voltou a surgir no ecrã, prolongando a homenagem feita anteriormente. A ausência da cantora, as fotografias do pai, as palavras dedicadas aos filhos e o aniversário de Isabel acabaram reunidos numa despedida que já não dependia apenas da música.
O dress code tinha ajudado a marcar cada fase do concerto. O encarnado dominara a entrada, o casaco longo de pelos aumentara o excesso e o rosa choque acompanhara Robbie até ao lado mais clássico e emotivo do alinhamento. Ainda assim, a imagem decisiva da noite surgiu sem precisar de uma nova mudança de roupa.
Robbie Williams estava diante de milhares de lanternas, com Angels cantada pelo Parque da Bela Vista e uma lua cheia incrivelmente bela colocada sobre o palco. Ao contrário de tudo o resto, aquela lua não tinha sido pensada pela produção, não fazia parte do alinhamento e não podia repetir-se noutra cidade da digressão.
À 1h20, Robbie Williams entrara a pedir que o deixassem entreter. Cerca de hora e meia depois, já não precisava de pedir nada. O MEO Kalorama cantava Angels e a noite tinha encontrado o seu final.

